terça-feira, fevereiro 17, 2026

O choro é livre: quando o samba vence e a oposição procura culpados

O choro é livre: quando o samba vence e a oposição procura culpados


Por José Montalvão


O sucesso da homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Marquês de Sapucaí reacendeu um velho roteiro da política brasileira: quando não se consegue neutralizar o impacto simbólico de um evento, tenta-se desqualificá-lo. Diante da repercussão positiva do desfile, setores da oposição passaram a sustentar a tese de propaganda eleitoral antecipada, numa tentativa de transformar manifestação cultural em infração jurídica.

O argumento, contudo, encontra limites claros na própria legislação. O artigo 36-A da Lei nº 9.504/97 estabelece, de forma objetiva, hipóteses que não configuram propaganda antecipada. A mera homenagem, inserida em contexto artístico-cultural, sem pedido explícito de voto ou campanha formal, não se enquadra como irregularidade. Para que haja infração eleitoral, é necessário o elemento objetivo do pedido de voto ou a caracterização inequívoca de campanha fora do prazo — o que não se confunde com enredo carnavalesco.

O Carnaval, por sua própria natureza, sempre dialogou com figuras públicas, acontecimentos históricos e personagens que marcaram o país. Transformar esse espaço cultural em campo proibido sob alegação genérica seria impor censura indireta à liberdade artística. Não há, na legislação eleitoral, qualquer dispositivo que proíba desfile em homenagem a autoridades ou personalidades, desde que não haja desvirtuamento para campanha explícita.

A reação de alguns opositores lembra o velho clichê do futebol: quando o time perde, a culpa é do juiz. Incapazes de minimizar o impacto popular do desfile, recorrem à narrativa jurídica como instrumento político. E como o país já vive clima pré-eleitoral, qualquer manifestação que desperte entusiasmo popular passa a ser vista sob lentes partidárias.

Mas cultura não é palanque automático. O samba não pede autorização ideológica para existir. Ele canta a história, exalta personagens e expressa sentimentos coletivos. Se o desfile emocionou, mobilizou e levantou arquibancadas, isso pertence ao campo da arte e da percepção popular — não ao da infração legal presumida.

No fim das contas, o que se viu foi a reafirmação de que manifestações culturais não podem ser sufocadas por interpretações extensivas da lei. A caravana segue seu curso, enquanto o debate político tenta encontrar eco. E como diz o ditado popular, o choro é livre — mas o samba também é.


Escola de samba, Justiça e política: quando a biografia vira disputa eleitoral

Desfile reconheceu a trajetória política de Lula

Pedro do Coutto

A decisão da Justiça Eleitoral de não interromper a presença simbólica do presidente Lula da Silva no desfile de uma escola de samba que homenageou sua trajetória expõe mais do que um debate jurídico: revela o quanto a política brasileira segue incapaz de separar cultura, memória histórica e campanha eleitoral. No centro da controvérsia, o recurso apresentado pelo Partido Liberal (PL) buscava caracterizar a homenagem carnavalesca como propaganda antecipada. A Justiça, no entanto, manteve o entendimento de que não houve apelo eleitoral direto, preservando a legitimidade do desfile como manifestação cultural.

A decisão, coerente com precedentes da própria Justiça Eleitoral, reforça um ponto essencial: o Carnaval, por natureza, é um espaço simbólico e narrativo. As escolas de samba constroem enredos que dialogam com personagens históricos, trajetórias políticas e momentos marcantes da sociedade brasileira. Transformar essa tradição em crime eleitoral implicaria, na prática, impor uma censura indireta à liberdade cultural — algo incompatível com o espírito democrático que a própria Constituição protege.

TRAJETÓRIA POLÍTICA – Não se trata de ingenuidade institucional. A linha que separa celebração cultural de propaganda eleitoral existe e é conhecida: o apelo explícito ao voto, a presença de slogans eleitorais ou a vinculação direta a um pleito futuro. Nada disso esteve presente no desfile. O que houve foi o reconhecimento da trajetória política de um líder cuja história se confunde com a própria história recente do país. Gostem ou não seus adversários, Lula da Silva é uma figura central na narrativa política brasileira das últimas décadas — e a cultura popular, especialmente o samba, sempre se apropriou de personagens que marcaram o imaginário coletivo.

A tentativa de judicializar o episódio revela, por outro lado, uma estratégia política mais ampla: deslocar a disputa do campo eleitoral para o terreno jurídico e simbólico. Ao questionar o desfile, a oposição não buscava apenas uma decisão judicial, mas também estabelecer uma narrativa de suposto uso indevido de recursos públicos e de antecipação de campanha. Trata-se de uma disputa de enquadramento político — não apenas legal.

