Publicado em 14 de março de 2023 por Tribuna da Internet

Feitosa quebrou ilegalmente o sigilo de várias pessoas
Ranier Bragon
Folha
O então chefe da inteligência da Receita Federal foi ao Palácio do Planalto na véspera de iniciar uma devassa ilegal em dados sigilosos de desafetos de Jair Bolsonaro (PL), em 2019, e voltou ao local no dia em que concluiu o trabalho, indo especificamente ao gabinete de Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República.
Nesses dias, não há na agenda pública oficial de Bolsonaro ou do general Heleno nenhum registro de compromisso com Ricardo Pereira Feitosa, que coordenou o setor de Pesquisa e Investigação do Fisco de maio a setembro de 2019.
AGENDA OCULTA – Planilhas do sistema de entrada e saída do Planalto, obtidas pela Folha via Lei de Acesso à Informação, mostram que o então chefe de inteligência da Receita entrou pela primeira vez no local no dia 9 de julho de 2019, primeiro ano da gestão Bolsonaro (2019-2022). Os documentos, porém, não informam o destino específico dentro do palácio.
No dia seguinte, 10 de julho de 2019, Feitosa fez nas bases da Receita os primeiros acessos ilegais e copiou em PDF dados fiscais sigilosos do então procurador-geral de Justiça do Rio Eduardo Gussem (coordenador das investigações do caso das “rachadinhas”, cujo alvo principal era Flávio Bolsonaro, filho do presidente), do ex-ministro Gustavo Bebianno e do empresário Paulo Marinho, políticos que eram próximos, mas havia rompido com a família presidencial.
Seis dias depois, em 16 de julho de 2019, Feitosa fez novo acesso ilegal aos dados de Bebianno e Marinho nas bases do Fisco, vasculhando dessa vez também os dados da mulher do empresário, Adriana Marinho.
DE VOLTA AO PLANALTO – Às 17h45 deste mesmo dia, 16 de julho, o então chefe na Receita voltou ao Planalto, mas dessa vez as planilhas registraram que ele teve como destino o gabinete de Heleno, um dos ministros mais próximos a Bolsonaro.
Como mostrou a Folha, Ricardo Feitosa acessou os dados fiscais sigilosos do chefe do Ministério Público do Rio e dos políticos desafetos da família Bolsonaro sem que houvesse nenhuma motivação formal para isso, atitude que não é permitida pela lei.
A Receita abriu uma investigação interna em 2020 e o caso está atualmente na Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional com a recomendação de demissão de Feitosa do serviço público. A decisão final cabe ao ministro Fernando Haddad.
NOVE VISITAS – Os dados do sistema de registro de entradas e saídas do Planalto obtidos agora pela Folha mostram que Feitosa entrou nove vezes na sede do governo com registro na portaria, no período em que chefiou a inteligência do Fisco.
Em três dessas ocasiões há menção de que o destino era o gabinete de Heleno, mas nas outras seis não foi informado destino específico dentro do palácio.
As primeiras vezes que o chefe da Receita ingressou pela portaria do Planalto foram justamente nos dias 10 e 16 de julho de 2019. No dia 10, as agendas públicas de Bolsonaro e de Heleno não registram encontros com Feitosa. No dia 16, data em que o chefe da Receita praticamente concluiu os acessos ilegais que faria nas bases do Fisco, a entrada de Feitosa no Planalto ocorreu às 17h45. De acordo com o documento, seu destino foi o gabinete de Heleno e, 6 minutos depois, às 17h51, ele deixou o Planalto.
OUTRO ACESSO ILEGAL – De acordo com as investigações posteriores feitas pela Receita, Feitosa faria após o dia 16 apenas mais um acesso ilegal de dados sigilosos, em 18 de julho, relativo a Paulo Marinho.
Ao todo, o então chefe da inteligência da Receita vasculhou e fez cópias de dados dos desafetos de Bolsonaro em quatro sistemas sigilosos da Receita: o de Imposto de Renda, um que reúne ativos e operações financeiras de especial interesse do Fisco, um de comércio exterior e uma plataforma integrada alimentada por 29 bases de dados distintas.
Cerca de um ano depois dessa devassa, a defesa de Flávio Bolsonaro mobilizou vários órgãos do governo do pai justamente sob a afirmação de que havia um esquema de acesso ilegal de seus dados fiscais, o que teria embasado a produção do Relatório de Inteligência Financeira que chegou ao Ministério Público do Rio e deflagrou o caso das “rachadinhas”.
APOIO DA ABIN – A partir de agosto de 2020, advogados do filho do presidente se reuniram, entre outros, com o GSI de Heleno e com a Abin (Agência Brasileira de Inteligência), comandada por Alexandre Ramagem, para tratar do assunto.
Naquele período, a Receita também mobilizou por quatro meses uma equipe de cinco servidores para apurar a acusação de Flávio, mas ao final afirmou não ter encontrado indícios nesse sentido.
As outras duas vezes em que há registro de entrada de Feitosa no Planalto para ida ao GSI são relativas aos dias 18 e 19 de setembro de 2019, poucos dias antes de sua exoneração do cargo.
Sobre as idas de Feitosa ao Palácio do Planalto e ao GSI exatamente no período em que o chefe da inteligência da Receita promovia a devassa contra adversários do presidente, o ex-ministro Heleno afirmou não se lembrar dessas visitas.
Augusto Heleno afirmou que nunca teve conhecimento de acessos ilegais na Receita Federal de dados sigilosos de desafetos de Bolsonaro.
“Não me lembro dele nem do que o teria levado ao meu gabinete. Pode ter sido recebido por qualquer dos meus adjuntos”, afirmou.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Uma boa matéria. Porém, seguindo essa trilha, mais importante seria devassar a reunião de Bolsonaro e Heleno com a Luciana Pires, advogada de Flávio Bolsonaro, quando foi acertada a participação da Abin para ajudar a defesa do senador rachadista, como diria Odorico Paraguassú, o célebre prefeito de Sucupira. (C.N.)

Patrik Camporez e Dimitrius Dantas



