domingo, março 12, 2023

O que realmente aconteceu na invasão do Capitólio, em 6 de janeiro?




Os vídeos revelados pelo provocador Tucker Carlson (foto) mostram o lado pacífico dos manifestantes, o que não elimina os atos destrutivos.

Por Vilma Gryzinski

Nada como ter dois lados antagônicos, competindo para comprovar a validade das respectivas narrativas.

A versão predominante até agora dos acontecimentos do dia 6 de janeiro de 2021 era uma montagem focada na agressividade dos manifestantes trumpistas que invadiram o Capitólio para protestar contra o que acreditavam arrebatadamente ser uma eleição roubada de Joe Biden.

Mesmo quem acompanhou tudo ao vivo, e viu uma multidão majoritariamente pacífica, passou a não duvidar dos abusos que as cenas editadas mostravam, não só em termos de atos agressivos como do simbolismo de uma invasão à sede do Poder Legislativo

Exceto pelo fato de que, no mundo atual, não podemos acreditar nem em nossos olhos.

O outro lado da realidade tem sido mostrado pelo apresentador Tucker Carlson, um mestre da manipulação que precisa ser assistido com um bocado de informação para não cair em seus truques.

Com a eleição que deu a maioria aos republicanos na Câmara dos Representantes, Carlson conseguiu 44 mil horas de gravações de câmeras de segurança do Congresso, fornecidas pelo novo presidente do legislativo, Kevin McCarthy.

É claro que Carlson editou as cenas mostradas em seu programa na Fox para enfatizar o oposto da versão de violência descontrolada. Mas é impossível negar o que está exposto.

As cenas mais definitivas envolvem o personagem mais notório do 6 de janeiro, Jacob Chansley, conhecido como o Xamã do QAnon, um site ultraconspiracionista. Em vez do selvagem sem camisa em temperatura abaixo de zero e um arranjo de cabeça composto por chapéu de pele com chifres, vemos a exótica criatura caminhar calmamente por vários ambientes da sede do legislativo, sempre acompanhado por dois integrantes da polícia do Capitólio que chegam a procurar portas para abrir e lhe dar passagem. Os agentes não o interceptam em momento algum. Num determinado momento, há nove membros da polícia do legislativo em volta dele, sem nenhum incidente de parte a parte.

Outras cenas mostram Brian Sicknick, um policial legislativo que morreu ao chegar em casa depois da invasão do Capitólio, devido a um AVC provocado por causas naturais. A versão de que ele havia sofrido traumatismo craniano ao ser atingido por um extintor de incêndio durante a invasão já havia sido amplamente desmentida, mas vê-lo se deslocar com calma durante os acontecimento acrescenta uma nova dimensão aos fatos.

Apurar os fatos, e entender como são apresentados por campos políticos opostos, é importante para os jornalistas e para a sociedade em geral. Existe também, obviamente, um paralelo entre os acontecimentos de janeiro de 2021 em Washington e os de 2023 em Brasília. Fazer comparações automáticas é um erro, mas também o é ignorar os pontos em comum. Com uma importante diferença: a depredação dentro das sedes dos Três Poderes em Brasília foi muito maior.

Tucker Carlson mostrou as cenas inéditas num momento de alta volatilidade para a Fox, acusada num processo por difamação pela Dominion Voting Systems, empresa canadense proprietária de urnas usadas na última eleição presidencial e acusada por apresentadores do canal a cabo de “sumir” com 2,7 milhões de votos destinado a Donald Trump. Como tudo acontece nos Estados Unidos, o paraíso das indenizações sem relação com a realidade, a Dominion pede 1,6 bilhão de dólares.

Divulgadas por exigência da justiça, mensagens trocadas entre as principais estrelas da Fox mostram que eles são como todos os jornalistas: falam o que realmente acham quando estão no WhatsApp.

A mensagem mais comentada é a de Tucker Carlson sobre Donald Trump e tem uma natureza surpreendente. “Estamos muito, muito perto de poder ignorar Trump completamente”, escreveu ele em 4 de janeiro de 2021 (ironicamente, dois dias depois seria desmentido pela realidade);

“Mal posso esperar. Eu o odeio fervorosamente”.

Em outro trecho, ele diz que o verdadeiro talento de Trump “é para destruir coisas. Poderia nos destruir facilmente se fizéssemos o movimento errado”.

A audiência recordista de Carlson pode ficar decepcionada, mas a mensagem mostra camadas de complexidade que já haviam aparecido também em mensagens de Sean Hannity, o outro apresentador linha dura. Durante a invasão do Capitólio, ele apelou a suas fontes no governo para que fizessem Trump mandar o povaréu sair da sede do legislativo, sob pena de se autodestruir.

Em outra troca de mensagens, Carlson, Hannity e Laura Ingraham se dedicam a uma atividade muito apreciada por jornalistas em geral, falar mal dos patrões.

“Estamos oficialmente trabalhando para uma organização que nos odeia”, escrevem Ingraham, referindo-se à atitude de outro apresentador de sair à frente das outras emissoras e anunciar que Biden tinha ganhado a eleição no estado do Arizona.

“Nós três temos um poder enorme. Temos mais poder do que sabemos ou exercemos”, comenta ela.