GESTO INSTITUCIONAL – Nesse contexto, a presença do presidente no Sambódromo cumprimentando dirigentes de todas as escolas de samba reforça um gesto institucional, e não eleitoral. O chefe de Estado participou de uma agenda pública tradicional, comum a governantes em diferentes épocas, independentemente de alinhamento partidário. Reduzir esse gesto a uma ação de campanha significa ignorar o caráter ritualístico do Carnaval carioca, que historicamente recebe autoridades como parte do reconhecimento oficial à cultura popular.

Mais do que absolver ou condenar politicamente o presidente, a decisão da Justiça Eleitoral reafirma um princípio crucial: a democracia não pode transformar manifestações culturais em provas automáticas de propaganda política. Caso contrário, qualquer referência histórica em um espetáculo público se tornaria passível de contestação judicial, criando um ambiente de permanente suspeição sobre a produção cultural.

O episódio também evidencia a crescente judicialização da política brasileira, fenômeno que se intensificou nos últimos anos. A arena eleitoral, cada vez mais, extrapola as urnas e se estende aos tribunais, onde se travam batalhas simbólicas capazes de influenciar a percepção pública antes mesmo do início formal das campanhas. A controvérsia sobre o desfile demonstra como a disputa por narrativas precede a disputa por votos.

QUESTÃO POLÍTICA – No fundo, a questão central não é jurídica, mas política: quem controla a memória coletiva e o imaginário popular? Ao transformar a trajetória de um presidente em enredo carnavalesco, a escola de samba não fez propaganda — construiu narrativa histórica. E narrativas, em democracias vibrantes, são sempre objeto de disputa.

A decisão da Justiça Eleitoral, portanto, não encerra o debate; apenas delimita seus contornos. Ela reafirma que a cultura não pode ser reduzida a instrumento eleitoral sem provas claras e inequívocas. E lembra que, em um país onde o samba já cantou revoltas, heróis e contradições nacionais, tentar silenciar a política na avenida talvez seja ignorar que o Carnaval, desde sempre, é também um espelho da própria política brasileira.


Entre o Samba e a Política: A Polêmica e o Triunfo da Homenagem a Lula na Sapucaí


Nota da Redação  Deste Blog = O desfile da Acadêmicos de Niterói na Marquês de Sapucaí entrou para a história não apenas pelo espetáculo visual, mas pelo debate político que o antecedeu. Antes mesmo do primeiro surdo ecoar na avenida, a homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva já era alvo de ações judiciais e críticas da oposição, que tentaram caracterizar o enredo como propaganda eleitoral antecipada.

As tentativas de impedir o desfile não prosperaram na Justiça. Ainda assim, o assunto ganhou destaque na transmissão da TV Globo, que surpreendeu ao abrir espaço para um boletim ao vivo detalhando as controvérsias jurídicas. O repórter dedicou mais de três minutos à explicação das ações e da discussão sobre repasses públicos — tempo incomum para entradas ao vivo em meio ao ritmo acelerado do Carnaval. O padrão tradicional da emissora costuma deixar polêmicas em segundo plano, comentadas brevemente pelos apresentadores, sem interromper o espetáculo.

A decisão editorial gerou críticas. Parte do público acusou a emissora de “esconder” o início do desfile da Acadêmicos de Niterói, primeira escola a entrar na avenida naquela noite, ao não transmitir os primeiros momentos da apresentação. Para muitos, o gesto foi interpretado como uma tentativa de reduzir o impacto simbólico de uma homenagem que exalta a trajetória de um presidente em exercício.

O debate ultrapassou as fronteiras nacionais. A agência internacional Associated Press relembrou outras ocasiões em que Lula foi tema de enredos carnavalescos, destacando que o desfile poderia fortalecer sua imagem pública, mas também reacender discussões jurídicas e políticas. De fato, a história registra precedentes: em 2003, a Beija-Flor de Nilópolis levou à avenida uma representação simbólica do combate à fome, associada ao início do primeiro mandato do petista. Em 2012, a Gaviões da Fiel também fez referência ao líder político em seu desfile.

O episódio revela algo maior do que uma disputa judicial ou uma divergência editorial. O Carnaval, maior manifestação cultural popular do país, sempre dialogou com a política, com a história e com os personagens que marcam o imaginário nacional. Tentar silenciar esse diálogo é desconhecer a essência da festa. A avenida é espaço de crítica, de exaltação e de memória.

