segunda-feira, novembro 07, 2022

Brasil volta ao normal, só falta os golpistas compreenderem que fazem papel de bobos

Publicado em 7 de novembro de 2022 por Tribuna da Internet

Intervenção federal" não existe | Carlos Mazza | OPOVO+

Em todo o país, intervenção militar virou “intervenção federal”

Eliane Cantanhêde
Estadão

O Lula que chega a Brasília para pôr seu governo de pé nesta semana, é o melhor dos Lulas, e a oposição ao seu terceiro mandato ameaça ser a pior de todos os tempos, raivosa, irracional e inconsequente. Mas, atenção! Só nas estradas e ruas, porque nos Poderes da República prevalecem o pragmatismo e a negociação.

Perto dos 80 anos e depois da prisão, Lula está revigorado pelo novo amor por Janja, mantém sua obsessão pela inclusão social, exercita o controle sobre o PT, usa seu talento para dialogar com aliados e sabe que não tem o direito de errar. Gato escaldado…

OPOSIÇÃO ODIENTA – Já a oposição começou a botar as garras de fora, com caminhoneiros ameaçando o caos e extremistas nas portas dos quartéis, enrolados na nossa bandeira, vociferando contra o Supremo e a favor da ditadura militar.

Se Lula foi cruel com Fernando Henrique, descobre agora o que é realmente uma herança maldita – e sem as mesmas condições e os ventos favoráveis de seus dois primeiros mandatos. Precisa não só de sólida base parlamentar, que ele sabe construir como ninguém, mas também das melhores cabeças no País, ou pelo menos no seu amplo conjunto de forças políticas, para compor o governo.

Pronta para dar o bote, a qualquer pretexto, estará a tropa bolsonarista, que não é de brincadeira. O PT foi implacável com FHC, mas teve em troca uma oposição responsável dos tucanos.

PROVA DE FOGO – Agora vai ver o que é bom para a tosse, com bolsonaristas “indignados”, como define Jair Bolsonaro, usando a internet para mentiras e para mobilizar, dar voz de comando e driblar serviços de inteligência e mídia.

Como antídoto, Lula tem sua imensa capacidade de atrair apoios e maiorias. O País volta à normalidade da política e do diálogo, com o vice Geraldo Alckmin dando entrevista no Planalto e uma saudável balbúrdia para definir instrumentos e cronogramas dos projetos urgentes.

Foi-se o tempo em que o presidente da Câmara, Arthur Lira, voltava do Planalto com tudo pronto e avisava à mídia que tal projeto seria votado (e aprovado…) em horas.

OUTRA REALIDADE – Agora, líderes divergem, Alckmin consulta o TCU, os partidos são chamados a ouvir e falar e Lula dará a palavra final sobre como garantir, por exemplo, os R$ 600 do auxílio… ops! da Bolsa Família.

Bolsonaro adora ditadores, liderou atos golpistas, comprou os militares, armou os civis, dividiu PF, PRF e polícias estaduais, mas na hora H – quando, frise-se, as Forças Armadas comportaram-se como instituição de Estado – ele não teve força nem tinha ideia de como dar golpes.

Era tudo bravata, caricatura de gibi. Só falta os golpistas de ruas e estradas compreenderem que fazem papel de bobos.


Inflação e concentração de renda são os desafios permanentes para os governos do mundo inteiro

Publicado em 7 de novembro de 2022 por Tribuna da Internet

Charge do Nani (nanihumor.com)

Pedro do Coutto

A inflação e sua eterna parceira, a concentração de renda, são os fatores essenciais que separam a população e os governos formando uma barreira difícil de transpor e que é o único caminho para o desenvolvimento econômico e social de um país. O problema é que nas nações democráticas, o voto é a renovação de esperanças de que o impasse que se eterniza entre o capital e o trabalho seja solucionado sob a ótica cristã e democrática.

Não se trata de atentar contra a propriedade. Essa visão comunista já se esgotou e está arquivada no passado. Trata-se apenas de destinar uma parcela do que se produz no mundo (cerca de US$ 90 trilhões por ano) para uma solução que tenha base, digamos, 90% para o capital e 10% para remuneração do trabalho humano.

IMPASSE – Em 20 anos, a extrema pobreza e a fome terão ou teriam desaparecido no universo.  O impasse atravessa os séculos e o desafio permanece. Agora mesmo verifica-se seu ressurgimento nos Estados Unidos e seu reflexo nas eleições americanas de amanhã, terça-feira.