Têm mesmo. Dominar a narrativa confere grande poder. É por isso que os jornalistas honestos precisam tentar ser fiéis aos fatos na medida de suas possibilidades, controlar o próprio desejo de desprezar os que são contra suas posições políticas e abrir bem os olhos, principalmente para coisas que prefeririam não ver.

É claro que Tucker Carlson é o oposto disso tudo, mas as cenas que ele está mostrando não podem ser ignoradas. São tão eloquentes que o líder do Senado, o democrata Chuck Schumer, apelou diretamente a Rupert Murdoch para não deixar que Carlson continuasse com seu “desprezo pelos fatos, indiferença aos riscos e plena consciência de que está mentindo para sua audiência”.

Quem está mentindo mais?

A vida é complicada e nem sempre há respostas simples, mas ver os vídeos apresentados pelos dois lados, inclusive durante a comissão de inquérito da época da maioria democrata, ajuda a entender melhor o que realmente aconteceu naquele dia na sede do Poder Legislativo e desconstrói as visões unilaterais.

Revista Veja

Participação de Janja em live da TV Brasil fere impessoalidade, diz especialista




Cristiano Vilela, especialista em direito eleitoral e constitucional

Nesta semana, a primeira-dama participou de uma transmissão ao vivo no canal do YouTube da TV Brasil Gov, administrado pela EBC

A live "Papo de Respeito" contou com a presença da primeira-dama, Janja da Silva, da ministra da Mulher, Cida Gonçalves, e da atriz Luana Xavier - Foto: Ricardo Stuckert

Por Gabriela Oliva 

A participação da socióloga e primeira-dama, Janja Lula da Silva, em uma live transmitida na terça-feira (7) em comemoração ao Dia Internacional da Mulher durante programa gravado nos estúdios da estatal EBC (Empresa Brasileira de Comunicação), no Distrito Federal, pode ter ferido o princípio da impessoalidade, segundo especialista ouvido pelo O TEMPO. O programa foi retransmitido nos canais de comunicação da TV Brasil. 

O conteúdo chamado “Papo de Respeito”, que teve como tema o combate à violência contra a mulher, foi apresentado por Janja ao lado da ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, e da atriz Luana Xavier.

Cristiano Vilela, especialista em direito eleitoral e constitucional, afirmou à reportagem que a participação de Janja no programa fere o princípio da impessoalidade. 

“O agente público, ao exercer suas atividades atribuídas à função ou cargo público, atua como um membro de todo aparelho estatal, motivo pelo qual o princípio da impessoalidade  impõe a necessidade de não ser pessoal em qualquer ato praticado (...) Janja não tem cargo oficial no governo, sendo apenas primeira-dama, isto é, não exercendo função pública. Nesse sentido, a superexposição da primeira-dama, em tese, se daria por conta do vínculo familiar com o presidente, o que incorre claramente em afronta ao princípio da impessoalidade”, disse. 

Com base neste argumento, o vereador por São Paulo Rubinho Nunes (PL) entrou na Justiça contra Janja e a EBC. Segundo o político, o atual mandatário utilizou a TV estatal para autopromoção, ferindo a autonomia da EBC e violando o princípio da impessoalidade no poder público.

Ele pede que a empresa remova a transmissão de suas redes e que novas participações de Janja em programas da TV Brasil sejam proibidas pelo Judiciário.

Em nota enviada à reportagem de O TEMPO, a EBC afirmou que a transmissão cumpre “o contrato de prestação de serviços firmado com a Secretaria de Comunicação Social (Secom). O acordo inclui transmissões ao vivo, a partir de demanda definida pela Secom”.

Ainda de acordo com a estatal,  “a primeira-dama não é apresentadora de nenhum programa da grade da TV Brasil”.

"O artigo 223 da Constituição Federal prevê complementaridade entre os sistemas público, estatal e privado de comunicação. A transmissão da live está dentro do escopo de prestação de serviços ao governo, que é uma das obrigações da EBC previstas na Lei de sua criação, também um direito do cidadão", completou.

O Tempo

Nem inadimplência segura inflação - Editorial




IPCA de fevereiro lança novas dúvidas sobre cenário econômico e sinaliza que é cedo para o BC reduzir os juros

O número de brasileiros inadimplentes bateu recorde histórico e chegou a 70,1 milhões de pessoas em janeiro, segundo dados da Serasa. O valor dos débitos também foi o mais alto da série e atingiu a marca de R$ 323,3 bilhões. No intervalo de um ano, o número de pessoas que ficaram com o nome sujo na praça subiu 8,3%, enquanto o volume das dívidas aumentou assombrosos 24%.

Esse quadro tenebroso no que diz respeito ao endividamento se deve a um conjunto de fatores. Além do aumento das taxas de juros, que por si só já retroalimenta o crescimento das dívidas, muitas famílias buscaram se financiar com linhas que já são tradicionalmente mais caras, como cheque especial e cartão de crédito.

Não há dúvidas, no entanto, de que a inflação tem contribuído para ampliar as agruras dos inadimplentes. “A inflação fez um estrago gigantesco no orçamento das famílias, especialmente nas de baixa renda, o que gerou esse crescimento no número de brasileiros inadimplentes”, explicou ao Estadão o economistachefe da Serasa, Luiz Rabi. E o pior é que a inflação insiste em não arrefecer.

