Publicado em 5 de abril de 2022 por Tribuna da Internet

Ministro demonstra que não defende os interesses nacionais
Malu Gaspar
O Globo
Os relatórios da Diretoria de Governança e Conformidade da Petrobras sobre o histórico do executivo Rodolfo Landim e do consultor Adriano Pires assustaram o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, e técnicos da Corregedoria Geral da União. Segundo apontaram os documentos, os dois teriam dificuldades em passar pelos critérios do comitê interno que vai avaliar se eles têm ou não condições de ocupar os postos para os quais foram indicados.
O comitê se reúne nesta terça-feira (5) e o objetivo seria analisar o relatório e preparar um parecer que iria ser enviado aos acionistas que deliberariam no dia 13 sobre as indicações de Bolsonaro, que já não existem dada a desistência de Landim e Pires.
ANÁLISE DOS CURRÍCULOS – Nesse parecer, o comitê precisa resumir as conclusões das investigações, conhecidas internamente como “Background Check de Integridade”, ou BCI.
Landim, que é operador financeiro e presidente do Flamengo, foi indicado pelo presidente Jair Bolsonaro para presidir o conselho da estatal, mas desistiu de pleitear o posto. Adriano Pires, que é economista e consultor, foi escolhido para presidir a Petrobras, mas também já renunciou à indicação, devido aos conflitos de interesses, porque, na Petrobras, terá que decidir sobre acordo bilionário com empresa do empresário Carlos Suarez, dono de distribuidora de gás, que é seu amigo e cliente.
Quanto a Landim, de acordo com os documentos apresentados ao ministro Bento Albuquerque na última quarta-feira (30), o operador financeiro tem uma série de processos e acusações pendentes na Justiça que também atestam sua relação com o empresário Carlos Suarez.
NA CGU E NO TCU – Os mesmos documentos foram apresentados à Corregedoria-Geral da União. A conclusão é de que, se assumissem os cargos, Pires e Landim teriam “conflitos demais”, segundo pessoas que tiveram acesso às informações do relatório.
Essa questão dos conflitos de interesse também é a base de uma representação do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União para que Pires não assuma antes de uma investigação mais aprofundada.
Pires é consultor não só de Suarez, mas também da associação do setor (Abegás), da Compass, concessionária de gás do empresário Rubens Ometto, e de diversas outras empresas do setor.
PRÓXIMO AO MINISTRO – Pires também é bastante próximo do próprio Bento Albuquerque, responsável por sua indicação a Bolsonaro. As agendas oficiais do ministro indicam que os dois se reuniram 14 vezes desde 2019.
Em entrevista ao GLOBO logo após o consultor ser escolhido pelo presidente da República, o ministro disse que Adriano Pires seria a “pessoa mais adequada” para comandar a Petrobras.
Na presidência da empresa, Pires teria que decidir sobre contratos e disputas judiciais e terá acesso a todo tipo de informação confidencial.
CONTAS DE PASSAGEM – Para Landim, a parte mais delicada do relatório da diretoria de conformidade descreve o processo que mostra que ele recebeu em suas contas na Suíça depósitos de “contas de passagem” usadas para mandar recursos a Renato Duque e Pedro Barusco, executivos da Petrobras envolvidos no petrolão.
De sua conta, Landim enviou US$ 643 mil para uma conta de Suarez, também na Suíça, em maio de 2021.
A movimentação foi detectada na época da Lava Jato e está descrita em um processo movido pelo Ministério Público segundo uma comunicação formal enviada pelo MP suíço ao brasileiro no âmbito da operação Lava Jato.
FRAUDE E DESVIO – Os documentos sobre essas contas estão no processo movido pelo Ministério Público Federal contra Landim por fraude e desvio de recursos do fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, a Petros.
A Petros perdeu R$ 100 milhões em um fundo administrado pela Mare. No processo, o procurador da República Ancelmo Lopes pede a quebra de sigilo das contas de Landim, para apurar se as movimentações na Suíça tem algo a ver com o caso da Petros.
No final do ano passado, uma liminar do desembargador Ney Bello, do Tribunal Regional Federal de Brasília, cancelou o pedido de cooperação internacional entre Brasil e Suíça e suspendeu o processo até que seu mérito seja julgado em definitivo. Como isso não aconteceu, o caso de Landim continua pendente na Justiça.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Vejam a importância da imprensa livre. As denúncias de Malu Gaspar ajudaram a Petrobras a impedir a posse de Landim e Pires, duas raposas que o presidente da República e o ministro de Minas e Energia tentavam colocar para gerir o galinheiro da empresa. Se ainda estivessem por aqui, Francelino Pereira e Renato Russo perguntariam, fazendo dueto: “Que país é esse”? (C.N.)