sábado, setembro 17, 2022

Não vá o sapateiro além do sapato!

 


Ne sutor ultra crepidam judicaret”

“Não deve o sapateiro julgar além da sandália.”



Apeles

Conta a História que Apeles, célebre pintor grego da antiguidade, tinha o hábito de expor os seus quadros ao público e se esconder para escutar os comentários sobre o seu trabalho. Um dia, expôs um quadro com a figura de uma mulher. Passado um tempo, a costureira da aldeia vendo o quadro parou, olhou e comentou:

– Que maravilha de retrato, que mãos maravilhosas, que coisa mais perfeita. Só um pequeno retoque a fazer na roupa, o botão de cima está muito perto do queixo, com dois botões seria muito melhor.

(…)

Apeles, escondido, logo anotou o que a costureira tinha comentado.

Em seguida, veio o cabeleireiro. Vendo o quadro, teceu elogios ao conjunto da obra, mas observou:

– O alfinete do lado esquerdo do penteado deveria estar um pouco mais para trás, isso deixaria o retrato perfeito.

Apeles, sempre atento, ia tomando nota de tudo o que escutava.

Por último, chegou o sapateiro, que ficou boquiaberto com a beleza da pintura, e comentou:

– Eu colocaria fivela nos sapatos e, então, poder-se-ia dizer que o quadro está perfeito.

Tudo anotado, Apeles saiu do seu esconderijo, embrulhou o quadro e foi para a sua casa retocar a pintura, tendo o cuidado de seguir os conselhos dos três profissionais observadores. No outro dia, voltou a expor o quadro.

A modista e o cabeleireiro, vendo juntos a pintura retocada, exclamaram:

– Nada mais temos a dizer. Impecável!

O sapateiro chegou, olhou atentamente o quadro e comentou:

– Os sapatos ficaram ótimos com a mudança, mas o vestido…

Ouvindo isso, Apeles saiu enfurecido do seu esconderijo e, interrompendo o sapateiro, gritou:

– Não passes além dos sapatos!

Esta frase, atribuída a Apeles, se transformou na máxima latina “Ne sutor ultra crepidam judicaret” (Não deve o sapateiro julgar além da sandália), que nos alerta sobre a necessidade de termos consciência dos nossos próprios limites. Resumindo: Ninguém deve se enxerir sobre algo que não entende ou lhe diz respeito.

Mesmo aprovando a dura que Apeles deu no sapateiro, é bom termos cuidado ao manipular esse pensamento criado a partir da frase do pintor grego, pois corremos o risco de inibir a voz dos não iniciados, o que é pior do que conviver com ela. Afinal, não somos obrigados a ler o que eles escrevem.

Professor Ricardo Vieira no Blog Primeiras Águas

Nota da redação deste Blog - Lendo esse artigo lembrei-me do Tistinha antes de ser superministro, antes do cargo subir para a cabeça, quando era um cidadão pacato, trabalhador, de pouca conversa, onde praticamente quando chegava na sala de trabalho, sentava, conversava pouco e trabalhava muito.

Hoje talvez empolgado pelo cargo, perdeu a humildade e está se expondo ao querer dá uma testa de ferro e  " garoto propaganda" do gestor, expondo-se a consequencias graves, talvez aceditando na impunidade, só que  " A desgraça do protegido é o protetor! ".

Água e conselhosó se dá a quem pede, porém sugiro ao " Tistinha", que coloque os pés no chão, volte a ser humilde, ande   devagar com o andor, o santo é de barro, o cargo é passageiro, já a reputaçao e dignidade do cidadão deverá ser eterna.

Modalmais/AP Exata: Recuperação de Bolsonaro é lenta e rejeição não cede




O presidente Jair Bolsonaro (PL) segue em recuperação da imagem nas redes sociais, mas a rejeição ao governo não diminui a pouco mais de duas semanas do primeiro turno. É o que mostra a pesquisa Modalmais/AP Exata divulgada nesta sexta-feira, 16.

A reprovação do chefe do Executivo caiu 0,1%, chegando a 47%. O resultado é inferior ao da semana passada, quando a avaliação negativa caiu 1,2%, puxada pelo bom desempenho do presidente nas redes após o 7 de Setembro. O porcentual de pessoas que consideram o governo ótimo ou bom cresceu 0,4%, chegando a 33,9%. Já a avaliação regular recuou 0,3%, para 19,1%.

Segundo a pesquisa, Bolsonaro "segue convencendo antigos eleitores, que estavam desconfiados da sua gestão, mas agora enxergam a administração como sendo boa ou ótima". A rejeição ao governo, no entanto, não cai na mesma proporção da recuperação da popularidade. Ou seja, o presidente ainda está na tarefa de reconquistar quem já votou nele e encontra dificuldades em avançar para além da bolha, diz trecho do levantamento.

