sábado, setembro 17, 2022

O darwinismo social de Bolsonaro - Editorial




O corte drástico do Programa Farmácia Popular, antes de ser um ‘desencaixe’ acidental da democracia, na definição de Paulo Guedes, expressa a essência do governo bolsonarista

O governo Jair Bolsonaro tem facilitado a vida dos candidatos que disputam com ele a Presidência da República. Para conquistar votos, as equipes de campanha não precisam apelar a um marketing agressivo ou às fake news que levaram o presidente ao Palácio do Planalto em 2018. Basta ler a proposta que sua administração elaborou para o Orçamento de 2023. Não há peça que deponha mais contra sua gestão e que exponha o tamanho das contradições de suas promessas eleitoreiras do que o documento formal enviado ao Congresso no fim de agosto. Na proposta, o Executivo já havia sido incapaz de garantir a manutenção do Auxílio Brasil em R$ 600, tema central da campanha, e teve que fixá-lo em R$ 400, tudo para garantir a reserva de R$ 19,4 bilhões para o orçamento secreto. Não foi suficiente. Agora, como o Estadão revelou, o governo achou por bem comprometer o bem-sucedido programa de distribuição de medicamentos Farmácia Popular e cortar 60% de sua verba.

Diante da péssima repercussão que a notícia teve, o governo apelou à repisada estratégia de buscar outro culpado – qualquer um – para assumir a responsabilidade pela tesourada no programa. O ministro da Economia, Paulo Guedes, elencou o rol de inimigos que costuma mencionar nesses momentos em que precisa justificar o injustificável, como o teto de gastos – que, curiosamente, funciona para toda e qualquer política pública, menos para conter o avanço das emendas de relator. Sem citar o Centrão, grupo formado pelos verdadeiros donos das emendas de relator, o ministro foi audacioso: culpou até a democracia e prometeu recompor os recursos do Farmácia Popular por meio de uma mensagem presidencial a ser enviada, convenientemente, um dia depois da eleição. “Essa mensagem presidencial vai corrigir esses desencaixes que a democracia às vezes acidentalmente permite”, disse.

Não é a primeira vez que Guedes expõe uma concepção distorcida sobre o regime democrático. Isto posto, o corte do Programa Farmácia Popular, sob vários aspectos, é um episódio revelador. Deixa claro que, para o ministro da Economia, a reeleição de Bolsonaro precisa ser garantida custe o que custar. Do contrário, ele não teria considerado razoável priorizar a distribuição de verbas paroquiais bilionárias a aliados em detrimento de uma política pública que garanta acesso gratuito a medicamentos contra doenças crônicas como hipertensão, asma e diabetes, cujo tratamento tem caráter preventivo e não pode ser interrompido. Afinal, a ideia de reduzir linearmente as despesas discricionárias da Saúde em 60%, de forma a preservar as emendas de relator, partiu do próprio Ministério da Economia.

Como mostrou o Estadão, os técnicos do Ministério da Saúde alertaram a equipe de Guedes de que a redução dos recursos do Farmácia Popular de R$ 2,04 bilhões para R$ 804 milhões tornaria o programa inviável no ano que vem. Como alternativa, eles defenderam, sem sucesso, um corte nas rubricas de atenção primária e de média e alta complexidades do Sistema Único de Saúde (SUS). Se Guedes apelou para o contorcionismo argumentativo, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, recorreu à mentira. Para blindar Bolsonaro, ele disse que o orçamento secreto tinha execução obrigatória, quando até as pedras sabem que esse tipo de emenda parlamentar não é impositiva e poderia ser cortada pelo governo. Com a mesma desfaçatez de quem anuiu com a redução de 60% das verbas do Farmácia Popular, Queiroga prometeu não só revê-lo, como ampliar os recursos destinados ao programa. Nada disso está no Orçamento de 2023 enviado pelo governo ao Congresso.

Nisso tudo, o que chama a atenção é o silêncio de Bolsonaro. Pudera: não há o que dizer ante o fato incontestável de que o corte do Farmácia Popular, antes de ser um “desencaixe” acidental da democracia, na inacreditável definição de Paulo Guedes, expressa a essência do governo bolsonarista. A pouco mais de duas semanas das eleições, Bolsonaro está colhendo os frutos que plantou durante três anos e meio de ergofobia crônica e de orgulhoso darwinismo social. Só ele e seus ministros não sabiam a relevância que uma boa política pública pode ter no bem-estar da população. 