Em fevereiro, o IPCA subiu 0,84%, ante 0,53% em janeiro, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A taxa de difusão, que mede a proporção dos 377 subitens do indicador que tiveram aumento de preços no período, avançou de 63% em janeiro para 65% em fevereiro. Dos nove grupos que compõem o índice, oito registraram altas no mês passado, com exceção de vestuário.

Tudo indica que a tendência de desaceleração que vinha sendo observada até o fim do ano passado está perdendo força. Isso já seria suficientemente preocupante, mas o problema é que esse movimento começou a ocorrer com a inflação ainda rodando em níveis bastante elevados. “Estamos em uma pausa na desinflação”, disse Anna Reis, economista da GAP Asset. A economista-chefe da CM Capital, Carla Argenta, mencionou os impactos positivos da política monetária em bens duráveis e alimentos, mas destacou que os serviços, que também costumam reagir às restrições geradas por juros altos, não apenas resistem a ceder, como subiram 1,41%.

Como não poderia ser diferente, o mercado financeiro ajustou as expectativas ao resultado do IPCA, e os juros futuros voltaram a subir imediatamente após o indicador. A despeito das incertezas sobre a política fiscal do governo e sobre o novo arcabouço, parte dos investidores avaliava que a piora no mercado de crédito para empresas – em razão da crise das Americanas – poderia estimular o Banco Central (BC) a antecipar o ciclo de redução dos juros, hoje em 13,75% ao ano.

No entanto, nem mesmo a inadimplência recorde das pessoas físicas tem sido suficiente para debelar a resiliência da inflação – e vale lembrar que controlar a inflação e garantir a estabilidade do poder de compra da moeda é a principal missão institucional do BC. Apesar de toda a pressão do governo de Lula da Silva e dos temores de vários setores sobre uma recessão, o cenário macroeconômico segue muito incerto e pouco favorável para motivar o BC a começar a reduzir a Selic.

O Estado de São Paulo

Após decisão de Moraes, CPI do DF deve mudar oitiva com Torres e ouvir coronel da PM



O ex-ministro da Justiça Anderson Torres

Ex-ministro da Justiça deverá depor em 23 de março; policial tem depoimento previsto para esta quinta (16)

Por Luciana Amaral e Kaio Teles

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) sobre os atos antidemocráticos de 8 de janeiro deve tentar ouvir o ex-ministro da Justiça e ex-secretário de Segurança Pública do DF Anderson Torres em 23 de março, e não mais na próxima quinta-feira (16), se ele concordar com o depoimento.

A mudança deve acontecer porque o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes autorizou que Torres preste depoimento ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) justamente na quinta, às 10h, sobre a ação que investiga a conduta do ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL) no âmbito da Corte eleitoral. A intenção é que Torres fale da minuta golpista encontrada na casa dele, por exemplo.

Agora, para a próxima quinta, os deputados distritais estudam fazer uma oitiva com o ex-chefe do Departamento de Operações da Polícia Militar do DF (PMDF), coronel Jorge Eduardo Naime, preso pela Polícia Federal na operação Lesa Pátria. Ele estava inicialmente de folga em 8 de janeiro, quando aconteceram os ataques às sedes dos Três Poderes em Brasília.

O gabinete do presidente da CPI da CLDF, Chico Vigilante (PT), chegou a ser procurado pela defesa de Naime para sinalizar que o policial estaria disposto a falar com os deputados distritais, segundo interlocutores do político.

O depoimento de Anderson Torres ficaria para 23 de março. Se ele realmente comparecer à comissão, o depoimento deve ser em caráter reservado a pedido. Torres segue preso por suposta omissão na condução das forças de segurança públicas em 8 de janeiro.

Chico Vigilante chegou a pedir a Moraes a liberação de Torres para audiência na Câmara na quinta. Participariam apenas os membros da comissão e servidores designados, sem a presença da imprensa e sem transmissão da TV Câmara.

Na última sexta (10), Moraes intimou a defesa de Torres para que se manifeste em 48 horas sobre o requerimento da CPI.

CNN

E se os homens desaparecessem? Para a ciência, um mundo só de mulheres é possível.




Imagine um mundo habitado somente por mulheres, onde casais de mulheres concebem seus filhos sem a interferência dos homens. 

Por Fernando Reinach (foto)

Os avanços da genética nos permitem imaginar mundos distópicos cientificamente plausíveis. A ficção científica está lotada de mundos distópicos, desde os inocentes, recheados de super-heróis voadores, até os bizarros, com viagens no tempo. O problema é que grande parte desses mundos distópicos não são cientificamente plausíveis. Para existirem é necessário que as leis da física ou outros conhecimentos científicos sejam violados.

O que me fascina são os mundos distópicos que se tornam possíveis devido a um desenvolvimento científico ou tecnológico. Distopias cientificamente possíveis são interessantes, pois sua existência só depende do desejo da humanidade. Novas tecnologias, como bebês de proveta que se desenvolvem em barrigas de aluguel, não tem inspirado a criação de mundos distópicos. Já a clonagem, produção de seres vivos geneticamente idênticos (lembram da ovelha Dolly?), inspirou distopias com milhares de cópias de Hitler.

