segunda-feira, julho 13, 2026

Às vésperas das urnas de 2024, R$ 97 milhões em emendas fortaleceram bases do PL


Emendas de Valdemar irrigaram cidades estratégicas

Dimitrius Dantas
Lauriberto Pompeu
O Globo

Dos R$ 119 milhões em emendas que, segundo a Polícia Federal (PF), foram indicadas pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto, R$ 97 milhões foram enviados na semana anterior ao limite para envio de recursos federais antes das eleições municipais de 2024. A análise feita pelo O Globo indica que boa parte dos recursos foi destinada na tentativa de fortalecer candidatos do PL ou apoiados pelo partido no pleito.

A legislação veda, com algumas exceções, a transferência de recursos da União a estados e municípios nos três meses que antecedem o pleito. Em 2024, o primeiro turno foi realizado no dia 6 de outubro. Com isso, a janela se fechou no dia 6 de julho.

INDICAÇÕES – No período imediatamente anterior a esta data, se concentrou a maior parte do dinheiro indicado por Valdemar: das 21 emendas listadas na decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, seis repasses para Suzano (SP), Porto Seguro (BA), Caraguatatuba (SP), Bebedouro (SP), Ubatuba (SP) e Rio de Janeiro (RJ) somaram R$ 96,7 milhões. Com exceção de R$ 6 milhões indicados ao Rio no dia 1 de julho, todas as outras emendas foram empenhadas em 26 de junho de 2024.

Os recursos na área da Saúde, por serem recursos de custeio transferidos fundo a fundo, caem nas contas dos fundos municipais sem um carimbo definido e, portanto, de uso imediato pelas prefeituras. A legislação exige que 50% das emendas seja indicada para a Saúde.

Suzano, na Grande São Paulo, foi o maior destino individual: R$ 26,8 milhões em junho de 2024. A cidade à época era governada pelo PL: o prefeito Rodrigo Ashiuchi, no fim do segundo mandato, trabalhava para eleger o sucessor Pedro Ishi, do mesmo partido. Em outubro, Ishi foi eleito.

BAHIA – O segundo maior repasse foi para a Bahia, que recebeu R$ 24,9 milhões no mesmo mês. O prefeito Jânio Natal, do PL, disputou a reeleição em Porto Seguro três meses depois e venceu. Já Caraguatatuba, no litoral norte paulista, recebeu R$ 23 milhões em 26 de junho — o terceiro maior valor. Ali o prefeito Aguilar Junior (MDB) apoiou um candidato do PL, que perdeu a eleição.

Em todas as outras cidades, os repasses foram feitos em um pleito bem-sucedido pelo PL. Procurado, o presidente do partido negou ter cometido qualquer crime ou irregularidade. “Os deputados cedem uma parte das emendas, as comissões têm emendas porque as comissões têm verba. Nós temos várias comissões permanentes por causa do tamanho da bancada e com isso a gente consegue ajudar um pouco os nossos prefeitos”, disse Valdemar ao O Globo.

REELEIÇÃO – Em Bebedouro, o candidato do MDB, com apoio do partido de Valdemar, foi reeleito. Depois de outubro de 2024, os repasses ligados a Valdemar mudam de escala: R$ 9,5 milhões para Santa Fé do Sul (SP) e R$ 4,7 milhões para Morro do Chapéu (BA) em dezembro. A primeira cidade elegeu um prefeito do PL e a segunda reelegeu a prefeita com apoio do PL.

Ao longo de 2025, os valores começaram a se pulverizar, com recursos de R$ 220 mil a, no máximo, R$ 3 milhões, por município na área de turismo. O montante milionário foi enviado para Mogi das Cruzes (SP), cidade natal de Valdemar. Procurados, os prefeitos citados ainda não se manifestaram.

Segundo a investigação, as emendas eram indicadas por Valdemar, que não tem mandato como deputado federal, e registradas em nome de deputados “solicitantes” para ganhar aparência de legalidade. Dino determinou o bloqueio de R$ 119,2 milhões em bens do dirigente e a suspensão da execução de todas as despesas ligadas às emendas.

COMISSÃO DA SAÚDE – Um ano e meio antes de a Polícia Federal apontar Valdemar Costa Neto como o verdadeiro padrinho de emendas milionárias, a Prefeitura de Caraguatatuba já registrava o nome dele em um documento oficial. Em documentos publicados no site oficial da Prefeitura, os dois maiores repasses do ano aparecem com a autoria atribuída a “Comissão da Saúde — Waldemar Costa Neto”, com a grafia do nome de Valdemar incorreta, referentes às mesmas emendas identificadas pela Polícia Federal.

O próprio registro contradiz a versão oficial dos documentos na Câmara dos Deputados, que costumavam atribuir as emendas à liderança do PL, manobra que, segundo a PF, servia para dar “ares de legalidade” às indicações de um dirigente sem mandato.

São todas emendas para a Saúde, naquela ação genérica “Incremento Temporário ao Custeio dos serviços de assistência hospitalar e ambulatorial para cumprimento de metas”


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