Publicado em 14 de janeiro de 2022 por Tribuna da Internet

Boris Johnson deu azar por não ter nascido no Brasil…
Eliane Cantanhêde
Estadão
Esses ingleses são mesmo esquisitos. Bastou uma “festinha” de 40 pessoas nos jardins de Downing Street (sede do governo), no pico da pandemia e do lockdown, cada um levando seu próprio vinho, para os britânicos, a oposição e até parlamentares do partido se mobilizarem para pedir o afastamento do primeiro-ministro Boris Johnson.
Ok, é grave, mas isolado. E um certo presidente, além-mar, que na pandemia não toma vacina, faz churrasco na residência oficial, é filmado em uma aglomeração atrás da outra, diverte-se em atos golpistas, abraça idosos sem máscara antes das vacinas, arranca máscara de criança na rua e proíbe em palácio, descumpre as leis do DF e é processado por governos estaduais por suas motociatas?
FOSSO CULTURAL – Entre Reino Unido e Brasil há diferenças do regime, parlamentarismo e presidencialismo, e um fosso cultural e político. Apesar de um tanto démodé, com reis, rainhas, coroas…, a monarquia britânica é sólida, o parlamentarismo confere estabilidade e o regime prevê a troca do primeiro-ministro, sem crise, quando ele é incompetente ou perde a maioria.
Já no presidencialismo brasileiro o poder de abrir ou não um processo de impeachment contra o presidente da República está nas mãos de um único personagem, o presidente da Câmara. Se esse personagem é aliado e “esperto”, dá prioridade a seus próprios interesses e aos do seu grupo político. O habitante do Planalto pode fazer festinhas, aglomerações e absurdos à vontade.
E os cidadãos britânicos brindam Boris Johnson com adjetivos como “patético”, “hipócrita” e “mentiroso”, pela festa, as desculpas esfarrapadas e o contraste: o “povo” em lockdown e o primeiro-ministro se esbaldando com amigos. E no Brasil? O País chorando seus primeiros 10 mil mortos pela covid e o presidente de jet-ski no Lago Paranoá; a Bahia afundando em dor e lama e o presidente de jet-ski nas águas afrodisíacas de Santa Catarina.
RIR OU CHORAR – E daí? Lá, os britânicos cobram responsabilidade do primeiro-ministro. Cá, milhões de brasileiros tratam como “mito” um presidente que ataca a democracia, máscaras, isolamento, vacinas e faz propaganda de cloroquina para covid! É para rir ou para chorar?
Um recente relatório da entidade internacional Human Rights Watch replica as conclusões da CPI da Covid e cobra os ataques à democracia no Brasil, mas é só para inglês ver e eleitor refletir.
As consequências jurídicas para Jair Bolsonaro são nulas. Aqui, a “festinha” de Boris Johnson na pandemia é fichinha. O Brasil é uma festa!