Hoje quero descrever um desses mundos, uma sociedade humana de mulheres, sem pessoas do sexo masculino.

Nos mamíferos, a reprodução depende da cooperação entre os sexos. As fêmeas produzem óvulos, que são fecundados por espermatozóides produzidos pelos machos, e o feto se desenvolve no útero de uma fêmea. Essa semana cientistas reportaram pela primeira vez a criação de camundongos provenientes de dois machos. Nesse experimento, células retiradas de um camundongo macho foram induzidas, através de um processo bastante complexo, a se transformarem em óvulos. E esses óvulos foram fecundados com espermatozoides provenientes de camundongos machos. Dessa maneira o embrião resultante é filho genético de dois machos.

Esses embriões foram implantados no útero de uma fêmea e geraram camundongos saudáveis. As etapas desse processo são complexas, e a taxa de sucesso é muito baixa. Foram obtidos sete filhotes em 630 tentativas. Com base nesse feito cientifico, é possível imaginarmos um mundo distópico onde todas as crianças seriam filhas de dois pais do sexo masculino. Mas nesse mundo estranho, as mulheres ainda seriam necessárias, pois os embriões precisam do útero feminino para se desenvolverem. Assim, respeitando a ciência, essa descoberta não nos permite imaginar um mundo habitado somente por homens.

Mas um mundo habitado somente por mulheres já tem suporte científico. Cientistas retiraram células de camundongos fêmeas e, através de diversas manipulações, conseguiram que elas se transformassem em espermatozoides. Esses espermatozoides foram usados para fecundar outros camundongos fêmeas que pariram filhotes saudáveis. Ou seja, todo o ciclo reprodutivo foi feito sem a necessidade de se recorrer a um macho.

O mais interessante é que os camundongos, como os seres humanos, possuem cromossomos X e Y, sendo que as fêmeas possuem dois cromossomos X e os machos um cromossomo X e um Y. Nesse experimento, como os espermatozóides foram produzidos a partir de células de uma fêmea, eles só contêm o cromossomo X e os óvulos, que também provêm de uma das fêmeas, só contêm o cromossomo X. Desse modo, esse processo só produz fêmeas e dispensa o cromossomo Y.

Agora imagine um mundo habitado somente por mulheres, onde casais de mulheres concebem seus filhos sem a interferência dos homens: uma mulher doa as células que são usadas para produzir espermatozoides e a outra contribui com seus óvulos e o útero onde o feto se desenvolve. Numa sociedade desse tipo, como todas as crianças concebidas serão do sexo feminino (um X vindo do óvulo, outro do espermatozoide), não nascerá nenhum homem.

Nesse mundo, os casais de mulheres podem se revezar como produtoras de espermatozoides ou de óvulos, tornando os casais absolutamente simétricos. Se esse modo reprodutivo, cientificamente possível, for adotado pelas mulheres, os homens deixarão de nascer e o cromossomo Y desaparece da face da terra quando o último dos homens, agora totalmente inútil, for enterrado. A história do último homem e sua busca por uma mulher disposta a copular daria um ótimo romance. Dadas todas as críticas à masculinidade tóxica e à agressividade e brutalidade masculina, talvez esse seja um bom caminho para a humanidade. E então todos os dias serão o dia da mulher e o feminicídio desaparecerá.

Mais informações: The mice with two dads: scientists create eggs from male cells. Nature https://www.nature.com/articles/d41586-023-00717-7 2022

O Estado de São Paulo

Bolsonaro: um fiasco eleitoral de 300 bilhões de reais




Foi a derrota eleitoral mais cara da história recente, pelas contas do Ministério da Fazenda. 

Por José Casado (foto)

A campanha de reeleição de Jair Bolsonaro custou 300 bilhões de reais aos cofres públicos, disse o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, aos repórteres William Waack, Daniela Lima e Raquel Landim, da CNN, na sexta-feira (10).

“Bagunçou a economia”, acrescentou. “Hoje, vimos um pequeno aperitivo disso, que são R$ 30 bilhões” — valor do acordo fechado pela Fazenda com os governos estaduais para compensação parcial das perdas impostas em tributos (ICMS) sobre o consumo de combustíveis, durante a campanha eleitoral.

Essa despesa extra de 300 bilhões de reais foi realizada no contexto de um projeto político de interesses e benefícios estritamente pessoais e privados. Ela é 18% maior que todo o gasto federal em Saúde e Educação, no ano passado.

Se a conta da Fazenda está correta, Bolsonaro tem um novo recorde na sua biografia: foi protagonista da derrota eleitoral mais cara da história recente — um fiasco político de 57,6 bilhões de dólares. A conta, naturalmente, será paga por todos brasileiros. Neste e nos próximos anos.

Revista Veja

Democracia, governança, pesos e contrapesos




Brasileiros votaram para preservar democracia, o governo eleito precisa respeitá-la

Por Marcos Mendes* (foto)

O presidente da República, referindo-se ao presidente do Banco Central, afirmou que "o país não pode ser refém de um único homem (...) esse cidadão, que não foi eleito para nada, acha que tem o poder de decidir as coisas".