Ataque contra Vera Magalhães

O ataque do deputado estadual bolsonarista Douglas Garcia (Republicanos) à jornalista Vera Magalhães durante debate com candidatos a governador de São Paulo, na segunda-feira, 12, foi um dos assuntos mais comentados nas redes durante a semana.

De acordo com a Modalmais/AP Exata, a jornalista recebeu solidariedade dos internautas, que criticaram a atitude do parlamentar. "Opositores estenderam críticas a Tarcísio, por convidar o deputado, e a Bolsonaro, argumentando que o comportamento hostil do presidente com jornalistas 'autoriza' e motiva os seus correligionários a agir da mesma forma", diz a pesquisa.

Parte dos bolsonaristas, no entanto, discordaram com as críticas de parte do entorno do presidente a Garcia, a exemplo do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Para eles, o parlamentar foi "descartado" por fazer algo "legítimo".

O candidato à reeleição Rodrigo Garcia (PSDB-SP) foi quem mais se beneficiou do episódio. "Nas redes, Rodrigo Garcia se beneficiou, vindo num crescente desde o episódio e chegando a ser o candidato mais aprovado no Twitter, nesta sexta, com 53% de menções positivas, seguido de Haddad (50%) e Tarcísio (48%). Algo que não ocorria há quase duas semanas."

Farmácia Popular

Os cortes do governo no orçamento do programa Farmácia Popular, revelados pelo Estadão, estão sendo usados pela oposição para desgastar Bolsonaro.

"Eles destacam que os cortes na saúde para 2023, incluindo também a saúde indígena e o programa Médicos Pelo Brasil, estão sendo provocados pela composição do orçamento secreto", diz a pesquisa, que aponta ainda que a narrativa da oposição tem se tornado consistente nas redes.

"As promessas do PR de reeditar o orçamento, após a eleição, têm sido ironizadas pela esquerda. Eles dizem que o presidente está tentando chantagear os pobres, que dependem de medicações gratuitas para doenças crônicas, a votar nele", afirma outro trecho da pesquisa.

Estadão / Dinheiro Rural

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Ciro propõe reforma previdenciária como forma de reduzir a pobreza

“Eu tenho proposta de um novo modelo previdenciário com três pernas. Primeira perna, um programa de renda mínima como um direito previdenciário. A segunda perna é o regime de repartição para todos os trabalhadores da iniciativa privada, que começando a relação formal de trabalho, passarão a ter um teto único. E a terceira perna é a adesão voluntária, se quiser completar a aposentadoria fora do teto, entra com uma cota de capitalização. Com isso, acaba a pobreza”, disse Ciro aos jornalistas que o aguardavam.

Perguntado se, faltando apenas 15 dias para as eleições, ele tinha confiança de que estaria no segundo turno, o candidato demonstrou disposição e confiança em sua campanha.

Agência Brasil / Dinheiro Rural

Orçamento inviável - Editorial




Farra eleitoreira de Bolsonaro sacrifica programas, como eleitor já pode notar

É sinal de maturidade institucional impedir que os recursos do Estado sejam postos a serviço de projetos políticos de ocasião. Infelizmente, mesmo com grandes avanços nas últimas décadas, o Brasil ainda está distante dessa realidade.

O espaço para uso de dinheiro público para fins eleitoreiros permanece —e ganhou ímpeto extra no governo Jair Bolsonaro (PL). Evidências sobram no Orçamento deste ano e na proposta enviada ao Congresso para 2023.

Quanto aos gastos imediatos, o Executivo acabou de liberar por meio de medidas provisórias R$ 5,6 bilhões em emendas parlamentares, dos quais R$ 3,5 bilhões relacionados a emendas de relator comandadas por lideranças do centrão.

O objetivo é turbinar gastos em redutos eleitorais às vésperas da votação. Foi revertida, assim, parte do contingenciamento anunciado em julho, que chegava a R$ 6,3 bilhões. A movimentação se deu fora das revisões bimestrais regulares da programação orçamentária.

Pior, a manobra só foi possível porque outros R$ 5,6 bilhões em despesas foram jogados para o próximo ano, inclusive com adiamento de aportes para ciência e cultura.

O quadro fica ainda pior em 2023. Como resultado das previsões irrealistas que balizam a peça orçamentária e da inclusão de R$ 19 bilhões para as famigeradas emendas de relator, o governo precisou sacrificar outros programas.

Em algumas ações da área de saúde, como a Farmácia Popular e o Mais Médicos (rebatizado de Médicos para o Brasil), a redução de verbas passa de 50%. Isso para nem mencionar a insuficiência de recursos para manter o Auxílio Brasil de R$ 600 mensais.