O Estado de São Paulo

Diminui vantagem de Bolsonaro sobre Lula entre evangélicos




Atual presidente tem a preferência de 49% do eleitorado evangélico, frente a 32% do ex-presidente Lula, aponta Datafolha. Na semana anterior, vantagem de Bolsonaro era de 23 pontos.

O presidente Jair Bolsonaro (PL) segue liderando a corrida eleitoral ao Planalto entre os evangélicos, mas diminuiu a vantagem em relação ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). É o que mostra pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (15/09).

A vantagem do atual presidente entre os evangélicos agora é de 17 pontos – na pesquisa anterior, uma semana antes, era de 23. Entre esse grupo, Bolsonaro tem 49% das intenções de votos e Lula, 32%. O segmento representa 27% da amostra.

A pesquisa ouviu 5.926 eleitores em 300 municípios entre os dias 13 e 15 de setembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

No cenário geral, Lula segue favorito, com 45% dos votos, contra 33% de Bolsonaro. Em seguida, aparecem Ciro Gomes (PDT), com 8%, Simone Tebet (MDB), com 5%, e Soraya Thronicke (União Brasil), com 2%.

Felipe D'Ávila (Novo), Sofia Manzano (PCB), Vera Lúcia (PSTU), Leo Péricles (UP), Constituinte Eymael (DC) e Padre Kelman (PTB) não chegaram a 1% respectivamente. Eleitores indecisos somam 2%, enquanto votos brancos e nulos chegam a 4%.

Religião como foco

O eleitorado cristão tem sido peça-chave nesta campanha. Enquanto Bolsonaro é favorito entre os evangélicos, Lula lidera entre os católicos. A equipe do atual presidente tem utilizado na campanha a imagem da primeira-dama, Michelle, que é protestante.

No fim de julho, em seu discurso de lançamento da candidatura, Bolsonaro fez sete menções a Deus, que sua esposa, Michelle, invocou outras 27 vezes no palanque.

Na ocasião, Michelle apresentou o marido como um "escolhido de Deus" que tem um "projeto de libertação para a nossa nação", aconselhou a plateia a não negociar com o mal e foi festejada aos gritos de "aleluia". Nos últimos meses, Bolsonaro tem comparecido a eventos evangélicos com frequência quase semanal.

Em 8 de agosto, Michelle compartilhou em suas redes sociais um vídeo que mostrava Lula participando de um ritual da umbanda em agosto de 2021, com o comentário: "Isso pode, né! Eu falar de Deus, não".

O deputado Marcos Feliciano, que é pastor evangélico e apoiador de Bolsonaro, afirmou recentemente à rádio CBN que "alertou" os fiéis sobre uma suposta "perseguição" de Lula que poderia "culminar no fechamento de igrejas". O PT rebateu a fala de Feliciano, que classificou como fake news, e ingressou com uma ação na Justiça para que o deputado apresente provas de sua acusação.

Lula também vem tentando ampliar seu apoio entre esse eleitorado: o PT criou neste ano núcleos evangélicos em 21 estados, enquanto busca diferenciar sua abordagem da interface entre política e religião, em relação à de Bolsonaro.

No lançamento de sua campanha, Lula afirmou que o presidente tenta manipular a boa-fé de evangélicos, mas que era "possuído pelo demônio". "Eu sou candidato do povo brasileiro, e quero tratar todas as religiões com respeito. Religião é para cuidar da fé, não para fazer política. Eu faço campanha eleitoral respeitando religião, e não uso o nome de Deus em vão", disse Lula.

A esposa do petista, Janja, também vem reagindo às investidas da campanha de Bolsonaro nesse tema. Respondendo ao compartilhamento por Michelle do vídeo de Lula num ritual de umbanda, ela afirmou: "Eu aprendi que Deus é sinônimo de amor, compaixão e, sobretudo, de paz e de respeito. Não importa qual a religião e qual o credo."

Valores religiosos

Pesquisa Datafolha divulgada no começo do setembro mostra que metade dos eleitores brasileiros considera que política e valores religiosos devem andar sempre juntos, para o Brasil poder prosperar. No total, 40% dos entrevistados disseram concordar totalmente com tal afirmação, e 16%, em parte.

A ligação entre política e religião tem o aval sobretudo de eleitores de Bolsonaro (74%), de evangélicos (69%) e dos mais pobres (61%), com renda até dois salários mínimos. Entre eleitores de Lula, 50% concordam com a afirmação. Dos católicos, 57% estão de acordo, e dos eleitores mais ricos, 41%, aponta o Datafolha.