É justamente para que o país não fique "refém de um único homem" que existem instituições como o Banco Central autônomo. Se for dada ampla liberdade ao presidente da República para tomar toda e qualquer decisão, ele transformará a sociedade em sua refém.

A estabilidade das democracias exige pesos e contrapesos de poder. Em questões sujeitas à chamada "inconsistência intertemporal", na qual benefícios presentes (juros baixos, por exemplo) podem gerar ganhos políticos ao governante ao custo de grandes perdas futuras para a sociedade (inflação alta, juros altos e baixo crescimento, por muitos anos), as democracias caminharam no sentido de entregar o poder discricionário para técnicos com menores incentivos políticos e mais focados no bem-estar e estabilidade de longo prazo.

O Judiciário, o Ministério Público, as agências reguladoras, as Forças Armadas e outras instituições públicas também são (ou deveriam ser) comandadas por técnicos especializados nas respectivas funções, que mantêm distância das urnas. O mesmo se dá com instituições semipúblicas, como os fundos de pensões de empresas estatais.

Entregar ao presidente e demais autoridades eleitas o poder decisório dessas instituições significa instituir a ditadura da maioria. Daí porque há tanta preocupação e crítica quando há indicações políticas para a direção de tais instituições. É sinal de que seus objetivos precípuos e de longo prazo ficarão subordinados aos interesses da maioria do momento.

O presidente da Petrobras afirmou que a empresa tem "uma máquina de proibir coisas" e reclamou que a companhia "tomou alguns caminhos" de forma racional e "apolítica".

E não deveria ser assim? Uma companhia listada em bolsa, que capta recursos privados, precisa tomar decisões racionais e apolíticas. A "máquina de proibir coisas" é, na verdade, um conjunto de regras de governança que visa evitar que meia dúzia de pessoas tome as decisões que quiser, da forma que quiser.

O reforço da governança da Petrobras veio justamente em resposta ao elevado nível de corrupção ali instalado, quando, a título de atingir questionáveis objetivos de políticas públicas, dilapidou-se o patrimônio da companhia.

Mais uma vez estamos diante de mecanismos que protegem a coletividade —os acionistas majoritários (os contribuintes) e os minoritários— de decisões inconsistentes e irresponsáveis, que geram ganhos políticos no curto prazo, mas muitos prejuízos em seguida.

Um diretor do BNDES propôs que a instituição emitisse o seu próprio título público, para deixar de ser "refém" de recursos orçamentários alocados ao Banco pelo Tesouro. Ora, o BNDES é uma entidade 100% estatal, cuja missão é implementar políticas públicas. Dar ao BNDES o poder de emitir título próprio é praticamente criar um Tesouro Nacional paralelo. O BNDES emitiria o quanto quisesse, emprestaria para quem quisesse, sem dar satisfação às autoridades fiscais ou prestar contas ao Congresso.

O título do BNDES concorrerá diretamente com os do Tesouro, aumentando o custo de financiamento da dívida pública, e com debêntures e certificados privados que hoje já cumprem a função de financiar a infraestrutura e outros setores, sem precisar que o governo entre para fazer isso.

A bem da democracia, o BNDES tem que ser refém da autoridade fiscal. A restrição ao seu "funding" evita dar superpoderes ao Poder Executivo do momento. Assim como a governança da Petrobras deve redobrar a vigilância, agora que a companhia distribuirá menos dividendos (que iriam para o Orçamento da União, de forma transparente) para ter mais recursos a serem alocados por seus dirigentes, sob determinação do governo de plantão, com alta discricionariedade.

Lula foi eleito por pequena margem de votos, garantida por eleitores que temiam que Bolsonaro desmontasse a democracia. Seu governo precisa respeitar as instituições, limites, pesos e contrapesos típicos da democracia.

*Pesquisador associado do Insper, é autor de 'Por que É Difícil Fazer Reformas Econômicas no Brasil?'

Folha de São Paulo

O desencanto com a ‘frente ampla’ - Editorial




Quanto mais se evidencia o engodo, mais se mostra necessário construir uma verdadeira coalizão plural para frear os ímpetos hegemônicos do PT e alternativas à polarização que ele fomentou

Em 2022, brotou forte em uma imensa parcela do eleitorado o anseio por uma frente ampla democrática capaz de serenar o País e distensionar as relações entre as instituições, abrindo canais de comunicação entre o melhor das forças republicanas à direita e à esquerda para enfrentar desafios urgentes, como a recuperação pós-pandemia, a fome, a inflação, e pavimentar os caminhos para o crescimento econômico e para melhorar a educação, a saúde ou a segurança pública. Seja por falta de ideias, de paixão ou articulação, os candidatos da chamada terceira via não conseguiram cativar esses eleitores. Mas o candidato que acabou vencedor também não conseguiu.

A coligação de Lula da Silva não logrou reunir senão partidos de esquerda.

Ela não conquistou a maioria no primeiro turno. No segundo, venceu pela margem mais apertada desde a redemocratização, perdendo em regiões importantes como o Sul, Sudeste e Centro-Oeste e entre as classes média e alta. Aqueles que não lhe deram um voto de confiança, seja por terem votado no adversário, nulo, branco ou não terem votado, representam quase dois terços do eleitorado. Na Câmara, ela conquistou pouco mais de 130 cadeiras (cerca de um quarto) e no Senado, 5 das 27 disputadas.

