Publicado em 7 de julho de 2021 por Tribuna da Internet

Ex-cabo da PM conseguiu penetrar na cúpula da Saúde
Natália Portinari
O Globo
O reverendo Amilton Gomes de Paula, fundador da Senah (Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários), uma associação privada, disse ao GLOBO nesta terça-feira que sua entidade recebeu uma oferta de doação para ajudar a empresa americana Davati Medical Supply a fechar um contrato para fornecer 400 milhões de doses da vacina AstraZeneca com o Ministério da Saúde.
De Paula conta que foi procurado pelo policial militar Luiz Paulo Dominguetti, que se diz representante da Davati, para tentar viabilizar o negócio com a pasta. Segundo Amilton de Paula, porém, o PM não falou qual seria o valor da contribuição.
TEVE AUTORIZAÇÃO – O Jornal Nacional revelou no sábado que o reverendo foi autorizado pelo Ministério a intermediar a venda de vacinas. O caso levanta suspeitas porque nem Amilton de Paula nem a sua entidade têm qualquer ligação com o poder público. A Senah foi fundada em 1999 e tem uma relação próxima com a Frente Parlamentar Evangélica.
Luiz Paulo Dominguetti, citado por Amilton de Paula como responsável pela suposta proposta, é o mesmo que acusou o ex-diretor de Logística do ministério Roberto Dias de cobrar propina para fechar o contrato com a Davati.
Amilton de Paula afirma que, na primeira reunião presencial, Dominguetti teria oferecido uma doação à Senah, sem especificar valores, para recompensar o apoio da organização à negociação. Ele não citou a Davati, mas disse que Herman Cárdenas, presidente da empresa nos Estados Unidos, teria feito doações a organizações em outros países.
LEVOU A PROPOSTA – De acordo com Amilton, em março, a Senah levou ao Ministério da Saúde a proposta da Davati de 400 milhões de doses da AstraZeneca. Na ocasião, ainda segundo o reverendo, houve uma reunião com o então secretário-executivo, Elcio Franco.
Nos contatos com o ministério, Amilton teria recebido a informação de que o fechamento do negócio estava condicionada à apresentação de um documento capaz de comprovar que a Davati Medical Supply teria autorização da AstaZeneca para intermediar a venda das vacinas. Como o PM nunca apresentou esse documento, a negociação não andou. “Eles diziam que tinham esse documento e que iam apresentar” — disse o reverendo ao Globo.
A AstraZeneca, porém, não autoriza intermediários a comercializar seus imunizantes. A Davati é investigada no Canadá por uma oferta falsa de vacina. No Brasil, ela procurou diversas prefeituras e governo estaduais estados no Brasil com propostas semelhantes, sem detalhar a origem das supostas doses.
COM ROBERTO DIAS – À CPI da Covid, Luiz Paulo Dominguetti Pereira disse que procurou o Ministério da Saúde para oferecer 400 milhões de doses da vacina da AstraZeneca e que o ex-diretor de logística da pasta Roberto Ferreira Dias, exonerado na semana passada, teria exigido US$ 1 de propina para cada dose de vacina negociada.
O jantar entre Dias e Dominguetti aconteceu em 25 de fevereiro. O reverendo Amilton conta que Dominguetti procurou a Senah após essa primeira tentativa feita diretamente com a pasta.
“Quando eles vieram a mim, eles já tinham ido ao governo e não tinham conseguido nada. Isso tudo está documentado. Eles foram primeiro no governo. Depois que não conseguiram vender a vacina, vieram a mim. Com outro nome, com outra proposta”.
Segundo Amilton, Dominguetti então entrou em contato com a Senah através de um diretor. Dizia que conseguiria as doses de AstraZeneca com o próprio laboratório.
— Eles fizeram contato comigo por telefone (em fevereiro), eu falei que não converso por telefone. O documento que ele apresenta era do início de fevereiro, conversamos em fevereiro. Depois que assisti à CPI eu fiquei estarrecido, porque ele está lá na CPI falando que conversou com o (Roberto) Dias e com o Blanco, e eu não sabia disso.
Amilton marcou uma reunião para levar Dominguetti ao Ministério da Saúde em 2 de março. Laurício Monteiro Cruz, o diretor de imunização do ministério, estava presente na ocasião. Em um segundo momento, o PM não compareceu, alegando que seu carro quebrou, segundo o reverendo.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – O cabo da PM é um tremendo 171. A facilidade com que penetrou no Ministério da Saúde mostra o grau de irresponsabilidade que cercou a compra de vacinas, com a cumplicidade de oficiais do Exército. Esse coronel Elcio Franco, desculpem a franqueza, também é um tremendo 171. Lamentável. (C.N.)