Chega-se ao paradoxo de que o cumprimento do gasto mínimo em saúde determinado pela Constituição dependerá das emendas de relator, que precisarão ser parcialmente direcionadas para tal fim.

O descalabro ocorre porque a prioridade do governo é atender sua base política, não a boa prática de gestão, depois de sucessivos atropelos casuísticos das regras fiscais.

Diante dos protestos, agora Bolsonaro tenta recuar e dizer que não haverá perdas. Será inevitável uma ampla revisão do Orçamento de 2023, com o complicador que será muito difícil fazê-lo de forma criteriosa ainda neste ano.

Eis um trabalho que exigirá coordenação do vencedor das eleições com o Congresso num prazo muito curto, um testemunho do custo da desorganização crescente.

Folha de São Paulo

'Pegapacapá' no Amapá




Senador Davi Alcolumbre

POR GILBERTO MENEZES CÔRTES

As denúncias de corrupção contra o ex-presidente do Senado Davi Alcolumbre (União, o partido resultante da fusão entre o PSL e o DEM, pelo qual foi eleito em 2014 e tomou posse em 2015) podem custar a sua reeleição. Ele já vinha sendo fustigado pela candidatura da primeira-dama DE Macapá, Rayssa Furlan (MBD), esposa do prefeito da capital, o médico Antônio Furlan, que se elegeu pelo Cidadania.

Os humores dos 520 mil eleitores do Amapá, que já não vinham sendo favoráveis a Alcolumbre, desde que eclodiram denúncias contra seu irmão, ficaram ainda mais hostis depois que a campanha da candidata Rayssa Furlan empolgou seus apoiadores ao divulgar por todo o estado do Amapá vídeos expondo as tretas de Davi Alcolumbre.

Plano B em marcha

O baque repercutiu no gabinete do outrora poderoso senador em Brasília. Um amigo da coluna deu uma passada pelo gabinete na tarde dessa quarta (14). Diante das notícias que atingem Davi Alcolumbre e das recentes pesquisas no estado, o clima era de tristeza. Alguns funcionários já pensam no Plano B para se garantirem, caso o chefe perca a reeleição no Amapá.

Embate presidencial no MS

Na terra de duas presidenciáveis e onde serviu Jair Bolsonaro, do debate entre os candidatos a governador promovido no dia 19, às 20 horas, pelo Grupo Midiamax de Comunicação, dono do site com maior índice de “pageviews” no Mato Grosso do Sul, promete sair faíscas, e a campanha presidencial não deve ficar de fora.

A campanha está virtualmente empatada entre três postulantes: o ex-governador André Puccinelli (MDB) lidera, seguido pelo prefeito licenciado da capital (Campo Grande), Nelsinho Trad (PDS), que tem na sua cola o candidato do PSDB, Eduardo Riedel.

É que metade dos candidatos à Presidência da República tem laços com o Mato Grosso do Sul.

Jair Bolsonaro (PL-22) serviu no batalhão de Nioaque (MS), morando por cinco anos na cidade.

Simone Tebet (MDB) nasceu em Três Lagoas (MS) e Soraya Tronicke (União) é de Dourados (MS).

Ex-ministros duelam pelo Senado

Para tornar o debate mais apimentado, a disputa para o Senado Federal está quente entre dois ex-ministros de Jair Bolsonaro, que nasceram no estado onde fizeram carreira política.

A ex-ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento Tereza Cristina (PP) era deputada federal antes de ser convidada para o Ministério. Já o médico Luiz Henrique Mandetta era deputado federal do DEM, até ser convidado para a pasta da Saúde. Mandetta enfrentou a pandemia da Covid-19 tentando mobilizar a sociedade e o sistema do SUS, enquanto não havia vacinas ou remédios eficazes contra o vírus.

'Mea culpa'

Sua pregação pelo isolamento social não agradou ao presidente Bolsonaro e filhos, que vislumbraram obstáculos aos negócios (a loja de chocolates do filho 01, o senador Flávio Bolsonaro -PL-RJ), e à reeleição, com o aprofundamento da crise econômica e o desemprego. [esta semana, em “mea culpa”, Bolsonaro quase reabilitou Mandetta ao admitir ter errado ao desdenhar da pandemia e ao não se solidarizar com as vítimas da Covid-19].

Cadê a autocrítica?

Tereza ainda não se penitenciou por ter se descuidado da formação de estoques reguladores de alimentos (ainda que em mãos privadas, com apoio dos empréstimos do governo federal - EGFs). Como resultado, a Alimentação disparou em 2020. Com tanto estímulo à exportação, o país “celeiro do mundo” teve de importar soja em grão para fazer óleo de soja, que tinha subido mais de 100% e sumido das prateleiras dos supermercados.