Longe de representarem o triunfo de uma “frente ampla democrática” consolidada, esses resultados sugerem que o grande desafio dos vencedores seria construir essa frente por meio de negociações e, inevitavelmente, concessões, distribuindo o poder e articulando projetos de conteúdos mais moderados. Mas o governo fez o oposto.

“Estamos vendo um Lula até raivoso em determinados momentos”, disse ao Estadão o ex-senador pelo PSDB Tasso Jereissati, que apoiou Lula no segundo turno contra o mal maior, Jair Bolsonaro. “Ele mesmo falou que era preciso acabar com o nós contra eles. Não veio um Lula Mandela, veio um Lula antiBolsonaro”, disse o ex-senador, referindo-se ao líder sul-africano que, mesmo após 27 anos na prisão, dialogou com seus algozes em nome da união do país.

Não deixa de ser um tanto surpreendente que o experiente Jereissati se diga “muito surpreso” com a radicalidade do governo na forma e no conteúdo. Não havia nada na campanha que autorizasse expectativas de que o PT teria revisto suas pretensões hegemônicas e seus programas retrógrados; não havia nenhuma proposta que autorizasse supor que Lula adotaria o pragmatismo de seu primeiro mandato; não havia nenhuma retratação pelas políticas econômicas heterodoxas gestadas em seu segundo mandato e consumadas pela sua criatura Dilma Rousseff, que mergulharam o País na pior recessão da história recente; nem pelas táticas empregadas no mensalão ou no petrolão, que o mergulharam na maior crise moral da Nova República; nem pelo sectarismo virulento que o polarizou e abriu caminho para a eleição da nêmesis petista, Jair Bolsonaro.

Lula e o PT não só não aprenderam nada nem esqueceram nada, como falam de um Brasil em estado catastrófico, como se não tivessem recebido cinco dos últimos seis mandatos e governado o País por quase 14 dos últimos 20 anos.

Já no poder, o Diretório Nacional do PT, que, como se sabe, nada mais é que um porta-voz de Lula, consolidou essa atitude em uma resolução eivada de ressentimentos e mentiras. O partido teria sido vítima de uma conspiração das elites, e seu retorno ao poder é uma espécie de reparação histórica que lhe dará a oportunidade de se vingar e implementar plenamente seus dogmas.

Lula não despreza apenas os partidos de oposição, mas seus próprios aliados. “O único partido com cabeça, tronco e membro é o PT”, disse em entrevista recente. “O restante é uma cooperativa de deputados que se juntam nas eleições.”

Assim, a rigor, não se pode dizer que a “frente ampla democrática” de Lula malogrou, porque ela nunca existiu, nem nas intenções do partido, muito menos nas suas articulações, apenas na retórica eleitoral. Mas quanto mais o engodo é evidenciado, mais se mostra necessário construir uma verdadeira frente ampla democrática, seja para frear a marcha da insensatez lulopetista rumo a um passado idealizado como glorioso que na realidade foi desastroso, seja para construir as bases de um futuro governo verdadeiramente amplo, plural, eficiente e republicano.

O Estado de São Paulo

Relatório Otálvora: A visita do Assessor Especial Celso Amorim a Maduro




O Assessor Especial da Presidência da República Celso Amorim e Nicolas Maduro, 08 MAR 2023

Por Edgar C. Otálvora

O governo de Gustavo Petro rapidamente se cobriu de indícios de corrupção e ligações com o narcotráfico que teriam começado ainda na própria campanha eleitoral.

Informações divulgadas por sua ex-mulher revelam que o filho do presidente da Colômbia , Nicolas Petro Burgos, recebeu grandes somas de dinheiro de conhecidos narcotraficantes para financiar a campanha eleitoral de seu pai.

Além disso, depois de seu pai ter vencido as eleições de 19 JUN 2022, Nicolas Petro Burgos disse a sua ex-esposa Day Vásquez que faria grandes negócios com a petroquímica Monomeros, propriedade do Estado venezuelano e localizada em Barranquilla, Colômbia. “Isto é para um grande caixa que vamos manusear”, teria dito Nicolas Petro à mulher, segundo a revista Semana.

Conforme relatado neste Relatório, Petro e seu embaixador em Caracas, Armando Benedetti, mostraram especial interesse  para Maduro em acelerar o retorno de Monómeros à ditadura chavista, uma vez que a empresa permaneceu sob o controle de representantes da oposição venezuelana.

A diretoria nomeada por Maduro, registrada na Câmara de Comércio de Barranquilla em 09 SET 2022, integrava dois cidadãos colombianos, Rodrigo Ramírez Salazar e Cristóbal Padilla Tejeda, ligados ao governo Petro. Em 19 SET 2022, o embaixador de Maduro em Bogotá, Félix Plasencia, assinou um acordo com o superintendente de Empresas da Colômbia, Billy Escobar, por meio do qual a Colômbia devolveu Monómeros ao regime chavista e reconheceu a diretoria indicada por Maduro. Três dias depois, o embaixador Benedetti já anunciava o primeiro grande negócio entre o governo Petro e Monomeros com a compra de 16 mil toneladas de ureia da Venezuela.