No fim das contas, o que prevaleceu foi o espetáculo. Segundo relatos, o público nas arquibancadas reagiu com entusiasmo, aplaudindo e cantando junto. Independentemente das posições ideológicas, o desfile mostrou que cultura e política, no Brasil, caminham lado a lado — e que a tentativa de impedir manifestações artísticas costuma produzir o efeito contrário: amplia o debate e reforça a visibilidade do que se pretendia conter.

Se há algo que a Sapucaí ensina todos os anos é que o samba não se curva facilmente às pressões. Ele ecoa, resiste e transforma a avenida em palco da história viva do país.(Por José Montalvão)

segunda-feira, fevereiro 16, 2026

O defeito está na vista – e na memória curta da política brasileira

 


O defeito está na vista – e na memória curta da política brasileira


Por José Montalvão

Quando assisto a setores da direita criticarem a esquerda, afirmando que “nada foi feito pelo Brasil”, não consigo deixar de lembrar do artigo “O defeito está na vista”, de Luiz Amorim. A metáfora do cavalo cego vendido pelo cigano é perfeita para retratar parte do debate político nacional: o defeito estava na vista — mas muitos preferiram não enxergar.

Durante séculos, o Brasil foi governado por elites conservadoras, herdeiras de um modelo colonial excludente. Do Império à República Velha, das oligarquias agrárias ao regime militar, passando por longos períodos de hegemonia liberal-conservadora, foram grupos ligados à direita que moldaram as estruturas políticas e econômicas do país. Se hoje ainda enfrentamos desigualdade brutal, concentração de renda, deficiência estrutural em educação e saúde, não se pode ignorar quem esteve majoritariamente no comando por tanto tempo.

É simplista — e até desonesto — afirmar que apenas um campo político é responsável por todos os males nacionais. Mas também é injusto apagar da história o peso de cinco séculos de poder concentrado nas mãos de elites que sempre governaram mais para poucos do que para muitos.

O discurso de que “a esquerda nada fez” ignora políticas públicas que ampliaram o acesso ao ensino superior, reduziram a pobreza extrema e fortaleceram programas sociais que mudaram a vida de milhões. Pode-se criticar erros, apontar falhas e denunciar casos de corrupção — que existiram e devem ser combatidos sem distinção ideológica —, mas negar avanços concretos é negar a realidade.

O problema maior está quando políticos que passaram a vida inteira no poder, muitos deles envolvidos em escândalos, reaparecem como “novos salvadores da pátria”. Mudam o discurso, vestem a roupa da moralidade repentina e tentam convencer o eleitor de que agora, finalmente, farão o que não fizeram durante décadas. É exatamente aí que a metáfora do cavalo cego se encaixa: o defeito estava na vista.

Assim como o comprador que não percebeu que o animal era cego, parte do eleitorado muitas vezes ignora o histórico daqueles que se apresentam como solução. A cegueira não está na política — está na falta de memória.

O artigo de Luiz Amorim também fala sobre responsabilidade profissional e ética. Quando uma empresa tenta empurrar um produto defeituoso ao cliente, está apostando na desatenção ou na ignorância de quem compra. Na política ocorre o mesmo: quando gestores falham repetidamente e depois culpam apenas os outros, estão apostando na amnésia coletiva.

O Brasil não precisa de salvadores da pátria. Precisa de instituições fortes, transparência, responsabilidade fiscal e social, e sobretudo de eleitores conscientes. A alternância de poder é saudável; o fanatismo, não. Nenhum grupo político detém monopólio da virtude — nem do erro.

A história ensina que não se pode enganar todos o tempo todo. Em cada eleição, o cidadão precisa perguntar: quem já governou? O que fez? O que prometeu e não cumpriu? O defeito estava onde?

Se existe atraso, ele é fruto de escolhas históricas, de omissões acumuladas e de elites que, por muito tempo, preferiram manter privilégios a enfrentar desigualdades. Mas o futuro não está condenado a repetir o passado — desde que o eleitor abra bem os olhos.

Porque, no fim das contas, o defeito pode até estar na vista. O perigo é escolher continuar sem enxergar.

 José Montalvão -  Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública,  pós-graduação em Jornalismo proprietário do Blog DedeMontalvão, matrícula ABI C-002025

Apesar das “pressões”, relator da CPI vai convocar os irmãos de Dias Toffoli


i7 Notícias - Irmão do ministro Toffoli, padre de Marília é afastado de  paróquia após virar sócio em Resort

Carlão, irmão de Toffoli, é padre e foi afastado da paróquia

João Pedro Bitencourt
Estadão

Relator da CPI do Crime Organizado, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) admitiu que sofre pressão de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e de políticos, dentro e fora do Congresso, para impedir que a comissão vote a convocação dos irmãos do ministro Dias Toffoli.

