segunda-feira, janeiro 17, 2022

Fauci falseou a verdade para esconder a origem do vírus em laboratório?




Emails entre cientistas americanos e britânicos mostram que havia uma séria suposição de que o novo coronavírus tenha sido manipulado artificialmente.

Por Vilma Gryzinski

Debates mais aprofundados “vão causar um prejuízo desnecessário à ciência em geral e à ciência da China em particular”.

É possível que um homem da ciência, Ron Fouchier, tenha disso isso? E é possível que outro especialista, Francis Collins, então diretor dos Institutos Nacionais de Saúde, renomado órgão público americano, tenha concordado e advertido que as suspeitas sobre a origem artificial do vírus da Covid-19 poderiam prejudicar a “harmonia internacional”?

Isso tudo numa conversa coordenada por Anthony Fauci, o veterano epidemiologista que se transformou na “cara” da pandemia nos Estados Unidos e é violentamente atacado, tanto por motivos políticos, quanto por indícios de que acobertou pesquisas feitas no infame laboratório de Wuhan que podem ter criado um monstro que escapou por acidente e continua a atormentar o planeta.

Os comentários constam de emails trocados depois de uma teleconferência entre doze cientistas americanos e britânicos em 2 de fevereiro de 2020. Só foram divulgados, parcialmente, agora, por pressão de deputados republicanos que conseguirão autorização para ver, em segredo, o seu teor. Assessores anotaram o teor da conversa.

Descontando-se possíveis erros de transcrição ou falta de contexto, além do interesse político dos republicanos em culpar a China pela pandemia, há trechos perturbadores.

O britânico Jeremy Farrar diz a Fauci e Collins que o vírus pode ter sido cultivado em tecidos humanos e escapado de um laboratório de baixo nível de segurança. O cultivo teria “criado acidentalmente um vírus fadado à rápida transmissão entre humanos”.

Farrar também menciona outro cientista, Mike Farzan, que descobriu como o vírus da Sars original se acopla às células respiratórias, causando a síndrome típica dessa família de doenças.

Farzan, segundo ele, estava justamente preocupado com o funcionamento desse mecanismo, tecnicamente chamado local de clivagem de furina, a enzima que propicia a acoplagem.

“Ele não consegue explicar isso como um evento (ocorrido) fora de laboratório. Embora haja caminhos naturais, seria extremamente improvável”.

“Como colocar tudo isso junto, acreditar numa série de coincidências, o que sabemos sobre o laboratório de Wuhan, como poderia vir da natureza – escape acidental ou evento natural”, especula Farrar, acrescentando que ele era 70% a favor da primeira hipótese e 30% da segunda. “Ou 60/40”.

Outro participante, Bob Garry, da Universidade do Texas, endossa: “Eu não consigo imaginar como isso pode ter saído da natureza”.

Andrew Rambaut, da Universidade de Edimburgo, também foca suas dúvidas no mecanismo de acoplagem do SARS-CoV-2, uma característica nunca vista em outros parentes dessa família viral.

As mensagens indicam que os participantes tinham dúvidas, naturais ao debate científico, que nunca vieram a público. Também se preocupam com a repercussão de suas especulações, como expressou o holandês Ron Fouchier, especialista em pesquisas sobre o ganho de função de vírus da gripe, ao dizer que o debate seria “prejudicial” à ciência e, especificamente, à ciência da China.

Em público, alguns dos participantes fizeram exatamente o oposto. Garry e Rambaut assinaram, com outros cientistas, um artigo publicado na Nature Medicine que foi importante para influenciar a sustentação da origem natural do vírus.

“Na época, eu acreditei nos virologistas reputados que diziam que o vazamento de laboratório podia ser descartado. Francamente, fui enganado”, escreveu no Telegraph o jornalista científico Matt Ridley, autor, com a pesquisadora canadense Alina Chan, do livro Viral: A Busca pela Origem da Covid-19.

Ridley obviamente acredita na origem artificial do vírus, seja pela manipulação genética, seja pelo cultivo em tecidos humanos até chegar à mutação de alta transmissilidade.

São hipóteses sem comprovação, mas as conversas privadas de cientistas renomados agora reveladas mostram que tinham suspeitas de peso sobre a origem artificial.

Depois do artigo na Nature Medicine, Francis Collins, mandou um email a Anthony Fauci dizendo que esperava que a publicação tivesse resolvido o assunto, mas a “perigosa conspiração” continuava prosperando.

Fauci respondeu que o assunto não iria para a frente, era só “um objeto brilhante” que desapareceria do cenário. Não estava de todo errado. Demorou mais de um ano para que o consenso dominante da origem natural começasse a ser contestado em publicações respeitáveis.

Sem provas diretas vindas do laboratório de Wuhan ou outras fontes chinesas, as dúvidas vão continuar a ser apenas isso. Mas não estão indo embora.

Revista Veja

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