Hoje se sabe que Rodrigo Ramírez, diretor da empresa Monómeros nomeado por Maduro, é amigo, sócio e sócio político do filho de Gustavo Petro. Além disso, o embaixador Benedetti e Nicolás Petro são aliados políticos na costa colombiana. Benedetti era o gerente de campanha de Gustavo Petro, que teria recebido dinheiro do tráfico de drogas por meio de Nicolas Petro. Muito tecido para cortar…

Na noite de 11 MAR 2023, circulavam em Bogotá rumores sobre a renúncia ou virtual demissão de Benedetti. Gustavo Petro ligou com urgência para seu embaixador em Bogotá e o recebeu no dia 09 MAR 2022 na Casa de Nariño. A questão de Nicolas Petro teria sido a questão que motivou a convocação do embaixador e assessor do Palácio.

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E se não bastasse. A esposa de Gustavo Petro, Verónica Alcocer, incluía um empresário amigo da família chamado Manuel Grau, que ele apresentou como funcionário público assessor do gabinete da primeira-dama. Grau faz parte de um grupo de espanhóis que receberam a nacionalidade colombiana poucas semanas após a posse de Petro, alguns deles relacionados ao grupo terrorista Terra Lliure. Verónica Alcocer visitou o Palácio de Miraflores sem estar acompanhada de funcionários do Itamaraty da Colômbia.

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Por certo. O chanceler colombiano, Álvaro Leyva Durán, viajou à Venezuela, no dia 07 MAR 2023, com o único objetivo de manter um encontro privado com Nicolás Maduro. A reunião aconteceu em um momento em que os detalhes finais de um acordo entre Petro e a narcoguerrilha do ELN eram discutidos na Cidade do México. Como já havia acontecido durante a visita da primeira-dama colombiana a Miraflores, Leyva Durán não estava acompanhada do embaixador Benedetti ou de nenhum dos funcionários diplomáticos credenciados pela Colômbia em Caracas. Muitos segredos aparentemente correm entre Gustavo Petro e Maduro.

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A propósito dos dez anos desde o anúncio da morte de Hugo Chávez, no dia 05 MAR 2003 realizou-se em Caracas uma concentração dos principais chefes do castrochavismo continental. No evento central com Nicolás Maduro como mestre de cerimônia, o nicaraguense Daniel Ortega, os ex-presidentes da Bolívia, Equador e Honduras, Evo Morales, Rafael Correa e Manuel Zelaya, o primeiro-ministro de São Vicente e Granadinas Ralph Gonsalves apresentados por Maduro como “o leão do Caribe“, o presidente da Bolívia Luis Arce e o fechamento foi com Raúl Castro. No presidium, na segunda fila apareceu entre outros ativistas estrangeiros, o brasileiro João Pedro Stédile, chefe do violento “Movimento dos Trabalhadores Sem Terra” (MST),

O ato fez parte de um conjunto de eventos para a exaltação de Chávez e a comemoração dos dez anos de permanência de Maduro no poder. O chavismo se sente confortável, a pressão internacional foi reduzida, a oposição interna está focada em uma luta interna pela candidatura a hipotéticas eleições e, como na época de Chávez, mais uma vez o regime organiza eventos festivos de fusão política em Caracas com seus aliados estrangeiros . A presença de Castro, pouco dado a viajar para fora de Cuba, revelou a continuidade do eixo Havana-Caracas como epicentro da agenda política castro-chavista, que por sua vez estende um manto protetor à ditadura de Daniel Ortega. O colombiano Gustavo Petro não compareceu ao evento para homenagear seu velho amigo Chávez, mas foi representado por seu embaixador em Maduro, Alberto Benedetti. A ausência de Cristina Kirchner, Dilma Rousseff e Lula da Silva deixou claro que nem tudo está em harmonia entre as diferentes alas da esquerda continental.

A posição crítica do chileno Gabriel Boric com as ditaduras da Venezuela e da Nicarágua, o distanciamento preventivo de Lula e Petro com a ditadura da Nicarágua, os confrontos entre Evo Morales e o presidente Luis Arce na Bolívia e Cristina Kirchner contra Alberto Fernández na Argentina, sustentam fontes de perturbação dentro da esquerda continental aparentemente homogênea.

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Lula da Silva se propõe como intermediário no conflito político venezuelano. Celso Amorim, braço direito de Lula em matéria de diplomacia paralela, após visita a Caracas afirmou que “o Brasil certamente será um ator importante e reconhecido” (…) “Ouvi palavras de agradecimento pela visita de todos com quem conversei .” Ao que tudo indica, Amorim se referia ao processo de negociação que Maduro e alguns setores da oposição mantêm no México sob os auspícios dos EUA e que está paralisado desde novembro passado por decisão do regime chavista.

Para uma primeira aproximação direta com Nicolás Maduro após a posse de 01 JAN 2023, Lula da Silva não enviou a Caracas seu chanceler Mauro Vieira, mas sim seu assessor presidencial, ex-chanceler, fundador do Grupo Puebla e hoje encarregado da presidência pela diplomacia  direta de Celso Amorim. A escolha de Amorim para esta missão revelou o caráter estritamente político da agenda. A viagem do enviado de Lula foi mantida em total sigilo em Brasília e só veio a público quando Amorim já estava, no dia 08 MAR 2023, reunido com Maduro no Palácio de Miraflores, local bem conhecido do brasileiro que no passado atuou como emissário direto entre Lula e Hugo Chávez. O atual cargo oficial de Amorim é “Assessor Especial da Presidência da República“, mas na prática ele está atuando como chanceler em paralelo.