Segundo o cientista político e pesquisador pós-doutoral da Universidade de Zurique, Victor Araújo, os evangélicos pentecostais, grupo que cresceu nas últimas décadas, tendem a ser muito mais conservadores, portanto mais avessos a candidatos de esquerda, que veem como uma ameaça à família e aos valores tradicionais.

"Para essa porção do eleitorado, questões relacionadas à moral, essa guerra cultural, espiritual, tudo isso importa muito mais do que inflação, projeção da economia e PIB", afirma Araújo.

Deutsche Welle

O fantástico país do sr. Aras - Editorial



Corretamente, a nova presidente do STF, Rosa Weber, disse que vivemos tempos ‘perturbadores’; para o PGR, porém, tudo vai bem; é esse alheamento que desprotege a Constituição

Na cerimônia de posse da nova presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Rosa Weber, na segunda-feira passada, o País assistiu a uma das situações mais peculiares – e preocupantes – do atual cenário institucional brasileiro: o alheamento da Procuradoria-Geral da República (PGR) em relação à realidade. Em seu discurso, o procurador-geral da República, Augusto Aras, disse que não vê nada de anormal nos tempos atuais. Tudo estaria absolutamente tranquilo e em ordem.

Em seu discurso de posse, a nova presidente do STF reconheceu que “vivemos tempos particularmente difíceis da vida institucional do País, tempos verdadeiramente perturbadores, de maniqueísmos indesejáveis”. Ainda que contundente, a afirmação de Rosa Weber é simples fruto da constatação dos fatos. Na ordem constitucional de 1988, houve muitas disputas e embates políticos. Mas nunca houve tantos ataques – verdadeira campanha orquestrada – contra o Supremo. Nunca houve um presidente da República desacreditando e afrontando de forma deliberada e continuada o sistema eleitoral brasileiro. Nunca houve tamanha tentativa de envolver as Forças Armadas em questões político-eleitorais e, muito menos, na apuração dos votos. Nunca houve tão intenso ataque contra as regras do jogo eleitoral, valendo-se da própria Constituição para remover proteções básicas do regime democrático. Nunca houve tanta desinformação por parte do governo federal em assuntos de saúde pública. Nunca houve tantos ataques contra a imprensa e contra a transparência dos atos públicos. Nunca houve tão marcante manipulação da religião para fins político-eleitorais. Nunca houve tão deliberado aparelhamento das festas cívicas – e do dinheiro público – para fazer campanha eleitoral.

No entanto, como se não bastasse ignorar essas agressões e ameaças, Augusto Aras está radiante com a situação do País. “O quanto para nós, como brasileiros, é gratificante saber que tivemos um 7 de Setembro pacífico e ordeiro, sem violência”, disse o procurador-geral da República. Ora, é muita miopia ver nos acontecimentos do passado 7 de Setembro apenas ausência de violência. Houve um descarado e ilegal uso eleitoral da data por parte do presidente Jair Bolsonaro – tão acintoso que nem o presidente da Câmara, Arthur Lira, fiel aliado do Palácio do Planalto, compareceu aos festejos do feriado. E isso sem falar na tensão que Jair Bolsonaro e os bolsonaristas criaram sobre a data do Bicentenário da Independência, o que exigiu medidas extraordinárias de segurança em Brasília e o cancelamento do tradicional desfile cívico-militar do 7 de Setembro no centro da cidade do Rio de Janeiro.

Para que o Bicentenário da Independência pudesse ser minimamente comemorado, o Congresso promoveu uma sessão no dia 8, qualificada pelo sr. Aras como uma “bela festa, (...) com palavras de integração e gratidão do presidente de Portugal”. O procurador-geral da República não notou, no entanto, que o chefe de Estado brasileiro, Jair Bolsonaro, não compareceu ao ato. É isso o que o chefe da PGR chama de normalidade?

Para evitar qualquer mal-entendido, o sr. Aras explicitou, no final de seu discurso, que sua irrestrita compreensão em relação às ações e omissões do Palácio do Planalto não se estende aos ministros do Supremo. Referindo-se à fala da ministra Cármen Lúcia – entre outros pontos, a ministra lembrou que “o momento cobra decoro, a República demanda compostura” –, o procurador-geral da República citou o hino da Bahia, que “tem uma frase que alcança todos os Poderes e todas as instituições: (...) nunca mais o despotismo regerá nossas ações”. Pelo visto, a preocupação do sr. Aras é com o suposto despotismo de quem protege a Constituição.

