terça-feira, janeiro 11, 2022

Criação da moeda única trouxe prosperidade para a Europa, mas necessita ajustes ainda incompletos - Editorial




A criação da moeda única europeia completou duas décadas no início deste ano. Embora o euro já fosse usado como referência contábil em transações bancárias desde 1999, a troca do meio circulante ocorreu três anos depois num contexto de forte otimismo com o projeto europeu, apoiado maciçamente pela população.

O contexto político da época era propício. O passo final foi dado a partir da queda da cortina de ferro, que trouxe certa ansiedade.

O então presidente francês, François Mitterrand, considerava que a moeda comum seria um mecanismo para ancorar definitivamente a Alemanha —cuja dimensão econômica seria ainda mais dominante depois da unificação— na Europa Ocidental, e assim garantir a perenidade da paz no continente.

Na virada de 2002, 11 países substituíram suas moedas nacionais pelo euro (universo depois ampliado para 19), mas os impactos positivos foram sentidos muito antes.

A expectativa de sua criação propiciou um boom econômico ao longo da década de 1990, quando as taxas de juros dos esperados membros convergiram para a referência livre de risco de crédito, os títulos públicos emitidos pela Alemanha.

Com juros menores na periferia e transferências fiscais do bloco, houve forte crescimento e investimentos em infraestrutura em países como Espanha, Portugal e Itália, processo que se estendeu na década seguinte e foi interrompido apenas com a crise financeira de 2008, que confirmou as temidas fragilidades do projeto.

Nos anos que antecederam a crise, a percepção popular era de que as expectativas mais positivas estavam sendo cumpridas, com bom desempenho econômico geral e o crescimento do uso do euro internacionalmente e como moeda reserva, rivalizando com o dólar.

Os problemas legados pela crise, contudo, expuseram os excessos financeiros em países como Espanha, Grécia e Portugal, e trouxeram desconfiança quanto à solvência desses governos.

A falta de uma união bancária e a permanência de instituições fiscais separadas em nível nacional se mostraram críticas. A resistência dos países superavitários em aceitar transferências quase pôs o projeto a perder entre 2010 e 2014.

Tardiamente, mas de forma decisiva, o bloco conseguiu realizar melhorias institucionais e o pior da crise ficou para trás.

Mas o ajuste permanece incompleto, pois alguns países continuam a ter superávits nas contas externas frente a outros, com níveis muito distintos de prosperidade. Não por acaso, o apoio popular hoje é menor, mas os avanços dos últimos anos dão margem a otimismo quanto à perenidade do ambicioso projeto político e econômico.

Folha de São Paulo

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