Este ano o quadro se repete. Os alimentos sobem muito acima da inflação. A escalada só não está maior porque o apetite comprador da China ficou menor, já que o próprio país está em sucessivos “lockwdowns” para enfrentar a Covid.

Jornal do Brasil

Maioria do eleitorado decidiu cedo




Neste mês, variações de voto e rejeição foram ínfimas, debate do voto útil vai esquentar

Por Vinicius Torres Freire

Desde o final de agosto, a variação do voto para presidente é mínima ou ninharia mesmo, segundo os números das pesquisas Datafolha. Na prática ou na fria estatística, não há mudança na rejeição a Jair Bolsonaro (PL) e a Lula da Silva (PT), nem em suas votações. A avaliação do governo está na mesma. O petista pode levar no primeiro turno, mas é improvável —depende de pescar 2,5 milhões de votos em outras candidaturas.

A conversa sobre o voto útil vai ficar mais intensa e tensa. Abstenções podem fazer diferença na decisão em primeiro turno. Fazendo piada, mas não muito, até a previsão do tempo no domingo de votação pode ser relevante, caso o cenário permaneça inalterado até a véspera do voto. Uma onda de chuva ou de "fake news" e baixarias podem render décimos de porcentagem de votos.

Cerca de 90% dos eleitores decidiram em quem votar faz mais de um mês, pelo que dizem agora ao Datafolha (entre os ora "totalmente decididos"). Apenas 6% desse eleitorado diz ter decidido o voto para presidente neste mês. A parcela de eleitores "totalmente decididos" quanto a seu voto muda um tico a cada semana, para cima, ora em 78%.

A decisão precoce, ou assim declaram os eleitores, parecia notável desde junho, como se observava nestas colunas ("Eleitor está mais decidido e mudou muito desde Lula 1"): "Mas houve outras eleições em que havia tantos ou mais votos nulos, brancos e indecisos no meio do ano. Na campanha de 2022, o nível de abstinência eleitoral e indecisão é do mais baixo na redemocratização".

Não se trata, claro, de um prognóstico de que haverá pouca mudança até 2 de outubro, dia do primeiro turno. Quer dizer apenas que: 1) Com as informações disponíveis e com as emoções do momento, o eleitor tem se declarado pouco disposto a mudar de ideia; 2) Restam pouquíssimos eleitores declaradamente indecisos ou poucos propensos a trocar de candidato).

Dos cerca de 21% ainda propensos a mudar de ideia, 20% teriam Lula como alternativa; 15%, Bolsonaro. Nos maiores laguinhos de voto ainda à disposição, os dos eleitores de Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB), Bolsonaro tem rejeição majoritária e muito maior que a de Lula.

Por falar em rejeição, as aversões no primeiro turno também continuaram estáveis (53% contra Bolsonaro, 38% contra Lula), outro mau sinal para a campanha bolsonarista. Desde o início do mês, os ataques a Lula renderam quase nada em termos de aumento de repulsa ao petista.

No primeiro turno, Lula tem ora 48% dos votos, ante 35% de Bolsonaro. Em um possível segundo turno entre os dois, o petista leva por cerca de 59% a 41% dos votos válidos. A fim de empatar o jogo, Bolsonaro teria de tirar uns 10 milhões de votos de Lula.

Desde meados de agosto, a avaliação de Bolsonaro está na mesma. Cerca de 44% dos eleitores dão a nota "ruim/péssimo" para o governo (de 18 de agosto até 15 de setembro, variou entre 42% e 44%). Para cerca de 31%, o governo é "ótimo/bom" (desde meados de agosto, variou entre 30% e 31%).

O Auxílio Brasil mais gordo praticamente não rendeu votos extras para Bolsonaro. Talvez tenha evitado a perda de eleitores. O grosso das melhorias na economia da vida cotidiana já ocorreu (emprego, queda mínima na inflação com nível de preços ainda muito alto, salário médio ainda em queda real, embora despiorando).

Na campanha, mal se falou de planos. Vota-se, pelo jeito, no histórico ou na ficha corrida dos candidatos principais, mais do que nunca se vota em "imagem" de nomes muito conhecidos para a maioria. Voto útil e pancadaria feia devem ser os assuntos finais desta campanha.

Folha de São Paulo

Pesquisas eleitorais deveriam levar em conta a abstenção - Editorial




Comparecimento menor entre mais pobres e menos escolarizados não deveria ser desprezado nos cálculos

Apesar de o voto no Brasil ser um dever cívico obrigatório, os índices de abstenção têm sido crescentes nas últimas eleições gerais (em média 19% no primeiro turno e 21% no segundo). Um em cada cinco eleitores registrados não tem votado. Várias são as causas: viagens, desinteresse ou desilusão com a política, problemas familiares ou burocráticos e, acima de tudo, as sanções ridículas para quem deixa de comparecer. A justificativa para a ausência pode ser feita por aplicativo e, se esquecer ou não fizer, o eleitor tem no máximo de pagar uma multa irrisória — R$ 3,51 por turno — e ficará impedido de emitir passaporte ou prestar concurso público. Nada de dramático.

