domingo, julho 18, 2021

Uma ilha sem canoas, onde Hemingway jamais poderia escrever “O Velho e o Mar”

Publicado em 18 de julho de 2021 por Tribuna da Internet

1935年,美国作家ErnestHemingway摄于古巴Cojimar 港口,穿着古巴领衬衫

Na Cuba de Hemingway, havia barcos em todas as praias

Eurípedes Alcântara
O Globo

O espectro da cubanização do Brasil é uma besteira. É tão distante da verdade quanto a ideia de que Cuba seja um paraíso cujos únicos problemas são os Estados Unidos. As lentes ideológicas distorcem a realidade. Cuba é uma ilha do Caribe com 11 milhões de habitantes submetidos a uma ditadura.

 Na semana passada, pela primeira vez em 62 anos de comunismo, os cubanos protestaram com violência nas ruas, contra a fome e a epidemia de Covid-19.

INTERNET É CORTADA – Sincronizadas via internet, eclodiram manifestações em 20 cidades cubanas ao mesmo tempo. O governo de Havana cortou o acesso à internet, colocou a tropa de choque na rua, prendeu dezenas de dissidentes e ameaçou a população com mais repressão, usando para isso o controle total que detém sobre a televisão, o rádio e a imprensa.

O que acontece em Cuba interessa diretamente ao Brasil e a todos os países da América Latina. Gerações de latino-americanos foram e, assustadoramente, ainda são ensinados que a revolução e o regime marxista-leninista da ilha caribenha constituem alternativas de liberdade contra o que enxergam como a opressão do império capitalista americano.

É sempre bom ter alternativas, mas o coletivismo totalitário de Cuba não é uma delas.

LONGE DOS ESPIÕES – Antes de embarcar, em 1991, para a primeira das três viagens que fiz à ilha de Fidel Castro como jornalista não convidado pelo governo, tinha lido “Cuba — Uma jornada”, relato do jornalista argentino Jacobo Timerman sobre suas conversas com estudantes, intelectuais e trabalhadores cubanos.

Li a versão em inglês do livro, que, estranhamente ou talvez previsivelmente, não havia interessado aos editores brasileiros. Nas minhas próprias reportagens, me dediquei a ouvir as pessoas comuns, sempre longe dos ouvidos dos espiões do governo, que estão em toda parte.

Sequestrado pela ditadura militar argentina em 1977, Timerman foi mantido em prisões clandestinas por quase três anos. “Prisioneiro sem nome, cela sem número”, livro publicado no Brasil pela Editora Codecri, narra as torturas e outros padecimentos sofridos pelo autor pela suspeita de apoiar financeiramente a organização terrorista Montoneros. Morto em 1999, aos 76 anos, Timerman detestava ditaduras. Descreveu com igual desprezo o funcionamento de regimes totalitários na Argentina, no Chile e em Cuba.

COMITÊ DE VIGILÂNCIA – Conversando com o povo, descobre-se que, em Cuba, o que funciona é a ditadura, cada vez mais militarizada e mais dependente dos alcaguetes do governo. A imensa rede de dedos-duros, montada por inspiração soviética nos primeiros anos do regime, foi anunciada assim por Fidel Castro:

—Vamos estabelecer um comitê de vigilância revolucionária em cada quarteirão, para que se saiba de cada um que atividades tem, a que se dedica, com quem se associa.

Espera-se que ninguém questione as falsidades oficiais. A maior delas é colocar a culpa pela falência do regime no embargo imposto pelos Estados Unidos. O embargo existe, mas Cuba mantém relações econômicas normais com todos os demais países do mundo — principalmente com Holanda, Canadá, China e Espanha.

O VELHO E O MAR – Vi em Cuba cenas só explicáveis pela existência de um governo opressor. A mais marcante foi não existirem pescadores artesanais nas cidades costeiras. Cuba é a única ilha do planeta em que construir uma canoa é uma atitude altamente suspeita. A pesca marítima é feita por empresas estatais comandadas pelos militares.

“O velho e o mar”, o clássico de Ernest Hemingway, foi escrito em Cayo Blanco, na costa cubana, em 1951. Narra a luta dramática de um velho pescador, Santiago, contra um enorme marlim, que ele fisga e consegue amarrar a seu barco. Na viagem de volta, o velho luta tenazmente para impedir que os tubarões devorem o peixe, mas não consegue. Quando chega de volta, resta apenas o esqueleto imprestável do peixe, amarrado ao pequeno barco.

Um Santiago hoje preferiria atravessar o Estreito da Flórida e rumar com seu barco para os Estados Unidos. Cuba não tem canoas pela mesma razão que as prisões têm grades.

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