Excelente reportagem de Filipe Barini, O Globo deste domingo, focaliza o arremate da campanha eleitoral para a escolha da nova Câmara dos Deputados, um terço do Senado e de governadores para 36 dos 50 Estados americanos. O Partido Democrata, consequência da inflação que tem marcado o governo Joe Biden, alimentou a campanha republicana, que está sendo comandada por Donald Trump.

As pesquisas dão avanço dos candidatos trumpistas. Incrível isso, já que o episódio de janeiro de 2021, quando foi feita a brutal invasão do Congresso e a tentativa idêntica e absurda de impedir o reconhecimento de Biden nas urnas, o grupo da direita tenha conseguido avançar.

INDECISOS – Uma ameaça bastante forte, tanto assim, que levou o ex-presidente Barack Obama às ruas da Filadélfia para apoiar um candidato do partido ao Senado, provavelmente tentando com a sua presença motivar eleitores indecisos e levando-os a comparecer às urnas num país em que o voto não é obrigatório.

Tenho a impressão de que o nível de comparecimento será fundamental para um desfecho no qual, além de um julgamento parcial do governo Biden, pode representar uma derrota dos ideais dos fundadores da nação. Surpreende o reflexo na participação de Donald Trump, pois não se trata apenas de um julgamento sobre a Casa Branca. Trata-se, mais que tudo, de um combate ideológico entre a direita conservadora e o partido democrata que representa muito mais o esforço para um desenvolvimento social mais concreto.

Surpreende o impasse da concentração de renda porque os mais ricos são os ganhadores da inflação, já que não pode haver crédito sem débito. O encontro efetivo entre capital e trabalho dentro da visão cristã e progressista, dois mil anos depois de Cristo, ainda está para se realizar. Mas é preciso não confundir uma dificuldade milenar e uma diferença de não aceitar o resultado das urnas, essência da liberdade e da democracia.

A falácia da insanidade




Tratar opositores pelo viés da loucura é expressão da bolha de parte da esquerda. 

Por Lygia Maria 

Rodovias fechadas, civis marchando na frente de quartéis e até militante agarrado na frente de um caminhão em movimento. Todos pedindo intervenção militar.

Quem assistiu ao desenrolar de eventos logo após as eleições teve a impressão de que abriram as portas do hospício. Pelo senso de humor, sim, mas não caiamos na patologização psicológica, que tende a objetificar seres humanos: não por acaso, ideologias totalitárias tratam pessoas como coisas.

Se queremos entender e combater manifestações antidemocráticas, e não apenas sinalizar virtude, não faz sentido usar o mesmo método que rechaçamos.

De saída, é preciso aceitar que o bolsonarismo é diverso. A ideia de que se restringe a homens ricos e brancos do Sul/Sudeste é uma falácia. Mulheres, negros e pardos, de classes mais baixas e também do Norte/Nordeste estão nesse movimento. Uma das vias é pela atuação de igrejas evangélicas neopentecostais.

Nesse quesito, não é a porta do hospício que se rompe, e sim a bolha da esquerda intelectual pós-moderna, que trata evangélicos pelo viés da insanidade ou da manipulação.

Esse discurso está desconectado do papel simbólico das igrejas e do bolsonarismo (que criam redes de sociabilidade e de formação de identidades) e também da realidade material de uma camada da população que vive em contexto de violência (o tema da segurança pública não é valorizado à toa). Aspectos quiçá mais prementes do que gênero neutro.

Segundo o Datafolha, em 2020, 31% da população era evangélica (58% eram mulheres e 59%, negros). Bolsonaro recebeu mais de 58 milhões de votos. É preciso uma boa dose de elitismo para atestar que essas pessoas estão apenas num surto coletivo.

Parte da esquerda, portanto, age como doutor Bacamarte, o alienista do conto de Machado de Assis, que vê loucura em todo mundo e interna a cidade inteira. Ao final, o médico percebe que, como apenas ele é perfeito, logo é o desviante. Então, abre as portas do hospício e acaba lá internado, sozinho.

Folha de São Paulo

O bolsonarismo destruiu a direita no Brasil




Uma sociedade só consegue viver de forma razoável quando a política é, de alguma forma, esquecida no dia a dia. 

Por Luiz Felipe Pondé (foto)

A política é o território da violência. Mas ela também é o território da estupidez. Às vezes, chega a ser o da inteligência, quando necessário e quando damos a sorte de ter líderes capazes de exercer a política para além da miséria, violência e estupidez para a qual ela tende de forma avassaladora.

Essas características não estão limitadas aos políticos profissionais. Elas estão dispersas pela população comum de forma democrática: todos temos a vocação à estupidez quando o assunto é política.