Bem se sabe como as preocupações seletivas destroem a República, cujo princípio fundante é a igualdade de todos perante a lei. Se o sr. Aras, na condição de procurador-geral da República, alheia-se da realidade, não vendo nada ou vendo apenas o que deseja ver, a ordem jurídica fica desprotegida. Não cabe ignorar os ataques contra a Constituição nem criticar quem a defende. 

O Estado de São Paulo

A importância do segundo turno




Disputa tem de ir além de um triste torneio de propostas irresponsáveis. Candidatos terão de conquistar eleitores de centro

Por Rogério Furquim Werneck (foto)

Já não há mais esperança de que o nível da campanha presidencial ainda possa melhorar. Frustraram-se, mais uma vez, os que se deixaram levar pela fantasia de que, a esta altura, poderíamos estar presenciando amplo e proveitoso debate nacional sobre os graves desafios que o país tem pela frente. Não foi o que se viu. Nem o que se verá nos escassos 15 dias finais da campanha do primeiro turno.

Como não poderia deixar de ser, numa eleição tão polarizada, o tom dominante da campanha vem sendo dado pelos dois candidatos que lideram por larga margem as pesquisas de intenção de voto. Em meio à estridência de acusações mútuas de corrupção, à troca de impropérios e às saraivadas de promessas demagógicas, pouco se salva.

O mais angustiante, para quem entrevê a real extensão das dificuldades de ordem fiscal que terão de ser enfrentadas em 2023, é o triste torneio de propostas irresponsáveis que vem sendo travado pelos dois candidatos.

O ensandecido vale-tudo que vem sendo promovido por Bolsonaro, desde o calote dos precatórios, no final do ano passado, não parece ter fim. Tendo implantado um mal concebido programa de combate à pobreza, que transformou o Bolsa Família no dispendioso Auxílio Brasil de R$ 600, Bolsonaro agora se permite alardear a elevação do pagamento mensal a R$ 800, caso o beneficiário comprove ter conseguido emprego.

Já Lula, como se viu em sua longa entrevista a William Waack, na CNN Brasil, há poucos dias, continua aferrado a inaceitável narrativa negacionista sobre as razões do colossal descarrilamento da economia perpetrado por Dilma Rousseff. E preso a convicções insensatas sobre que medidas de política econômica se farão necessárias, em 2023.

Alheio à precariedade do quadro fiscal que terá de ser enfrentado por quem vier a ser eleito presidente, Lula insiste em defender a adoção de amplo espectro de políticas expansionistas, com base no que supostamente teria tido um “sucesso extraordinário” nos governos petistas.

De programas ousados de investimento público e reativação do Minha Casa Minha Vida à concessão mais agressiva de crédito pelos bancos oficiais. O ex-presidente continua convicto de que “não tem problema você ter dívida se você tiver capacidade de fazer essa dívida para fazer investimento e não para fazer custeio”.

Na reta final do primeiro turno, a aposta de Lula é no “voto útil” de eleitores de candidatos de terceira via, que lhe propiciariam o “tiquinho” que lhe falta para “liquidar a fatura” em 2 de outubro. Será lamentável se eleitores de centro se dispuserem a já lhe dar esse indefensável cheque em branco.

Lula precisa perceber que, se não se mover claramente para o centro, no eixo que de fato importa, que é o da condução da política econômica, se arriscará a perder a eleição. É difícil que se disponha a fazer tal movimento antes do segundo turno.

Na campanha que se seguirá ao primeiro turno, o jogo será outro. Para conquistar eleitores de centro, os dois candidatos terão de mudar o discurso, abrandar a radicalização e tentar ser menos populistas e menos vagos. Inclusive porque o desfecho do primeiro turno das eleições já terá conferido muito mais nitidez à real natureza dos desafios de articulação política que terão de ser enfrentados.

Já se saberá, afinal, a exata composição do novo Congresso com que o presidente que for eleito no segundo turno terá de lidar. E já se terá ideia bem mais clara do que hoje se tem de como as diversas forças políticas do país ocuparão governos estaduais nos próximos quatro anos.

Nesse quadro político tão mais claro, haverá menos espaço para se definir as bases da estratégia de articulação do Planalto com o Poder Legislativo com trivialidades como “você vai ter que conversar e vai dizer que não pode ter orçamento secreto”, com que Lula tentou escapar, na entrevista, da pergunta sobre dificuldades de negociação com o Congresso com que ele teria de lidar, em 2023.

Há boas razões de sobra para se levar a disputa presidencial para o segundo turno.

O Estado de São Paulo

Para onde correr?