A declaração foi dada nesta sexta-feira, 13, em entrevista à GloboNews. Posteriormente, a assessoria do senador Alessandro Vieira afirmou que ele não disse estar sofrendo pressão de ministros do STF, mas apenas reconheceu que há pressão em torno dos trabalhos da CPI.

NO CELULAR – Toffoli deixou a relatoria do caso envolvendo o Banco Master após a Polícia Federal (PF) encontrar menções a ele no celular do dono da instituição, Daniel Vorcaro.

Como revelou o Estadão, a empresa dos irmãos do ministro, da qual Toffoli enfim admitiu que é sócio e vendeu sua fatia no empreendimento no Paraná a fundos de investimento que tinham como acionista o pastor Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro.

Como mostrou o Estadão, o ministro recebeu dinheiro dessa empresa, que realizou negócios com um fundo ligado ao cunhado de Vorcaro. Toffoli confirmou que é sócio da empresa, mas afirmou que não mantém “relação de amizade” com o banqueiro.

SOFRE PRESSÃO – O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) admitiu que sofre pressão para impedir que a CPI do Crime Organizado vote a convocação do ministro Dias Toffoli, do STF.

“Sempre há pressão quando se lida com investigados deste tamanho. São bilhões de reais e figuras muito poderosas nas três esferas do poder”, disse Vieira. “Isso é completamente previsível. Não foi a primeira vez nem será a última.”

Vieira classificou como “vexame” a nota assinada por todos os magistrados do STF em defesa de Toffoli. “Os recados que estão sendo enviados para a Polícia Federal são terríveis, são duríssimos. A nota publicada por dez ministros do Supremo é um vexame porque diz que Toffoli não pode continuar como relator, mas, ao mesmo tempo, afirma que ele é imaculado e intocável”, declarou.

BLINDAGEM – O senador também criticou o fato de apenas a Procuradoria-Geral da República (PGR) poder autorizar a investigação de ministros da Corte. “Há um paradoxo no Brasil. É uma decisão quase unilateral da PGR e isso limita muito a nossa democracia”, afirmou.

Vieira disse que a expectativa é que a votação da convocação ocorra após o carnaval, em 24 de fevereiro, data marcada para a próxima reunião da CPI. Segundo ele, a decisão de pautar o requerimento foi tomada pelo presidente da comissão, senador Fabiano Contarato (PT-ES).

“Eu vejo a votação como fundamental para darmos um respaldo e uma amplitude para a investigação. Temos quatro grandes escândalos que se entrelaçam: emendas parlamentares, Carbono Oculto, INSS e, agora, o Banco Master”, afirmou.

MULHER DE MORAES – A CPI do Crime Organizado também pretende votar após o carnaval requerimentos de quebra de sigilo e convocação relacionados ao escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes.

O contrato do escritório com o banco de Daniel Vorcaro, conforme revelou O Globo, poderia chegar a R$ 129,6 milhões se fosse cumprido integralmente.

A CPI também pretende investigar as transações envolvendo o Tayayá Resort, então ligado à empresa Maridt, com participação de donos do Banco Master e dos irmãos de Toffoli.

TUDO ENTRELAÇADO – “Quando você olha mais de perto, percebe que está tudo entrelaçado em duas pontas: na ponta da lavagem de dinheiro, onde você tem Master, Reag etc., e na ponta da infiltração política e judicial do crime organizado”, disse Vieira

Criada em novembro do ano passado, a CPI do Crime Organizado no Senado investiga temas como ocupação de território por facções, lavagem de dinheiro, corrupção e sistema prisional. Para o relator, há conexões que justificam a inclusão do Banco Master no escopo da investigação.

Por sua vez, o presidente da CPI do INSS, senador Carlos Viana (Podemos-MG) disse que solicitou ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), a devolução à comissão de todos os documentos referentes às quebras de sigilo bancário, fiscal e telefônico do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Como se vê, 24 de fevereiro é o Dia D do caso Master. Se a CPI conseguir convocar os irmãos de Toffoli, é sinal de que Alcolumbre, Lula e o Supremo estão em minoria na comissão, que então vai dar show, chamando o próprio Vorcaro e a mulher de Moraes. E o país vai parar quando a TV Senado estiver transmitindo ao vivo essa suprema lavagem de roupa suja. (C.N.)