Os bolsonaristas têm dificuldade de perceber que não perderam as eleições de modo absoluto. Apesar do seu líder ter perdido para Lula (deu quase empate), o Legislativo e vários estados importantes da federação elegeram candidatos vinculados à direita.

O PT não governará bailando, como das outras vezes. Mas, para mentes estreitas como a de grande parte dos bolsonaristas, o que importa são suas crenças estúpidas em histórias tipo filme de terror B. Pedem golpe como loucos que dizem ser as aranhas uma iguaria deliciosa.

O campo da política se tornou um espaço da psicose coletiva. Sempre o foi, mas, com o "empoderamento" das massas via as redes sociais, a epidemia se alastrou.

Olha só essa história. Lula teria sacrificado 4.000 crianças para ganhar as eleições. Tem gente que crê nisso. Risadas? Não! A coisa é dramática. Entregar um voto na mão de alguém que leva isso a sério é como perguntar ao fofoqueiro do bairro se devemos ou não apedrejar a vizinha porque dizem que ela deu para o síndico.

Analisando a hipótese "cientificamente", podemos perguntar pela logística de tal empreitada. Um sacrifício humano sempre exigiu uma preparação gigantesca, mesmo quando apenas um humano era sacrificado. A violência envolvida num ato como esse sempre esteve sustentada numa metafísica de horror. Mesmo no caso do sacrifício de animais —que considero pessoalmente um absurdo —a logística é grande.

Gritos, sujeira, sangue. Como teria funcionado o esquema de escolha das crianças? Teria o TSE organizado tal logística? Quantos veículos foram usados? Onde foi praticado? Qual lugar suficientemente remoto e distante de celulares teria sido escolhido para tal? O apartamento de Lula em São Paulo? O famoso sítio de Atibaia? Em Cuba? Na Venezuela?

Essas crianças teriam sido doadas pelos pais petistas? Quantos pais psicóticos seriam necessários para uma doação dessa monta? Foram sequestradas? Quanto tempo teria levado para sacrificar as 4.000 crianças? Há algum aplicativo que explique os passos necessários para fazer um sacrifício nesse nível? Nenhum dos repórteres colados em Lula teria percebido? Esqueci! Todos os jornalistas topariam ocultar tal crime porque são simpáticos ao PT.

O bolsonarismo destruiu a direita no Brasil. Infelizmente, muitas pessoas de disposição conservadora, já adoecidas pelo culto a Olavo de Carvalho, permanecem sob a esfera de influência de um incapaz como Bolsonaro. O momento para esses líderes eleitos, fora do espectro do PT, é organizar a política brasileira para que ela supere o trauma mental e moral que o bolsonarismo causou no país.

A esquerda, sempre nojentinha e mentirosa quanto a suas virtudes, pode colher os frutos. Mas, como disse antes, mesmo com a vitória de Lula —pessoa mais humana do que Bolsonaro, com certeza—, as eleições deixaram claro que o país está dividido e todos os líderes terão de cuidar dessa radicalização.

Passado o trauma imediato dessas eleições, a classe política deve ter a suficiente vergonha na cara e responsabilidade mínima para pôr ordem na casa e levar o país de volta aos conflitos institucionalizados que caracterizam a violência política na sua forma benigna.

Que nos sirva de exemplo. A política quando excessivamente ativa tende ao caos e à desorganização. Uma sociedade só consegue viver de forma razoável quando a política é, de alguma forma, esquecida no dia a dia. Quando nos lembramos dela demais, o pesadelo se avizinha. Que nos concentremos em nossos boletos. Nossos amores felizes ou infelizes. Nossos cemitérios e maternidades.

Folha de São Paulo

O que mudou na cabeça do brasileiro?




Por Merval Pereira (foto)

De 2002 até hoje, que mudanças fizeram a cabeça do eleitor brasileiro? O cientista político Alberto Carlos de Almeida vai atrás dessa resposta 20 anos depois de ter feito a primeira pesquisa, que resultou no mais amplo levantamento sobre o que move o eleitor brasileiro. O PT sempre venceu o segundo turno por uma vantagem em torno de 60% a 40% contra o PSDB, exceção feita em 2014, quando Dilma venceu o tucano Aécio por três pontos percentuais. Em 2018, os conservadores cresceram, levando Bolsonaro à presidência da República e agora dividindo o eleitorado, perdendo pela menor margem já registrada em um segundo turno.

