Dora Kramer
Vai se desenhando no horizonte o seguinte cenário: o governo quer fazer da eleição presidencial um plebiscito em que só uma escolha é lícita, a outra é golpista. Pretende que o eleitor compare o governo Lula com a administração anterior, de Fernando Henrique Cardoso, alimenta até o cotejo entre os dois governantes, mas reivindica exclusividade na prerrogativa do ataque. A recíproca é sempre tida como ofensa pessoal.
Se FHC analisa o quadro e conclui que o Brasil caminha para um “subperonismo”, está movido pela “inveja”. Se Caetano Veloso fala do analfabetismo de espírito e critica o modo de se expressar do presidente – “cafona, grosseiro” – é um deselegante agente do preconceito.
Já os governistas – Lula à frente com seus discursos que corroboram a constatação de Caetano – podem chamar os adversários de “nazistas”, “patéticos” e vendilhões do Estado sem que isso pareça minimamente inadequado.
Ainda que o sucessor não tenha mexido na estrutura de governo montada pelo sucedido e a ela apenas acrescentado uma bem arquitetada estrutura de assistencialismo, vai sendo posto para efeito de embate eleitoral que o confronto de 2010 será sobre dois projetos inteiramente diferentes de país.
Será, na definição da ministra Dilma Rousseff, “o confronto entre dois Brasis”. Por sete anos Lula governou conforme os preceitos da “Carta aos Brasileiros”. Quer dizer, dentro das linhas gerais da cartilha herdada, só recuperando o discurso dito esquerdista quando foi conveniente à ocasião. Na campanha pela reeleição, por exemplo.
Por “esquerda”, entenda-se a contraposição ao “neoliberalismo”, expressão desprovida de sentido real, mas perfeita para atender aos ditames do simbolismo e pôr um tapume diante das alianças conservadoras e da celebração aos setores atrasados, que não são meros coadjuvantes, mas o centro da ação política do governo.
Prática cujo emblema mais recente foi a submissão da linha de atuação do PT no Congresso aos interesses do presidente do Senado, José Sarney, e, por extensão, à conveniência do PMDB, que precisava se desviar da pecha de má companhia e salvar seu cacife como parceiro cobiçado por governo e oposição.
Por essa e muitas outras já notórias, o PT não pode retomar o discurso da ética. Até porque ficou combinado com seus aliados e simpatizantes que “política se faz com as mãos sujas” e ponto final, o Brasil é um país condenado ao limbo moral.
Fazer, o quê, então? Repetir o truque que deu certo em 2006 dizendo que conservadores são os outros e despertar nos espíritos a impressão de que só o atual governo será capaz de preservar os verdadeiros valores da Nação. Não se sabe quais são eles, mas a exacerbação da mística do Estado provedor em embalagem de competente propaganda dá conta do recado.
Deu em 2006, quando o PT insinuou que o PSDB venderia a Petrobras, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal na bacia das almas se Geraldo Alckmin fosse eleito presidente. Segundo relato de Marcelo Moraes na edição de ontem do O Estado de S.Paulo, o PT se prepara de novo para usar a mesma tática, de maneira mais escancarada.
É o “bem”, representado no “projeto democrático, popular, nacionalista e internacionalista”, contra o “mau” concentrado no manual do “consenso de Washington” que levou o mundo à crise e seria o modelo de governo, na eventualidade de vitória dos tucanos. Guardadas as proporções e adaptadas as situações, é uma espécie de lógica da guerra fria no sentido facilitador de raciocínios.
Pode dar certo? Tem tudo para dar. Primeiro porque nada mais reconfortante que um maniqueísmo para simplificar as escolhas. Em segundo, há o fato de o discurso estar sendo construído com a devida antecedência, sem contraponto e vocalizado por um arauto perfeito: o presidente Lula que a todos ataca, mas por ninguém pode ser atacado.
Se na eleição anterior o PSDB mostrou que não sabe se defender de acusações falsas, é de se supor que não consiga também contraditar as verdadeiras. Goste-se ou não do truque de Lula de firmar a imagem de que representa os ideais do bem e da caridade universal que atende aos anseios dos pobres, aplaca a consciência dos ricos e faz certa casta de pensantes se sentir muito bem por “fechar” com o lado do oprimido, é um caminho bem definido de acesso ao objetivo pretendido.
Por motivos ainda obscuros, a oposição não informa ao eleitorado qual será a trilha escolhida. Se a razão for estratégica, corre o risco de, quando chegar a hora que considerar adequada, encontrar todo o espaço ocupado pelo discurso do adversário.
Se a motivação é escapar da armadilha do plebiscito, conviria então que começasse a expor qual é mesmo a sua visão das coisas. Se não disser, o público acabará por concluir que os pretendentes oposicionistas não sabem o que querem ou, se sabem, não conseguem (ou pior, não querem) estabelecer com a sociedade um diálogo simples e objetivo a respeito do projeto de Brasil que têm em mente.
Fonte: Gazeta do Povo
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