domingo, novembro 27, 2022
Como superministro de seu governo, Lula trava articulações e sinais sobre economia

Lula concentrar todos os poderes, como se fosse um Rei Sol…
Bruno Boghossian
Folha
No mesmo dia, dois petistas que frequentam o círculo de conselheiros de Lula admitiram que a equipe de transição está com problemas. O senador Jaques Wagner disse que a falta de um ministro da Fazenda atrapalha a proposta para alargar o Orçamento de 2023. A presidente da sigla, Gleisi Hoffmann, não gostou do comentário e afirmou que a principal falha é a articulação política.
No fundo, os dois auxiliares do presidente eleito têm razão. A mais de um mês da posse, Lula não tem nenhuma obrigação de revelar seus ministros. A ausência de nomes para comandar as principais áreas do governo, no entanto, passou a travar alguns pontos do trabalho da equipe de transição.
CONCENTRANDO O PODER – Uma das explicações dos petistas é que Lula não centraliza apenas a escolha da futura equipe de governo. Ele também é o único que tem autoridade para negociar e emitir sinais sobre os principais temas de economia e política. Na prática, é um superministro que concentra poder nessas e em outras áreas.
É por isso que Fernando Haddad, cotado para o Ministério da Fazenda, foi a uma conferência de banqueiros na última sexta-feira (25) com o alerta de que falava em nome de Lula.
O próprio presidente eleito já deixou claro que a equipe econômica se encarregará de executar a visão dele para a área.
IMPACTO DIRETO – Esse fator tem impacto direto sobre as negociações da PEC que vai abrir espaço para o pagamento do Bolsa Família. Sem um ministro da Fazenda poderoso, as mensagens sobre o enquadramento da proposta e o tamanho dos gastos para os próximos anos dependem só de Lula.
A articulação no Congresso também aguarda uma participação direta do presidente eleito. Dirigentes dos grandes partidos dizem que Lula não delegou força suficiente a nenhum integrante da equipe de transição para fazer as negociações políticas necessárias para aprovar a PEC, formar uma base aliada, definir o futuro das emendas de relator ou discutir a eleição para a presidência da Câmara.
Interesses divergentes dos maiores aliados impedem a definição do Ministério de Lula

Charge do Duke (O Tempo)
Jeniffer Gularte e Bruno Góes
O Globo
Na reta final da campanha, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse que, caso fosse eleito presidente, começaria a discutir os ministérios pouco tempo depois do resultado das urnas, “às 20h do domingo”. Quase um mês depois de conquistar o terceiro mandato, o petista ainda não anunciou um integrante sequer da equipe que estará ao seu lado.
Pessoas próximas ao futuro mandatário dizem que os ocupantes das principais pastas “estão apenas na cabeça” do petista, que se vê diante de um xadrez para acomodar as expectativas de aliados mais próximos.
MUITOS PRETENDENTES – Figuras como a presidente do partido, Gleisi Hoffmann, e os ex-ministros Fernando Haddad, Aloizio Mercadante, Alexandre Padilha e Jaques Wagner almejam sentar em cadeiras de destaque na Esplanada. A escolha por movimentar uma ou outra peça nesse tabuleiro pode frustrar os planos políticos de
Gleisi, por exemplo, uma das principais responsáveis por atrair partidos para a campanha petista, já deu sinais de que não pretende ocupar cargos de articulação política nem voltar ao Planalto, onde chefiou a Casa Civil no governo de Dilma Rousseff. A parlamentar já indicou para pessoas próximas que deseja um ministério de destaque mais voltado à área social. Com isso, ao executar políticas públicas, ela teria maior visibilidade.
A pretensão de Gleisi, porém, colide com a da senadora Simone Tebet (MDB-MS). É creditado a ela a atração de parte do eleitorado de centro, fiel da balança, na reta final da campanha, para a vitória de Lula.
TEBET É RECHAÇADA – A senadora do MDB, que também disputou a Presidência da República, declarou apoio ao então candidato petista depois de terminar o primeiro turno em terceiro lugar. Agora, ela gostaria de ser recompensada com o comando do Ministério do Desenvolvimento Social, responsável pelo novo Bolsa Família, principal programa social do futuro governo.
Esse plano desagrada integrantes da cúpula petista, que acham que Tebet poderia conquistar maior destaque e capital político para disputar novamente o Planalto, em 2026.
Outro impasse envolve o Ministério da Fazenda. Tanto representantes do setor privado quanto do universo político querem saber o quanto antes quem será o dono da chave dos cofres públicos. Essa definição poderá destravar as demais indicações para o primeiro escalão.
HADDAD É FAVORITO – Até o momento, Haddad é o mais cotado para assumir o posto de chefe da equipe econômica. Na sexta-feira, o ex-ministro da Educação, com mestrado em economia e doutorado em filosofia, foi testado ao representar o presidente eleito numa reunião com banqueiros em São Paulo. Na tentativa de vencer resistências, disse que a reforma tributária será prioridade.
O discurso, porém, frustrou a expectativa do mercado financeiro, resultando na queda do principal índice da bolsa de valores e na alta do dólar.
Se a pressão externa afundar o projeto de Haddad, ele poderá ser realocado para outro posto do primeiro escalão da Esplanada. Esse movimento deverá desencadear uma dança de cadeiras entre aliados do presidente eleito.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Conforme já dissemos aqui na Tribuna, a numerosa Equipe de Transição, que daqui a pouco chega aos 500 integrantes, tem muito a discutir e nada a resolver, porque tudo – mas rigorosamente tudo – depende de Lula, neste partido de um homem só. (C.N.)
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