Alberto Carlos de Almeida acha que uma mudança que o Brasil sofreu nesse período, que ainda depende da validação da pesquisa, é que o eleitorado passou a se sentir claramente ancorado por suas respectivas representações, na esquerda e na direita, “antes os terrenos eleitorais eram mais fluidos”. O jogo eleitoral brasileiro ficou mais parecido com as eleições de outros países: França, Estados Unidos, países da América do Sul como Argentina, Peru, devido, segundo Alberto Carlos de Almeida, o amadurecimento do eleitorado, o reconhecimento de seus representantes.

A grande novidade do Bolsonaro em relação ao PSDB tem a ver com a primeira pesquisa de 2002, que mostrou que o Brasil tem uma população muito conservadora: “Bolsonaro, talvez inadvertidamente, mobilizou esses valores conservadores que já tinham sido detectados na cabeça do brasileiro”. Uma disputa entre uma mentalidade média arcaica em contraposição à modernidade, que dá prioridade a questões de autonomia individual, para escolher o comportamento sexual, por exemplo.

O voto de Bolsonaro, nas duas eleições que disputou, é o mesmo do PSDB, que, no entanto, mobilizava basicamente o discurso econômico, explorava muito pouco os temas de costumes. As eleições têm ficado mais difíceis, e Bolsonaro representou a vida do brasileiro comum, que quer manter o mundo atual que consideram bem ordenado, sem essas novidades que desfazem tudo que gostamos e conhecemos, analisa Alberto Carlos de Almeida.

Ele acha que o mundo caminha para as pessoas se tornarem mais liberais na economia, e mais conservadoras nos costumes. A pesquisa mede os valores enraizados do brasileiro, que transmitem a dificuldade de mudanças. “Os mais jovens, vinte anos atrás, já eram muito diferentes dos mais velhos, e isso deve aparecer na nova pesquisa, o que se deve à mudança de “corte geracional”. Alberto Carlos de Almeida admite que achava que a vitória de Lula seria mais fácil, mas alega que houve uma injeção muito grande de recursos governamentais, que teve impacto. “Achava que não mudaria o favoritismo de Lula, mas o otimismo com a situação econômica melhorou muito nos últimos dois meses, e ajudou Bolsonaro”.

No fundo, ele diz, temos dois eleitorados no Brasil hoje: um que dá prioridade à mobilidade social dos pobres, melhoria de vida, à proteção dos mais fracos: mulheres que ganham menos que os homens na mesma função, negros, nordestinos, que se sente representado pelo Lula. O outro quer um mundo ordenado, que não tenha substituição dessas regras que já conhecíamos e em que fomos educados. Preservação de valores transcendentais da família. Ordenamento da boa sociedade com as regras estabelecidas.

O PSDB tinha essa parte do eleitorado da extrema direita, mas o discurso nunca foi extremista. Agora deu-se o contrário, o extremismo de Bolsonaro levou de cambulhão um voto de centro-direita que não é radical. Para Alberto Carlos de Almeida, as redes sociais não são definidoras de quem vai ganhar a eleição, “mas potenciam, alimentam a radicalização”. Outra constatação que será checada na nova rodada da pesquisa é que a sociedade é pró-governo, pró Estado na economia, e o governo Bolsonaro foi uma contradição, começou como liberal e terminou intervencionista, “e isso responde de alguma maneira ao que a sociedade brasileira aspira”.

O eleitorado conservador, de direita, já foi do PSDB, pode mudar de Bolsonaro para outros nomes que surgirem, e Alberto Carlos de Almeida acha que vai haver um acordo tácito entre o governo e conservadores que não querem ter Bolsonaro como representante em 2026. No primeiro turno, ele considerava que cerca de 20% dos eleitores poderiam mudar de voto, hoje considera que este segmento é de não mais de 5% do eleitorado, não importa o candidato.

O Globo

Quais são as prioridades máximas da COP27




Anfitrião da conferência sobre mudanças climáticas, Egito visa colocar a África no foco das medidas para mitigar aquecimento global e viabilizar transição para energias renováveis. Países ricos são instados a contribuir.

Por Martin Kübler

Com a guerra russa contra a Ucrânia e os protestos no Irã dominando as manchetes, os líderes mundiais estão perdendo de vista a "luta de vida ou morte" em torno do clima global, advertiu o secretário-geral da ONU, António Guterres, com vista à 27ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP27), que transcorre de 6 a 18 de novembro de 2022 no Egito.

Falando à imprensa em Nova York em outubro, Guterres urgiu as nações industrializadas a cumprirem integralmente seus compromissos coletivos, inclusive o de investir, até 2025, 100 bilhões de dólares anuais em ações climáticas em países em desenvolvimento. Essa meta, estabelecida em 2020, ainda está longe de ser alcançada.