Na prática, é como se o voto não fosse obrigatório. Isso gera uma distorção cujas consequências vêm se tornando mais relevantes com o passar do tempo. Como mostrou reportagem do GLOBO, as ausências se concentram nos grupos sociais menos escolarizados e de menor renda. Analfabetos foram 4,4% do eleitorado, mas 11,1% dos ausentes em 2018. Eleitores com superior completo eram 9,2% do total, mas apenas 5,5% dos faltantes. A abstenção passou de 40% nas cidades remotas do Amazonas ou de Minas Gerais e alcançou 22% no Sudeste, o maior percentual entre todas as regiões. É justamente a que concentra mais eleitores e será decisiva nesta eleição presidencial.

Apesar de ser um problema com uma medida precisa, fornecida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a abstenção não é levada em conta pelos institutos que realizam pesquisas de intenção de voto. A campanha do presidente Jair Bolsonaro tem usado os índices de abstenção do passado para alardear que a distância entre ele e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva será menor na urna do que sugerem as pesquisas, pois o público que mais se abstém — mais pobre e menos escolarizado — concentra mais eleitores de Lula que de Bolsonaro. É um argumento na essência correto, embora seja difícil medir essa discrepância e saber se ela será mesmo decisiva como supõe a campanha bolsonarista (Lula pode obter menos votos do que sugerem os números, mas ganhar ainda assim).

Ao deixar de levar em conta as projeções de abstenção no cálculo dos percentuais de voto, os institutos supõem que ela se distribui uniformemente por todos os segmentos do eleitorado. Pode ser que esse equilíbrio corresponda à verdade no passado, mas não há garantia de que sempre se repita. De acordo com o estatístico Raphael Nishimura, diretor de amostragem da Universidade de Michigan, nos países onde o voto é facultativo, as pesquisas costumam avaliar a propensão de cada tipo de eleitor ir votar para obter níveis de intenção de voto mais confiáveis (nos Estados Unidos, há pesquisas apenas com “eleitores prováveis”). E nem isso garante o resultado. O exemplo mais citado é a eleição de Donald Trump em 2016, quando os institutos subestimaram o voto trumpista entre eleitores sem formação universitária no Meio-Oeste do país. Foi esse o principal motivo para as projeções errarem o resultado da eleição naquele ano.

Não há nenhuma evidência de que algo semelhante possa acontecer no Brasil, com a abstenção em massa dos eleitores mais pobres e menos escolarizados favorecendo Bolsonaro. Mas o exemplo americano mostra por que, para retratarem a realidade eleitoral de modo mais fiel, é essencial que os institutos passem a levar em conta a abstenção em seus cálculos.

O Globo

Um espectro para cada candidato




Abstenção assombra Lula e Bolsonaro teme voto envergonhado

Por César Felício (foto)

Há dois espectros rondando a reta final das eleições: um é o impacto da abstenção eleitoral, ou seja, do não comparecimento às urnas no dia 2 de outubro de parte considerável do eleitorado. Este já é objeto de preocupação explícita do líder nas pesquisas, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O outro é o voto envergonhado. Trata-se do eleitor que, por se sentir intimidado em seu meio social, guarda para si a opção política que traz dentro do peito. Há sinais de que este fator está preocupando o presidente Jair Bolsonaro e seu entorno.

Observe-se por exemplo as reações despertadas pela agressão do deputado estadual Douglas Garcia (Republicanos-SP) à jornalista Vera Magalhães no debate de governadores da terça-feira à noite na TV Cultura.

O parlamentar, muito conhecido pela agressividade, abordou a jornalista e replicou as ofensivas dirigidas a ela por Bolsonaro quando houve o debate presidencial na TV Bandeirantes. Celular em punho, Garcia disse que Vera Magalhães era uma vergonha para o jornalismo nacional. O ultraje terminou quando o diretor de jornalismo do canal arremessou para longe o telefone do deputado estadual.

O episódio provocou repulsa pública até mesmo do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), o filho do presidente que já se envolveu em mais de um lance de misoginia contra jornalistas.

Por que a postura diferente no episódio mais recente? Porque agora estamos em uma campanha eleitoral e o incidente da TV Cultura não é isolado. É o tijolo de uma catedral de intimidações que gera um ambiente de violência tanto no plano simbólico quanto no real contra vastos segmentos da sociedade. Vai da marmita negada por um bolsonarista a uma mulher (novamente uma mulher) por uma opção política ao tiroteio em uma festa de aniversário que vitimou um petista. O eleitor intimidado muitas vezes não parte para a briga, como Vera Magalhães o faz com raro destemor. Vinga-se na urna.