Sem se mover, resta a Bolsonaro que ‘segundo turno é outra eleição’. Será?

Por Eliane Cantanhêde (foto)

Mais uma pesquisa atestando a estabilidade favorável ao ex-presidente Lula e capaz de desestabilizar a campanha do presidente Jair Bolsonaro: o Datafolha confirmou ontem que o petista se mantém firme e forte na faixa dos 45% e o presidente não sai do lugar, oscilando não mais para cima, mas para baixo.

A situação continua rigorosamente igual, mostrando, semana a semana, que Bolsonaro não atingiu o alvo de ultrapassar Lula nem reduziu a diferença. A nova pesquisa só não é um total desastre para ele porque a hipótese de segundo turno permanece real. Com a frustração de disparar em junho, julho, agosto, setembro... resta o consolo de que “o segundo turno é uma nova eleição”. Será?

Com mudanças de estratégia e movimentos erráticos, a campanha de Bolsonaro dá sinais de que não sabe mais o que fazer. E é exatamente no meio disso que Bolsonaro vai torrar seis decisivos dias, indo a Londres e a Nova York. E continuam os erros.

Ele e aliados atacam jornalistas mulheres e falam sobre “princesas” e que mulheres “não são insubmissas e livres”, num país em que a maioria da população (logo, das mulheres) é pobre, luta bravamente pela sobrevivência, não quer “beijinhos e rosas”, como diz o presidente, mas, sim, emprego, renda, respeito, dignidade, saúde e educação para os filhos e, claro, comida na mesa.

Bolsonaro fala humildemente num dia que tem 67 anos e, se perder, passa a faixa, desiste da política e “não tem mais nada a fazer nessa Terra”. No dia seguinte, volta a atacar tudo e todos. E ele decidiu investir tudo em São Paulo, no interior, com seus 18,2 milhões de eleitores, mas sua situação lá também não parece confortável.

Pelo Datafolha, o petista Fernando Haddad tem 36% e o bolsonarista Tarcísio de Freitas, 22%, mas o governador Rodrigo Garcia, neotucano, cresceu quatro pontos, está com 19% e ameaça ultrapassar Tarcísio.

Isso reflete as dificuldades do próprio Bolsonaro no principal Estado e as coisas não vão bem também em Minas, segundo colégio eleitoral, onde o presidente não conseguiu apoio formal do governador Romeu Zema, que pode vencer em primeiro turno, e tem um candidato, Carlos Viana, com míseros 5%.

Com Bolsonaro engessado, Lula investe em duas frentes: o voto útil dos eleitores de Ciro Gomes e Simone Tebet e uma supercampanha para os eleitores “não pegarem seus carrinhos e irem para a praia no dia da eleição”. Além de mais agressivo, o eleitor de Bolsonaro é mais obstinado e vai votar. Se a abstenção bater novo recorde, tende a ser à custa dos votos de Lula e matar de vez a vitória no primeiro turno.

O Estado de São Paulo

Quem está falando mal da rainha Elizabeth? Os suspeitos de sempre.




'New York Times', 'Washington Post', professores universitários, irlandeses e escoceses: os motivos são diferentes, mas alguns parecem piada. 

Por Vilma Gryzinski

“O funeral da rainha será pago pelos contribuintes britânicos”. Parece brincadeira, mas este é o título de uma reportagem do New York Times sobre a morte de Elizabeth II.

E se, livrem-nos os céus, Joe Biden viesse a passar para o estágio espiritual durante o exercício de suas funções de chefe de Estado? Quem pagaria? Uma listinha de crowdfunding? O solene enterro de John Kennedy, com algumas cerimônias copiadas da antiga matriz, por acaso foi bancado pela família milionária?

É claro que as cerimônias fúnebres de uma monarca que tinha funções de Estado têm que ser pagas pelos cofres públicos. E com a presença de cerca de 500 representantes oficiais de países convidados não vai ficar barato – uma projeção prevê que cada domicílio britânico entrará com a prodigiosa quantia de cinco centavos de libra.

A infantilidade de “cobrar” satisfações sobre a maneira como – e por quanto – outro país homenageia suas personalidades públicas foi superada pelo artigo no Times de uma professora de história de Harvard, Maya Jasanoff, dizendo que a rainha “ajudou a obscurecer uma história cruenta de descolonização cujas proporções e legados ainda precisam ser adequadamente reconhecidos”.