"As ações das mais ricas economias desenvolvidas e emergentes simplesmente não fecham a conta", criticou o diplomata português. "Somados, os atuais compromissos e políticas estão batendo a porta para a nossa chance de limitar o aumento da temperatura global a 2ºC [em relação à era pré-industrial], ainda mais de cumprir a meta de 1.5ºC."

Em seguida às recentes enchentes devastadoras no Paquistão e às ondas de calor e secas recordes por todo o planeta, o tema "perdas e danos" deverá ocupar papel central nas negociações na cidade-balneário Sharm el-Sheikh, no Mar Vermelho.

A ideia de fornecer reparações aos países vulneráveis por perdas, tanto econômicas quanto culturais, relacionadas a catástrofes climáticas foi abordada pela primeira vez na cúpula do clima de 2013, em Varsóvia. Contudo o progresso tem sido lento.

Nações ricas, como os Estados Unidos e na Europa, têm se mostrado relutantes em se comprometer com um fundo – que pode chegar a centenas de bilhões de dólares até 2030 – dedicado a cobrir o custo pesado de suas altas emissões de gases causadores do efeito estufa.

Importância de abordar perdas e danos

A questão das perdas e danos é especialmente premente para os países insulares a baixa altitude, que têm sido os mais vulneráveis à subida do nível do mar e a tormentas cada vez mais destrutivas.

"Não temos mais tempo para desperdiçar: nossas ilhas estão sendo atingidas pelos impactos climáticos mais severos e mais frequentes, e a recuperação se dá à custa de nosso desenvolvimento", expôs Walton Webson, presidente da Aliança dos Pequenos Estados Insulares na Assembleia Geral da ONU em setembro.

Ele frisou que não basta se concentrar em medidas de adaptação: "Onde vamos encontrar o dinheiro para reconstruir? Por que as nossas ilhas, que menos contribuem para as emissões que causam esta crise, pagam o preço mais alto?"

Segundo Wael Aboulmagd, o representante especial do Egito para a cúpula climática, a COP27 priorizará esse tema e "encontrará financiamento para os países passando necessidades extremas confrontarem as perdas e danos imediatos que consomem uma parte importante de seu produto interno bruto anual".

Opção por renováveis em meio a crise energética

Esta conferência do clima será a primeira desde que a Rússia começou a reduzir seu suprimento de gás natural e outros combustíveis fósseis, em seguida a sua invasão da Ucrânia. A retaliação de Moscou contra as pesadas sanções globais desencadeou uma crise energética sobretudo na Europa, acentuando a necessidade de migrar para a energia renovável.

Em sua agenda, a presidência egípcia da COP27 deu grande ênfase à "promessa de inovação e tecnologias limpas", dedicando vários dias ao hidrogênio verde e à descarbonização da energia.

Na conferência de 2021, em Glasgow, Escócia, um dos principais focos foi dar fim ao emprego de combustíveis fósseis, em especial para a geração de eletricidade. Um dos resultados foi mais de 30 países se comprometerem a encerrar o apoio público direto, estimado em 24 bilhões de dólares anuais, "para o inabalado setor internacional de combustível fóssil", até o fim de 2022.

No entanto a escassez provocada pela guerra na Ucrânia minou os esforços para elevar a parcela de fontes renováveis na matriz energética, com alguns países – inclusive a Alemanha – recorrendo ao carvão mineral e ao petróleo para compensarem a carência. Um dos principais pontos de debate em Sharm el-Sheikh deverá ser a forma como essa nova insegurança vai alterar a meta de acelerar a transição para a energia renovável.

'Kiribati, em meio ao Oceano Pacífico, é um dos países mais afetados pela mudança climática'

Como pagar a conta da transição

Para muitos cientistas, ativistas do clima e a ONU, a energia renovável é o único caminho adiante. Contudo, ministros africanos do Meio Ambiente e das Finanças têm se pronunciado contra um abandono rápido dos combustíveis fósseis, alegando riscos para seu crescimento econômico. A chefe das Finanças da Nigéria, Zainab Ahmed, afirma que certos países não têm alternativa.

"Se não obtivernos financiamento para desenvolver [fontes de] gás a preços razoáveis, estamos negando aos cidadãos de nossos países as oportunidades de obterem desenvolvimento básico", comentou numa conferência ministerial africana no Cairo, em setembro. Diversos países da África também dependem da exportação de petróleo e gás para financiar medidas de adaptação, tais como a expansão dos projetos de fontes renováveis e de eficiência energética.