Note-se que em 2018 foi possível a Bolsonaro e ao bolsonarismo situar-se na posição de vítima da violência política, a partir de um episódio concreto, o atentado contra sua vida em Juiz de Fora. Naquela ocasião, o voto envergonhado beneficiou Bolsonaro. Agora todo o clima de violência política parte de um lado só, o dele.

“Na antropologia política, o eleitor intimidado tende a não se afastar do processo. Ele participa calado”, opina Emerson Cervi de Almeida, professor de ciência política da Universidade Federal do Paraná. Cervi chama a atenção para um segmento que está no momento muito intimidado: o de evangélicos que não são bolsonaristas.

A condenação a Douglas Garcia por ter simplesmente repetido as palavras de seu ídolo na política sinalizam que um alerta se acendeu.

O outro fator, o da abstenção, preocupa o líder nas pesquisas, porque ele não é neutro. A abstenção é maior nos grandes centros urbanos, que tendem a ser mais oposicionistas, e Lula tem mais intenção de voto nas capitais (46%) do que no interior 43%), de acordo com o último Ipec. Lula dá sinais de que sabe que a dinâmica de um segundo turno contra Bolsonaro lhe é desfavorável, atua para tentar liquidar a fatura no primeiro turno e para isso cada voto conta. A abstenção no Brasil apresenta suave alta desde 2006, quando foi de 16,8%. Em 2018, ficou em 20,3%.

O resultado das eleições não raro traz dissabores aos petistas que se fiam na última pesquisa de intenção de voto disponível antes da abertura das urnas.

Em 2018, o último Datafolha trazia Bolsonaro e Haddad separados por 13 pontos percentuais entre votos totais (sem desconsiderar os em branco e nulos). Nas urnas, a diferença foi de 15 pontos, usando o mesmo critério. Bolsonaro marcou 35% na pesquisa e ficou com 42%. Haddad de 22% ficou com 27%. Em 2014, o fenômeno já havia sido registrado. Dilma Rousseff teve 40% na pesquisa Ibope e ficou com 37% nas urnas, votos totais. Aécio Neves (PSDB) teve 24% no Ibope e 30% nas urnas. O vale de 16 pontos tornou-se uma planície de 7 pontos. Em 2010, o Datafolha dava Dilma reeleita no primeiro turno. As urnas registraram 43% para ela e 30% para José Serra (PSDB). Na pesquisa era 44 a 28. A distância de 18 foi para 13 pontos, mas há de se convir que neste caso está dentro da margem de erro.

Se a história se repetir agora estará sepultada a possibilidade de vitória de Lula no primeiro turno. A correlação entre diferença de pesquisa e voto e a abstenção, contudo, está longe de ser óbvia, embora não haja dúvidas de que trata-se de um tema que preocupa mais Lula do que Bolsonaro. Para o cientista político Jairo Nicolau, que tem colaborado com um instituto de pesquisa, o Quaest, ela não existe.

“Um dos motores da abstenção é o dos eleitores acima de 70 anos, por exemplo. Metade não vota. A população idosa é maior nos bairros de alta renda. Tem mais abstenção em Ipanema do que em Vila Valqueire”, afirmou. Na zona eleitoral à qual Ipanema pertence, Haddad ficou em terceiro em 2018, com 12% dos votos válidos. Bolsonaro teve 58%.

Segundo Nicolau, está entre os eleitores mais ricos a maior parte da abstenção de natureza política, em que o eleitor deixa de votar por opção, e não porque não está em situação regular ou não atualizou seu domicílio eleitoral.

“Por essa perspectiva, Bolsonaro até pode ser mais prejudicado pela abstenção do que Lula”, diz.

O avanço da biometria, lembra o pesquisador, também atenuou a abstenção alta por desatualização de cadastro.

Para Nicolau, o fato de o PT recorrentemente murchar um pouco no dia da eleição está mais relacionado com a dinâmica do próprio processo eleitoral, ou com algum problema amostral recorrente dos institutos, do que com o absenteísmo eleitoral.

A questão amostral é descartada como hipótese por Cervi. As pesquisas no Brasil, diz ele, são mais precisas do que nos países onde o voto de fato é facultativo. No Brasil, o comparecimento é da ordem de 80%. Em países sem voto obrigatório, como é o caso da França, os percentuais recuam para a casa dos 60%. Em outros casos, até menos.

Se este recuo recorrente dos petistas na reta final não pode ser explicado pela abstenção e nem por falhas nas pesquisas, só resta a política como razão.