É difícil ter algo mais estudado – e “reconhecido” – do que o colonialismo britânico, em todos os seus aspectos, inclusive os mais brutais. Não há nada de “obscuro” a respeito. Da mesma forma que é bem explícita a adesão voluntária de 55 ex-colônias, do Canadá a Tuvalu (população: 11 800 habitantes), à Commonwealth, a Comunidade das Nações que mantém o um elo comum com o antigo império onde o sol nunca se punha.

Entre esses países, o monarca britânico é chefe de Estado em 14. É possível que a morte da rainha apresse o rompimento desses laços, como já aconteceu com Barbados e deve acontecer com a Jamaica. Mas a “história cruenta”, pela qual a rainha morta não pode ser responsabilizada, não parece pesar mais do que o orgulho de continuar a ter uma ligação profunda com a monarquia britânica.

Comparativamente, a professora de Harvard foi comedida diante do que tuitou outra acadêmica americana, Uju Anya. Poucas horas antes da morte da rainha, quando o fim já estava evidente, ela disparou: “Soube que a monarca chefe de um império ganancioso, estuprador e genocida está morrendo. Que a sua dor seja excruciante”.

A professora de linguística aplicada, americana originária da Nigéria, conseguiu o que queria: aparecer.

Para não perder a onda, ela tuitou que, pelas críticas sofridas, estava sendo alvo de racismo – o que mais seria? Motivo: um vídeo de um grupo de praticantes da dança irlandesa tradicional estava viralizando no TikTok por mostrar cinco rapazes sapateando em frente ao Palácio de Buckingham ao som de Another One Bites the Dust (mais um bate as botas). Detalhe: o vídeo é do ano passado.

Uju Anya achou que os dançarinos estavam sendo tratados com bom humor, enquanto ela, pobrezinha, sofria críticas.

“Sou uma mulher negra muito veementemente de esquerda que fala sobre antirracismo, teoria crítica radical e direitos queer. Juntando tudo, sou definitivamente o melhor alvo para o ódio das redes sociais”, proclamou a professora.

Além do argumento tolo, ela também estava mal informada. A maior ofensa à rainha foi feita não pelo grupo irlandês, mas pela torcida do time Shamrock Rovers, de Dublin, que cantou durante um jogo poucas horas depois da morte rainha o refrão “Lizzie is in a box” – Elizabeth está na caixa. Ou, obviamente, caixão.

Outra torcida, do Celtics, da Escócia, levou faixas para um jogo dizendo “Dane-se a Coroa” – de forma um pouco mais chula – e “Sentimos por sua perda, Michael Fagan”. A referência ferina é ao homem que conseguiu invadir o quarto da rainha no Palácio de Buckingham em 1982.

Escoceses e irlandeses, tanto os da república que conseguiu a independência em 1949 quanto os da Irlanda do Norte, que continua a fazer parte do Reino Unido, têm bons motivos históricos para hostilizar os ingleses, considerando-se que foram anexados pela força ou por complexas redes dinásticas. Hoje haverá protestos durante a visita do novo rei ao País de Gales.

Ao mesmo tempo, o sentimento separatista é forte, mas não dominante – a Escócia votou contra a independência no plebiscito de 2014 – e mesmo entre seus partidários se mistura com o respeito pela figura da rainha.

Como ela morreu em seu castelo na Escócia, a primeira parte do grande ritual fúnebre aconteceu lá, com o detalhe que foi a coroa da Escócia, muito mais antiga do que a britânica, que ficou sobre seu caixão. Milhares de escoceses acompanharam respeitosamente o féretro, com um único incidente, o de um jovem que chamou o príncipe Andrew de “velho tarado”. Não que ele não mereça o xingamento, mas era o lugar errado e pessoas do público deram um jeito na situação.

Ele e uma garota de cabelos verdes, com cartaz contra a monarquia, foram os únicos casos de interferência policial, mas o Washington Post achou que “a detenção de manifestantes nas ruas britânicas levantou novas questões sobre a maneira como a Grã-Bretanha lida com críticas ao soberano”.

Um exagero, mais uma vez, ridículo. Na CNN, Christiane Amanpour – que é filha de pai iraniano e mãe britânica – achou que o novo rei tinha que lidar, imediatamente, com “questões do passado colonial”, inclusive “reparações”.

Qual o poder do rei para pagar “reparações”? Zero.

Muitas das críticas desse tipo têm a ver mais com os Estados Unidos do que com uma monarquia antiga e, ainda, apreciada pelos principais interessados. A questão de indenizações pela escravidão em território americano está virando um dos assuntos centrais da turma “woke”.