Com o Egito decidido a defender os interesses africanos na COP27, também será um tema central a "transição energética justa e financiável" para o continente. Segundo estimativa do Banco Africano de Desenvolvimento, a África tem um déficit de 108 bilhões de dólares anuais para o financiamento de medidas climáticas. Ela recebe menos de 5,5% da verba global para o setor, em parte devido a uma percepção de risco e a mercados verdes pouco desenvolvidos.

"A verdade da história é que os recursos que necessitamos precisam de crédito, os riscos precisam ser mitigados", comentou à DW em setembro Amina J. Mohammed, vice-secretária-geral da ONU e ex-ministra do Desenvolvimento da Nigéria. "Eles precisam de soluções na mesa, permitindo que esses recursos fluam. Isso não está acontecendo, e precisa acontecer ontem."

Investimentos versus corte de dívidas

Outro tema forte nas discussões da conferência do clima será o perdão de dívidas, sobretudo no contexto da crise provocada pela pandemia de covid-19. Segundo uma análise recente do Instituto Internacional do Meio Ambiente e Desenvolvimento (IIED, na sigla em inglês), o corte imediato da dívidas de 58 países em desenvolvimento – mais de três quartos dos quais na África Subsaariana – liberaria para iniciativas climáticas cerca de 105 bilhões de dólares em verbas públicas.

"Com milhões de habitantes dos países mais endividados já sofrendo inundações, incêndios florestais e calor abrasador, um esquema abordando dívida soberana, ao lado da crise climática e a perda da biodiversidade, traria três vezes mais benefícios", avalia Sejal Patel, economista ambiental do IIED. "Programas para o clima e a natureza bem projetados fortaleceriam a resiliência econômica desses países, e assim sua capacidade futura de arcar com dívidas."

"Esta é uma COP de implementação, está acontecendo na África", resume a vice-secretária-geral da ONU Amina Mohammed. "Se não conseguirmos demonstrar comprometimento com a África desta vez, então as promessas realmente foram quebradas."

Deutsche Welle

A institucionalização da corrupção




Diretor da Transparência Internacional no Brasil, Bruno Brandão diz que Orçamento Secreto foi uma maneira de a elite política assaltar diretamente os cofres públicos e teme que esse recurso esteja disponível no governo Lula. 

Entrevista a Duda Teixeira

O economista Bruno Brandão dirige a Transparência Internacional no Brasil. Nessa ONG de combate à corrupção, com sede em Berlim e presença em 130 países, ele acompanha de perto, há mais de dez anos, os avanços e retrocessos nas leis e na atuação das instituições nacionais.

Sua maior preocupação atualmente é com a institucionalização da corrupção no Brasil. Ele argumenta que, após a proibição do financiamento privado de campanhas e a atuação da Lava Jato, que tornou mais arriscada a prática do caixa 2, os políticos reagiram criando o Orçamento Secreto. Segundo ele, trata-se de uma maneira de assaltar diretamente os fundos públicos, sem que o dinheiro precise passar pelas contas de empresas privadas.

O temor é que esse mesmo esquema que garantiu governabilidade a Jair Bolsonaro seja usado por Lula em seu próximo mandato. “O petista chegará para governar um país dividido, com um Congresso em que ele dificilmente terá maioria. Ele precisará se esforçar bastante para conseguir governabilidade, e esses recursos, os mais sujos da barganha política, estarão disponíveis para Lula“, diz Brandão. Segue a entrevista.

O que podemos esperar da corrupção no próximo governo Lula?

A eleição do PT traz incertezas sobre a pauta anticorrupção. O histórico do partido é paradoxal nessa matéria. Quando esteve na Presidência, o partido esteve envolvido em esquemas imensos de corrupção. Esses feitos são inegáveis e tiveram graves consequências políticas, sociais, econômicas e ambientais. Por outro lado, as administrações de Lula e Dilma Rousseff foram responsáveis pelos maiores avanços na capacidade de enfrentar a corrupção. Ocorreram iniciativas como a Lei Anticorrupção, a Lei de Acesso à Informação e a Lei de Combate ao Crime Organizado. Tivemos o fortalecimento da capacidade técnica de instituições como a Polícia Federal. Órgãos de controle, em especial o Ministério Público Federal e a Procuradoria-Geral da República, tiveram independência de ação. Também foi um governo que garantiu a defesa e a ampliação do espaço cívico, que é fundamental para o controle social da corrupção. Então temos uma interrogação agora de qual PT irá governar: aquele que avançou a capacidade de enfrentar o combate a desvios, promoveu a transparência e a integridade das instituições ou aquele que participou de enormes esquemas de corrupção.