Alckmin na vice: a peça de equilíbrio que Lula dificilmente deveria trocar


Manter Alckmin é seguir uma estatégia que deu certo

Pedro do Coutto

Há momentos na política em que a escolha de um vice-presidente ultrapassa a formalidade institucional e se transforma em símbolo de equilíbrio, moderação e estratégia eleitoral. Foi exatamente isso que representou a presença de Geraldo Alckmin na chapa de Lula da Silva em 2022. E, à luz do cenário atual, é pouco plausível imaginar que Lula cogite abrir mão dessa parceria para a disputa pela reeleição.

A política brasileira é feita de gestos que comunicam mais do que discursos. Ao escolher Alckmin como vice, Lula não apenas ampliou sua base eleitoral no principal colégio do país, São Paulo, como também enviou um recado de conciliação institucional e de compromisso com a governabilidade. O ex-governador paulista representou, para parcelas decisivas do eleitorado, uma garantia de moderação e previsibilidade — atributos que, em eleições polarizadas, costumam pesar mais do que promessas grandiosas.

CONQUISTA CONSTRUÍDA – A margem estreita da vitória em 2022 reforça essa leitura. Não se tratou de um triunfo avassalador, mas de uma conquista construída voto a voto, com alianças cuidadosamente calibradas. Nesse contexto, Alckmin foi mais que um complemento: foi um fator de estabilidade. Sua presença ajudou a reduzir resistências históricas ao petismo em setores do centro político e do empresariado, contribuindo para ampliar a aceitação da chapa em um momento de forte divisão nacional.

No exercício do cargo, o comportamento do vice-presidente tem sido, em linhas gerais, discreto e institucionalmente correto. Em um sistema político frequentemente marcado por disputas internas e protagonismos concorrentes, a lealdade política se converte em ativo raro. Alckmin tem operado como articulador silencioso, evitando ruídos e reforçando a imagem de coesão do governo — algo que, para um presidente que busca a reeleição, vale tanto quanto um pacote de votos adicionais.

A hipótese de substituí-lo, portanto, carece de lógica política consistente. Trocar um vice consolidado, que agrega eleitorado e transmite confiança, por uma aposta incerta seria assumir um risco desnecessário. Em campanhas presidenciais, a escolha do companheiro de chapa não é exercício de vaidade, mas cálculo pragmático: quem soma mais e quem reduz rejeições. Nesse quesito, Alckmin já foi testado nas urnas e no governo.

DESAFIO – Além disso, eventuais movimentos dentro do lulismo por um novo nome enfrentariam um desafio óbvio: encontrar alguém com capacidade equivalente de dialogar com o centro político, com experiência administrativa reconhecida e com histórico de fidelidade institucional. Não se trata apenas de somar votos, mas de preservar uma narrativa de equilíbrio que foi fundamental para a vitória anterior e que segue relevante diante de um eleitorado ainda polarizado.

Em política, mudanças estratégicas costumam ocorrer quando há desgaste ou perda de eficácia de uma fórmula vitoriosa. Não parece ser o caso. Ao contrário, a manutenção de Alckmin reforça a ideia de continuidade responsável e estabilidade política — valores que, em tempos de incerteza econômica e institucional, tendem a ser valorizados por parcelas significativas da sociedade.

DÚVIDAS – Assim, a eventual substituição do vice não apenas deixaria de agregar vantagens concretas como poderia gerar dúvidas desnecessárias sobre os rumos da candidatura. Em disputas apertadas, a confiança do eleitor é um capital precioso, e romper com uma parceria que já demonstrou eficiência poderia abrir flancos onde hoje há solidez.

Por tudo isso, a leitura mais realista é que Lula não tem incentivos políticos relevantes para alterar a composição de sua chapa. Ao contrário: manter Alckmin ao seu lado parece ser menos uma escolha circunstancial e mais a continuidade de uma engenharia eleitoral que já se provou funcional — e que, até aqui, permanece como uma das bases mais seguras de sua estratégia.


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domingo, fevereiro 15, 2026

Condenação de Pablo Marçal a indenizar Boulos ajuda a moralizar as redes sociais



"A corrupção no Judiciário e o caso dos magistrados aposentados pelo Conselho Nacional de Justiça (2008-2017)." by Moisés Lazzaretti Vieira

 

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Moisés Lazzaretti Vieira
Undergraduate | Universidade Federal do Rio Grande do Sul
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A corrupção no Judiciário e o caso dos magistrados aposentados pelo Conselho Nacional de Justiça (2008-2017).
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