Dora Kramer
Não chega a ser espantoso, mas é curioso que a análise político-partidária mais precisa sobre o artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, destrinchando o “autoritarismo popular” do governo Luiz Inácio da Silva, tenha partido de um ministro petista.
Os tucanos não vestiram a carapuça do chega para lá naqueles que acham mais confortável fingir que “está tudo bem”, evitando questionar “os pequenos desvios de conduta ou pequenos arranhões na lei”, que levam o país “devagarzinho a amoldar-se a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade que pouco tem a ver com nossos ideais democráticos”. Fizeram-se de desentendidos.
Mas o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, foi ao ponto. Disse que FH, com sua capacidade de elaboração mental, tenta “suprir a deficiência da oposição”, imersa numa “colossal mediocridade”. De fato. Para sorte do governo, e azar do país, a pobreza de espírito grassa. Em todas as searas partidárias, faltou o ministro acrescentar para fazer justiça à precisão do diagnóstico.
Ele mesmo, depois do primeiro tiro certeiro, caiu na vala da banalidade ao comparar Lula a Mozart e FHC a Antonio Salieri, a encarnação da inveja na relação dos dois maestros. Nem o atual presidente é um gênio nem o ex é um ente sem talento.
Só para ficar na política: Lula bateu duas vezes o partido de FHC nas eleições, mas este ganhou daquele outras duas, ambas no primeiro turno. Embora tenha perdido a oportunidade de fazer o debate político e preferido se aliar aos companheiros que atribuíram a escrita – confirmando-a pela falta de argumentos e recurso à zombaria – a ciúmes, Paulo Bernardo acertou no enunciado do problema. O ex-presidente realmente tenta suprir praticamente sozinho um espaço de discussão que normalmente deveria ser ocupado, não só, mas também, pelos partidos de oposição. Estes não o fazem, pelo menos não de maneira consistente, no Parlamento nem na sociedade.
A reação dos correligionários de FH às questões postas por ele comprova a aridez. O PSDB dividiu-se entre o silêncio sepulcral dos dois pré-candidatos à Presidência da República, os elogios comedidos de alguns que preferiram reduzir as coisas a um exercício de reflexão intelectual do ex-presidente e as críticas veladas dos estrategistas anônimos que acham eleitoralmente inadequado Fernando Henrique se manifestar.
Perde-se a chance de cotejar raciocínio apresentado com a realidade e de qualificar o debate político, porque FHC é impopular, aparece nas pesquisas de opinião como um fator de constrangimento ao desejo da oposição de voltar ao poder.
É de se perguntar se é justo que seja subtraída do eleitorado a oportunidade de saber o que pensam a respeito do que se passa no país as pessoas que pretendem voltar a comandá-lo. O governador José Serra, o principal postulante, está convicto de que só deve assumir a candidatura daqui a cinco meses. É um direito dele. Serra faz seu tempo, assim como Aécio Neves estipulou o dele quando avisou que espera até dezembro e depois vai “cuidar de Minas”. É um direito dele. Agora, também é direito do cidadão e da cidadã brasileiros que se interessam pelo embate de ideias saber o que pensam aqueles que lhes pedirão votos.
Se o que disse Fernando Henrique é importante para determinado estrato mais informado da população – e pela repercussão do artigo [publicado em diversos jornais, inclusive na Gazeta do Povo do último domingo] é óbvio que despertou interesse – por que se deve aceitar que as razões táticas e estratégicas dos pré-candidatos e dos respectivos partidos se sobreponham ao indispensável diálogo com a sociedade?
Lula há muito estabeleceu o próprio tempo ao ocupar com a candidatura de Dilma Rousseff o espaço eleitoral que a oposição acreditava reservado para si por ação da lei da gravidade. Fala sozinho, cria fatos, comete equívocos, erra a mais não poder, galvaniza todas as atenções, atenta contra princípios, inverte valores, mas atua.
Já a oposição não pia. Não quer briga com quem é popular. Mas para discutir as questões do país é preciso brigar? É perfeitamente possível fazê-lo com civilidade, elegância, consistência, firmeza e fundamento. Desde, evidentemente, de que se disponha de tais atributos e não se tenha como eixo de atuação o retraimento travestido de segurança estratégica. Do contrário, é como diz o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, a impressão que dá é de uma “colossal mediocridade”.
Bumerangue
O MST tenta fazer o papel de vítima internacional ao denunciar à OEA que está sendo reprimido e tratado como criminoso no Brasil. Pode obter o efeito oposto caso seja feita uma verificação ou mesmo se alguém se der ao trabalho de contraditar e enviar ao organismo um histórico dos atos dos sem-terra. É um ato ousado. Típico de quem percebeu que internamente perdeu a batalha com a opinião do público.
Fonte: Gazeta do Povo
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