O PT realizou alguma autocrítica sobre esses erros do passado?

Assim como todos os outros partidos, o PT não passou por um processo de depuração, de reconhecimento e de correções.

O partido evitou fazer isso porque estava na oposição e queria voltar ao poder?

Esse mesmo argumento eleitoral já foi trazido em 2018. Nesse ano, falava-se que não era o momento certo de fazer autocrítica porque havia uma campanha em curso, e Bolsonaro poderia vencer. Nada ocorreu depois do pleito. Mas essa não é uma questão só do PT. Nada aconteceu em partido algum. Depois de tudo o que se revelou de financiamento ilícito de campanhas e subornos a políticos, quantos processos foram instaurados pelos comitês de ética dos partidos? Eu só tenho registro de um, do PT, contra Antonio Palocci, justamente o filiado que abriu a boca para fazer denúncias (um processo de expulsão foi iniciado, e Palocci pediu a desfiliação). Então, esse não é um problema exclusivo do PT, mas de todo o sistema político brasileiro. Em vez de reconhecer o problema sistêmico, operou-se para negá-lo e para criar meios para evitar que uma iniciativa como a Lava Jato voltasse a acontecer. O sistema político brasileiro não se moveu um centímetro. Pelo contrário, criou blindagens ainda mais poderosas para não ser ameaçado e institucionalizou a corrupção, acabando também com os intermediários.

Como assim?

No Brasil, o que sempre aconteceu foi que o dinheiro público era canalizado para campanhas políticas. Isso fortalecia uma elite política brasileira que, com esses recursos, distorcia a competição eleitoral. Grandes empresas financiavam as campanhas, de maneira lícita, com doações, ou ilícita, com caixa 2. Mas o dinheiro, no fundo, nunca vinha de fundos privados. As verbas sempre saíam de fundos públicos, porque os empresários recebiam benefícios em créditos subsidiados do BNDES, empréstimo da Caixa ou do Banco do Brasil, anistias fiscais, vantagens regulatórias. As companhias eram apenas um intermediário para que o dinheiro público chegasse às campanhas e aos bolsos da classe política. Esse foi o modelo histórico. Recentemente, tivemos duas mudanças importantes. A primeira foi uma decisão do Supremo Tribunal Federal que acabou com a doação lícita, de empresas. A segunda foi a Lava Jato, que aumentou o risco do caixa 2, o financiamento ilícito. Então, os dois canais de financiamento foram bloqueados. O que a elite política fez para manter seus privilégios e seguir no poder foi garantir que o dinheiro fosse direto aos seus caixas, sem passar pelos intermediários, que eram as empresas. Isso desembocou no aumento explosivo do financiamento dos partidos e do fundão eleitoral.

O financiamento público necessariamente é algo ruim?

Não seria, se esses recursos fossem distribuídos de maneira transparente, democrática e legal. O que ocorreu foi justamente o contrário, a explosão da oferta de recursos públicos com a redução dos mecanismos de controle, que já eram pífios. Além do mais, não satisfeitos com os fundos partidário e eleitoral bilionários, eles assaltaram o orçamento público federal. É o Orçamento Secreto, o maior sistema de institucionalização da corrupção na história brasileira.

Como o Brasil chegou ao Orçamento Secreto?

Desde a redemocratização, os poderes Executivo e o Legislativo encontraram maneiras de negociação muito pouco republicanas e, muitas vezes, criminosas. Em alguns momentos, isso se deu para garantir o avanço de um programa de governo e uma visão de país. No primeiro governo Lula, isso foi feito com a compra de apoio parlamentar por meio de recursos desviados de estatais. Com a revelação do esquema, os termos das barganhas se alteraram. Quando o governo Lula quase caiu na revelação do mensalão, começou a se operar o petrolão. Em vez de buscar avançar um programa de governo ou uma visão de país, o objetivo passou a ser garantir a própria sobrevivência do governo, brindando impunidade. Isso foi progredindo com sucessivos governos, cada vez mais fracos.

O que aconteceu no governo de Dilma Rousseff e depois?