Segundo a versão de Maduro, o objetivo da visita era reativar as relações entre os dois países. Em Brasília, entretanto, porta-vozes do governo deixaram escapar a versão segundo a qual o objetivo principal da conversa era confirmar a posição de Maduro Lula quanto à necessidade de realizar eleições presidenciais “competitivas” em 2024, já que, segundo Amorim, o Brasil “dá grande importância para o processo democrático que está sendo desenhado” na Venezuela. Não está muito claro a que “processo democrático” o brasileiro se refere, mas nos meios diplomáticos e na imprensa de Brasília foi dado como certo que esta mensagem a Maduro corresponde à oferta de Lula ao governo dos Estados Unidos para atuar como moderador no crise venezuelana. De todo modo, Amorim fez saber à jornalista Janaina Figueiredo, da OGlobo, que quando tocou na questão eleitoral do ditador venezuelano o fez com delicadeza, “não de maneira que parecesse que eu estava questionando se [as eleições] iriam acontecer.” Já em Brasília, Amorim disse à imprensa ter visto na Venezuela “um clima muito grande de incentivo à democracia“.

O enviado de Lula também manteve um encontro com vários representantes da oposição, que não foi divulgado pelos participantes em Caracas. Amorim apenas especificou ter se reunido com membros do grupo de partidos denominado G4, especificamente com Henrique Capriles Radonski, do partido Primero Justicia, arquirrival de Juan Guaidó, no atual processo de candidatura da oposição às hipotéticas eleições de 2024. Em 2012 e 2013, o então candidato \ presidente Capriles Radonski teria recebido apoio financeiro de empresas brasileiras que simultaneamente fizeram doações ao PSUV.

Amorim também teria se encontrado com Gerardo Blyde, chefe da delegação da oposição nas negociações paralisadas no México, e com outros representantes do partido, como o líder governista Timóteo Zambrano.

A oposicionista María Corina Machado não estava na lista de visitados pelo enviado de Lula.

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Segundo Amorim, entrevistado por Figueiredo em 10 MAR 2023, Maduro reconheceu que o governo venezuelano deve ao Brasil cerca de um bilhão de dólares e se ofereceu para pagar “quando puder“. Este ponto refutou a versão exposta em 23 JAN 2023 por Lula em Buenos Aires, onde afirmou que Maduro estava em atraso com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social do Brasil, porque o governo de Jair Bolsonaro não queria receber os pagamentos. Segundo dados oficiais, até 30 de setembro de 2022, os pagamentos devidos e não cumpridos pela Venezuela somavam US$ 682 milhões, além de US$ 120 milhões prestes a expirar. Essa dívida corresponde a desembolsos de mais de 1,5 bilhão que o BNDES, nos governos Lula da Silva e Dilma Rousseff, fez especialmente em favor de construtoras brasileiras que mantinham contratos com o regime chavista e que,  simultáneamente, financiavam a Lula e seu partido.

Após a passagem de Amorim por Caracas, a Chancelaria de Maduro enviou a Brasília, no dia 10 MAR 2023, um terceiro-ministro, vice-ministro para a América Latina, a fim de manter reuniões de coordenação com o Itamaraty para traçar uma agenda de trabalho bilateral.

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Apenas dois dias depois que o enviado de Lula passou por Caracas pedindo eleições “competitivas”, o regime chavista confirmou o que não é segredo. Jorge Rodríguez, alto dirigente do regime e negociador em nome de Maduro, fez saber que “não vai assinar nenhum acordo, com esse sector da oposição venezuelana até que esteja cem por cento livre de sanções, até que as 765 medidas coercitivas unilaterais sejam levantadas”.

Os setores da oposição que participam das conversações chamadas de negociações no México têm argumentado que buscam com justiça acordos para eleições gerais “competitivas”. Quando as negociações foram retomadas em 26 NOV 2022, a oposição, pressionada pelo governo dos Estados Unidos, assinou um acordo para buscar a liberação de recursos financeiros do Estado venezuelano congelados por governos e bancos estrangeiros. O governo de Joe Biden, aceitando esse acordo, procedeu naquele mesmo dia a liberalização de algumas sanções contra o regime, incluindo a permissão para a petroleira Chevron reiniciar a exploração e exportação de petróleo bruto da Venezuela e fornecer à estatal PDVSA insumos dos EUA.

Desde então o governo Maduro tem se negado a retomar las conversações com a oposição a qual havía prometido que a partir de uma segunda rodada, que ocorreria em dezembro de 2022, começaaría a negociação “a fundo” sobre los aspectos políticos, quer dizer, condiçõs eleitorais entre outras questões.

O regime chavista voltou a fazer saber que não negociará as condições eleitorais, condicionando possíveis acordos a que os EUA e a União Europeia anulem as sanções que pesam sobre centenas de altos dirigentes do chavismo e sobre empresas estatais.

Diario las Américas / DefesaNet

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