Certamente há exageros na intensidade da cobertura e dos elogios rasgados a Elizabeth II e como não existe nada mais simbolicamente tradicional do que monarquia, a esquerda acha que precisa ganhar pontos criticando cabeças coroadas numa hora em que tantos exaltam a figura impecável da rainha morta.

Mas o que dizer de uma reportagem que chama Charles de “bebê chorão” e faz conjecturas sobre sua vida sexual, como aconteceu na The Cut, a revista moderninha do New York Times? Ah, claro que a revista correu para publicar uma entrevista com a professora Uju Anya, a que desejou uma morte bem dolorosa para a rainha.

Lacração rastaquera é de dar vergonha até aos mais fiéis admiradores do maior jornal do mundo.

Revista Veja

O negócio do Jair' revela passado assombroso do clã Bolsonaro




Livro detalha como o clã Bolsonaro montou um esquema de repasses de salários dos funcionários nos gabinetes

Livro da jornalista Juliana Dal Piva detalha os esquemas de enriquecimento ilícitos nos gabinetes do presidente e dos filhos

O passado assombra o futuro do presidente Jair Bolsonaro e de seus familiares. Esta é a conclusão da jornalista Juliana Dal Piva, autora do livro "O negócio do Jair - A história proibida do clã Bolsonaro" (Zahar, 2022),  que consolida os esquemas que ficaram conhecidos como "rachadinhas", segundo a autora, para enriquecimento do presidente e seus filhos Flávio, Eduardo e Carlos ao longo de sua trajetória política. 

De acordo com Dal Piva, a família atua em bloco: filhos e pai seriam uma coisa só.  "Tão importante quanto as provas reunidas para denunciar Flávio Bolsonaro pela prática ilegal da rachadinha e a lavagem de dinheiro foi constatar como diversos detalhes mostravam um aspecto de que Bolsonaro falava com frequência: seu gabinete e os dos três filhos eram uma coisa só", escreve Dal Piva. 

No capítulo final do livro, "O clã contra-ataca", ela faz considerações sobre as manobras empregadas pelo presidente para interferir nas investigações do caso, iniciadas pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, que foram anuladas pela incompetência de foro da primeira instância, mas que poderão a vir a ser novamente denunciadas pelo Ministério Público, sustenta a autora. 

Revelado ao final de 2018, o escândalo da "rachadinha" é o fio de um novelo que Juliana Dal Piva puxa para alcançar os anos 1990,  início da carreira  política de Jair Bolsonaro, ex-capitão do exército, desde os 33 anos na reserva remunerada, quando elegeu-se para a Câmara Municipal do Rio de Janeiro pela primeira vez. 

Em trabalho de investigação e pesquisa, sustentada em dezenas de entrevistas e ampla documentação, Dal Piva reconstrói o sistema organizado de desvio de verbas pública, apontando indícios de que remonta às primeiras disputas eleitorais de Jair Bolsonaro, com o envolvimento dos filhos, ex-mulheres, parentes,  amigos e milicianos. 

Depois de 811 dias de investigação - dois anos e dois meses -, os procuradores de Justiça do Rio de Janeiro denunciaram Flávio Bolsonaro em 4 de novembro de 2020. "Flávio Bolsonaro foi apontado como líder de uma quadrilha que exigia cerca de 90% dos salários de seus funcionários de gabinete", afirma Juliana Dal Piva. 

Dinheiro pagava despesas pessoais da família Bolsonaro

A denúncia em face do senador Flávio Bolsonaro, Fabrício José Carlos de Queiroz e outros 15 investigados, foi pela prática dos crimes de organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita, ocorridos entre os anos de 2007 e 2018, quando o senador fora deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

"Por uma mesada, essas pessoas sacavam e entregavam praticamente todo o salário a Fabrício Queiroz, subtenente da reserva da PM- RJ, ex-assessora de Flávio e amigo de longa data de Jair. Com dinheiro vivo, o primogênito do presidente pagava despesas pessoais, comprava imóveis e injetava esses recursos no caixa de uma loja de chocolates de sua propriedade em um shopping da Zona Oeste do Rio, para fazer lavagem de dinheiro", afirma Dal Piva. 

As provas reunidas na denúncia que segundo Dal Piva traçam o caminho do dinheiro desviado dos assessores empregados no gabinete da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro de Flávio Bolsonaro até o próprio parlamentar foram anuladas. Tal foi possível  a reboque da anulação das quebras de sigilo bancário no âmbito do Superior Tribunal de Justiça (STJ), depois de vitoriosa a tese de Flávio Bolsonaro junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) de que deva ser mantido o foro privilegiado de um parlamentar eleito senador. 