Para sobreviver às investigações da Lava Jato, ela também teve de ceder poder ao Congresso. Isso não foi feito com um grande esquema de corrupção, como o mensalão, mas com as emendas parlamentares ao Orçamento. Ela deu mais poder aos deputados para determinarem o destino das verbas públicas. Com Michel Temer, logo denunciado por corrupção, o Executivo cedeu ainda mais ao Legislativo, possibilitando que as emendas fossem impositivas. Bolsonaro também assumiu em 2019 com montanhas de acusações de corrupção envolvendo sua família ao longo de décadas, nos esquemas de rachadinha e lavagem de dinheiro. Ele precisou entregar ainda mais poder ao Congresso. A principal função do Orçamento Secreto foi a de garantir que os mais de 140 pedidos de impeachment continuassem dormindo na gaveta do Arthur Lira.

Por que o Orçamento Secreto é tão nocivo?

Porque esse esquema perverteu a lógica da alocação de recursos para políticas públicas. Antes, a verba para um programa do Ministério da Saúde para o tratamento do câncer em todo o país, por exemplo, era determinada por técnicos com seus próprios critérios. No Orçamento Secreto, o recurso sai da área da saúde, mas é direcionado para atender aos objetivos paroquiais e eleitoreiros dos parlamentares. O dinheiro, então, pode ser gasto na compra de ambulâncias ou na construção de postos de saúde em localidades onde não há necessidade. Além disso, ocorre uma pulverização da corrupção. Os recursos no Orçamento Secreto são enviados para municípios pobres e pequenos, onde não há qualquer capacidade institucional de controlar esses gastos milionários. É por isso que tivemos casos como o de uma cidade com mais procedimentos de extração de dentes do que habitantes. Outra, no interior do Maranhão, comprou mais exames de HIV do que São Paulo. Por fim, o Orçamento Secreto distorceu a competição eleitoral, porque alguns políticos do Centrão tiveram acesso a recursos milionários, que lhes deram vantagens na disputa com outros candidatos.

Lula vai usar esse mesmo recurso para evitar um impeachment?

O próximo governo não se iniciará com o mesmo grau de fraqueza de Bolsonaro. As acusações de corrupção contra Lula foram anuladas. Ele não terá, portanto, uma espada sobre sua cabeça. Mas o petista chegará para governar um país dividido, com um Congresso em que ele dificilmente terá maioria. Ele precisará se esforçar bastante para conseguir governabilidade e esses recursos, os mais sujos da barganha política, estarão disponíveis para Lula.

Como se poderia acabar com o Orçamento Secreto?

O único ator que pode dar um fim a isso é o Judiciário. Ao Supremo Tribunal Federal, STF, cabe declarar a obscena inconstitucionalidade do Orçamento Secreto. A corte ainda não votou isso no plenário porque estava sob uma ameaça real de um governo autoritário que atacou a credibilidade da instituição. Provavelmente, o STF fez um cálculo para só colocar esse assunto em pauta depois das eleições. A partir de agora, o tribunal poderá ter mais liberdade para tomar uma decisão que desagrada toda a classe política brasileira. Esse é o raciocínio que eu faço. Minha esperança de que o governo Lula não seja dragado para essa mesma situação é que ocorra uma intervenção do Judiciário.

Os políticos não poderiam criar outro mecanismo para se favorecer?

Criatividade para esse tipo de coisa infelizmente não falta na nossa classe política. Então acho que poderá haver algum grau de arrumação. Parece que o senador Rodrigo Pacheco, no melhor estilo mineiro, está tentando contemporizar e botar o Orçamento Secreto em termos menos criminosos.

Esta semana, surgiram notícias de que o Centrão e aliados aceitam negociar mudanças nas ‘emendas de relator’. Como o sr. enxerga isso?

Enxergo com grande preocupação. Já começaram a surgir as mais criativas propostas de “retrofit” do Orçamento Secreto, todas seguindo a máxima do gatopardismo: “reformar para que tudo se mantenha como está”. Com o novo Congresso dominado pelo Centrão anabolizado, o governo do PT jamais terá condições, mesmo que realmente o quisesse, de reverter inteiramente esse padrão imoral de barganha instalado, que é tão benéfico aos interesses dos parlamentares quanto é prejudicial ao interesse público. O que deveria acontecer é uma decisão plenária do Supremo que cumprisse com sua responsabilidade de abolir essa prática obscenamente inconstitucional.

Só nos resta então torcer para o STF declarar o Orçamento Secreto inconstitucional?

Todo país que teve avanço no combate à corrupção, com a aprovação de leis melhores e o fortalecimento de instituições, só conseguiu manter isso ao longo do tempo com a ajuda de uma cidadania consciente e ativa. É isso o que garante a resistência do combate à corrupção e impede os retrocessos. Quando a luta anticorrupção tem quem a defenda, os avanços são duradouros, e não um mero voo de galinha, como o que presenciamos recentemente no Brasil.

Revista Crusoé

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