Chico Alencar
Semana passada, a CPI das escutas clandestinas inquiriu pela segunda vez o delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz. Ele, tempos atrás, comandava a Operação Satiagraha – expressão que Gandhi gostava de praticar, e que significa "firmeza na verdade". Protógenes reafirmou que as escutas realizadas na Operação foram legais. E não quis se estender sobre outros assuntos ainda em fase de desvendamento pela Satiagraha II, que ele não mais coordena. Além do habeas corpus que lhe dava esse direito, lembrava que não era este o objeto da CPI.O delegado Protógenes não é herói nem vilão. O nome incomum identifica apenas um homem comum, falível, servidor público concursado, especializado em desvendar crimes financeiros – estes do "colarinho branco", que sangram a alma da República. Protógenes, como tantos, indigna-se com a impunidade dos poderosos que delinquem. E reitera que ficou impressionado com os tentáculos do banqueiro Daniel Dantas, já condenado por corrupção ativa, cimentando uma rede de negociatas, tráfico de influência – no qual o financiamento de campanhas eleitorais tem papel central – e remessa ilegal de divisas para o exterior.O delegado sempre teve seu trabalho reconhecido na Polícia Federal, até que figurões como Dantas, seu parceiro no Opportunity Dorio Ferman, o ex-prefeito Celso Pitta e o especulador Naji Nahas, entre outros, começaram a ser investigados e presos. A partir daí o delegado ganhou fama e dores de cabeça: passou a ser alvo da CPI, da corregedoria da PF, de onde acaba de ser afastado, e da Justiça. Coincidentemente, foi então que surgiram os questionamentos sobre a "indevida" publicidade de operações policiais e sobre o "uso excessivo de algemas"... Em punhos de renda! A mentalidade colonialista não acabou e há um continuado movimento para blindar as elites contra investigações. Na outra ponta, cresce a criminalização dos movimentos sociais.A Satiagraha levantou que o grupo do banqueiro comanda um esquema de espionagem que investigou ilegalmente empresas e diversas personalidades do mundo político. Isto sim, interessa à CPI!Já o delegado Protógenes passou da condição de investigador a investigado, como o juiz Fausto De Sanctis, alvo de reptos judiciais. Esta inversão de valores gera novidades: o Presidente da Comissão, Deputado Itagiba, ao inquirir seu colega delegado federal, preparou um "PowerPoint" que revelaria contradições do interrogado. Como houve falha técnica, boa parte do depoimento de Protógenes a Itagiba transcorreu com um inusitado pano de fundo, com dizeres sobre as "várias versões" de Protógenes e a indagação garrafal: "onde está a verdade"? Teremos transparências exibindo incoerências do senhor Dantas, quando do seu depoimento, na próxima quinta-feira?Protógenes não é protagonista desta CPI. Empenha-se em recuperar sua atuação profissional, dentro da lei, o que significa não poupar aquele baronato do capital e seus representantes políticos, que se consideram acima dela. Se a CPI dos "grampos" não produzir resultados efetivos, a culpa, por óbvio, não será de Protógenes.O delegado não é "Dom Quixote" nem "Macunaíma". Nas aproximações literárias, assemelha-se mais a um "Policarpo Quaresma", personagem do romance de Lima Barreto, inclusive em iniciativas ingênuas como a de escrever ao Presidente Obama em defesa da soberania nacional brasileira. A epígrafe da obra prima de Lima Barreto contém uma frase de Renan (o francês!) que tem a ver com o que vivem Protógenes e De Sanctis agora: "o grande inconveniente da vida real, e que machuca o cidadão de bem que a ela leva seus valores e ideais, é que ali, frequentemente, as qualidades tornam-se defeitos".
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