Valor Econômico

Quando jornalista vira pauta, algo vai mal




Assédio deflagrado pelo presidente mostra uma campanha deliberada para minar credibilidade da imprensa

Por Vera Magalhães (foto)

Relatório da ONG Repórteres Sem Fronteiras contou 2,8 milhões de ataques contra jornalistas nas redes sociais no primeiro mês de campanha eleitoral oficial. Dessas investidas, a maioria esmagadora se destina a mulheres e, entre elas, os ataques dirigidos a mim lideram, disparado, o ranking, com a companhia de colegas como Míriam Leitão, Amanda Klein, Andréia Sadi e Mônica Bergamo.

No meu caso, a onda de ataques e agressões, inclusive a mais recente, de assédio presencial do deputado estadual bolsonarista Douglas Garcia, foi deflagrada a partir da investida de Jair Bolsonaro contra mim a uma pergunta feita a Ciro Gomes, com comentário do presidente, no debate de um pool de veículos de imprensa.

— Você é uma vergonha para o jornalismo brasileiro — disse Bolsonaro.

Foi a mesma frase reproduzida num cartaz com minha fotografia, içado num guindaste durante o 7 de Setembro em Copacabana. Também foi a mesma berrada por Garcia a poucos centímetros do meu rosto na última terça-feira, junto à mentira de que eu ganhava R$ 500 mil por ano para atacar o presidente.

Uniu-se ao pelotão de linchamento ontem a ministra Damares Alves, candidata ao Senado pelo Republicanos, que em entrevista à BandNews cometeu a leviandade de dizer que zombei do abuso sexual que ela relatou ter sofrido quando criança, algo que jamais ocorreu.

Esse assédio deflagrado pelo presidente, portanto autorizado, e continuado por seus apoiadores mais fiéis mostra uma campanha deliberada para minar a credibilidade da imprensa. Mais: trata-se de uma campanha de intimidação e acossamento permanente, brutal, violenta, não por acaso concentrada em mulheres, na expectativa de que nós, jornalistas, nos atemorizemos e, assim, consciente ou inconscientemente, nos autocensuremos, adotemos uma contenção ditada pelo medo físico e psicológico de exercer nosso ofício.

Esses expedientes não são invenção do bolsonarismo. Inscrevem-se na cartilha pela qual políticos populistas, com propensões autoritárias, agem para dilapidar a influência da imprensa nas sociedades e, com isso, gerar um ambiente em que o jornalismo profissional é substituído pela propaganda travestida de notícia e difundida por meio das redes sociais, de canais no YouTube e postagens em massa em aplicativos de mensagens.

Iniciativas de coalizões de imprensa, protocolos testados pela Justiça Eleitoral, acordos como o firmado pelo Ministério Público de São Paulo com entidades representativas dos jornalistas para tentar blindá-los de ataques são louváveis e necessários, mas, diante da virulência, da alta profissionalização, da falta de limites e da autorização oficial dos ataques por parte de autoridades, acabam sendo, por ora, uma forma de enxugar gelo.

Algo está muito errado com a democracia quando jornalista vira assunto ou, pior, personagem de uma campanha eleitoral. Somos ensinados, nas faculdades de jornalismo e ao longo da carreira, a reportar, entrevistar, analisar, questionar, sempre em terceira pessoa.

A fulanização de jornalistas, sobretudo mulheres, e dos ataques a eles e elas, a nós, na “pessoa física”, não é casual, é calculada. É muito grave que nossos nomes parem em hashtags acompanhados de palavras como “lixo”, “vergonha”. Uma sociedade que, em qualquer proporção, se regozija de ataques desferidos contra profissionais que apenas exercem seu trabalho está doente, radicalizada, viciada em enxergar a política e o jornalismo como espetáculos sangrentos, nos quais se tem de eleger todo dia “mocinhos” e “bandidos” para amá-los e odiá-los com intensidade.

Somos humanos, profissionais, falíveis, mas agimos segundo preceitos éticos e normas de jornalismo.

O Globo

Bolsonaro contra Bolsonaro




Com todo respeito aos vencedores, é inegável que o presidente é o grande adversário de si mesmo. Cavou sua derrota milimetricamente

Por Fernando Gabeira (foto)

Acompanhei, até agora, todas as eleições do período de redemocratização. Cada vez aprendo coisas novas e, sobretudo, fortaleço minha hipótese de que, sob certos aspectos, é um processo incontrolável.

Quero dizer com isso que, além dos candidatos, de seus especialistas em marketing e de todo o aparato analítico profissional na mídia, acontecem coisas imprevistas que acabam reforçando a ideia da complexidade do País. Aliás, essa lição já se configurou na facada em Bolsonaro em Juiz de Fora, criando o fato político mais importante daquela campanha.

Olhando para 2022, parece que o desafio aos planejadores aumentou. O Brasil escapa dos cálculos como um potro bravio.

Eleitores de Bolsonaro mataram dois eleitores de Lula, no Paraná e em Mato Grosso. Os fatos, sobretudo o primeiro, tiveram grande peso na sensação de vivermos um período violento, estimulado de cima pela própria política militarizante do presidente. As tentativas de Bolsonaro de atenuar o desgaste cooptando familiares do petista morto em Foz do Iguaçu mais associaram do que distanciaram sua visão política do crime.

Num caso também rumoroso, um empresário bolsonarista ameaça cortar a ajuda alimentar a uma pobre mulher porque ela revelou votar em Lula. Nada mais revelador do que isto: um homem rico humilhando uma diarista que precisa da comida, apenas porque ela mencionou o que, aparentemente, é o desejo da maioria: votar em Lula.

Bolsonaro sempre afirmou que o Bolsa Família era uma forma de comprar votos. Sua tese foi levada à prática de forma truculenta: suposição de que os pobres vendem seu voto por um prato de comida.

Mas, além dos indivíduos isolados, há fatos que revelaram nesta campanha uma complexidade acima da competência de muitos planejadores.

O tema mais discutido da campanha foi o auxílio emergencial de R$ 600. Bolsonaro e seus aliados atropelaram a Constituição, o equilíbrio fiscal e as leis eleitorais. Houve um grande rumor, em primeiro lugar, porque era tudo ilegal. Mas, por baixo da resistência, havia também uma suposição de que Bolsonaro iria avançar eleitoralmente à custa dos R$ 48 bilhões destinados ao auxílio emergencial.

As pesquisas revelaram sistematicamente que estavam todos enganados. Os eleitores que ganham até dois salários mínimos indicam que votarão majoritariamente em Lula.

É verdade que houve uma campanha orientando os pobres a receberem o dinheiro e votarem em outro candidato que não Bolsonaro. É fato, também, que muitos associam a ajuda social aos governos de esquerda. Ainda assim, houve uma surpresa. Bolsonaro praticamente não ganhou votos. Quase ninguém previu esse desdobramento. No mínimo, esperava-se que sua situação eleitoral iria melhorar entre os pobres.

Outra grande surpresa foi o sequestro do Sete de Setembro, uma data nacional, pela candidatura de Bolsonaro. Ele usou as Forças Armadas, enganou a mídia durante algumas horas, ocupou um grande espaço, para quê, afinal? Ao subir no palanque e se declarar “imbrochável”, desapontou os que esperavam um mínimo de compostura de um presidente no bicentenário da Independência.

Verdade é que Bolsonaro considera que, mesmo falando mal dele, a imprensa o ajuda. Ocorre que, logo em seguida, quando esperava grandes críticas pelo seu comportamento, a rainha Elizabeth II morreu e levou com ela o resto de atenção que ainda poderia ser dedicado a ele.

Agora, seus cálculos se dirigem ao funeral da rainha, onde pretende representar o Brasil, de olho na repercussão eleitoral. Mas, por mais que a morte da rainha tenha repercutido, o tema não se sustenta no Brasil. Proclamamos a República no final do século 19, não há nenhuma nostalgia monárquica entre nós.

A rainha não faz milagres, nem Bolsonaro conseguirá ressuscitá-la. Como manter a esperança num ritual protocolar, quando falharam os bilhões dedicados a conquistar os mais vulneráveis?

O que esta campanha está mostrando talvez fortaleça nossa humildade em imaginar a reação dos brasileiros. No caso dos assassinatos de adversários políticos, era evidente que o discurso belicoso de Bolsonaro poderia estimulá-los. Mas fracassou a suposição de que os pobres brasileiros votam num presidente que os desprezou de várias maneiras, inclusive na pandemia, só porque despejou caminhões de dinheiro no momento eleitoral.

Fracassou, também, a suposição de que, colocando massas ruidosas nas ruas, elas podem substituir a maioria da população, que, silenciosa, observava o discurso de um presidente vulgar.

Mesmo quanto aos evangélicos, entre os quais parece ter maioria, talvez seja um equívoco achar que seguirão votando no candidato dos seus pastores indefinidamente.

No caso de Donald Trump, foi preciso inventar a tese de que, apesar de suas imperfeições, foi eleito por Deus. Chega um momento em que o próprio fiel começa a se perguntar se Deus não poderia caprichar mais na escolha.

Com todo respeito aos vencedores, é inegável que Bolsonaro é o grande adversário de si mesmo. Cavou sua derrota milimetricamente. Ele parece confirmar a célebre e discutível frase de Heráclito: o caráter é o destino.

O Estado de São Paulo

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