Reconhecido o foro especial de Flávio Bolsonaro, o inquérito foi retirado do juiz da primeira instância, Flávio Itabaiana. "Com as decisões do STF e do STJ, a investigação voltou à estaca zero. Não chegou a ser totalmente anulada, mas ficou com o revés de exigir que se produzisse de novo todas as provas financeiras que mostraram o caminho do dinheiro dos assessores até Flávio", escreve Dal Piva.  

A jornalista assinala que, embora pouco provável que ocorra antes do resultado das eleições de 2022, a Procuradoria Geral de Justiça (PGJ) do Rio de Janeiro poderá determinar novos atos para a apuração do caso, após o  arquivamento pelo órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro da primeira denúncia, o que ocorreu em 16 de maio de 2022. "A PGJ fluminense ficou com o caminho livre para retomar as investigações e um eventual novo pedido de quebra de sigilo de Flávio, Queiroz (Fabrício Queiroz, acusado de ser o operador do esquema) e dos demais envolvidos", afirma ela. 

Essa possibilidade, explicaria de acordo com a autora, as manifestações de preocupação de Jair Bolsonaro do que pode lhe acontecer se não for reeleito. "Tanto que tenta se cercar de todas as maneiras, proibindo acesso até a informações básicas da transparência como a de quem o visita no Planalto ou na Alvorada. Dados que eram públicos em governos anteriores agora possuem cem anos de sigilo", avalia Dal Piva.  A autora de "O negócio de Jair" conclui: "Jair Bolsonaro e seus filhos temem que as pessoas conheçam quem eles realmente são, sua vida e seus empreendimentos secretos. Mas a história proibida da família Bolsonaro não será apagada", garante a autora.

Estado de Minas

Liberdade de expressão absoluta expõe a sociedade ao despotismo dos mais ricos




Vocês podem achar que todo mundo ficou bonzinho e afeito a liberdades. Quanto a mim, noto que o povo perdeu o poder de proibir a divulgação de ideias infames no momento em que a comunicação de massa centralizada se tornou um fato estabelecido. 

Por Bruna Frascolla (foto)

Como vimos, em Contra Toda Censura, Gustavo Maultasch defende que o estado de coisas vigente nos EUA relativo à liberdade de expressão é a realização de uma lei moral universal e apriorística (ou seja, independente da experiência). Só nos EUA se realizou uma dimensão existencial da humanidade: da Grécia de Sócrates à França de Descartes, da Roma de Cícero à Inglaterra de Newton, do Egito Antigo à China de Confúcio, a humanidade não tinha adquirido uma liberdade fundamental que é seu direito. Afinal, a existência dos EUA é um piscar de olhos na história não só da humanidade, como do próprio Ocidente. Ainda assim, a essa lista de trevas é preciso acrescentar os Estados Unidos de Thomas Jefferson. Pois, como explica Gustavo Maultasch, o estado de coisas nos EUA não é uma pura decorrência da Primeira Emenda, mas sim de uma interpretação particular que só se consolidou no século XX. Interpretação feita em 1919 por um juiz progressista da Suprema Corte, Oliver Wendell Holmes Jr. (1841 – 1935). Foi ele quem decidiu que só se deve limitar a liberdade de expressão em caso de risco iminente, dando como exemplo a proibição de gritar “fogo!” no teatro quando não há incêndio. Nesse caso, uma multidão em pânico causaria mortes com pisoteamento.

“Quem adjudica?”

Uma grande objeção pragmática de Gustavo Maultasch à censura é perguntar: “Quem adjudica?” Antes de proibir um discurso, é preciso decidir que o discurso é ruim. Quem decide? Na minha opinião, o povo, por meio de seus representantes eleitos. Ganhar eleições e passar leis sobre temas sensíveis não é nada fácil, de modo que não há razões para temer um furor censório do Legislativo. Aliás, um dos problemas da democracia apontados por Hayek em O caminho da servidão (1944) é justo sua aparência de lentidão: como o Parlamento sempre gasta muito tempo discutindo e negociando, fica fácil passar a impressão de que um homem forte poderia resolver todos os problemas sozinho – ainda mais numa época como a da II Guerra, em que quase todo letrado era dirigista.

O problema a seguir é, quando se proíbe algo como “discurso de ódio”, saber quem vai decidir o que é odioso. De fato, é um problema real. E, creio, é um problema recente. Porque o Brasil pré-progressismo proíbe uma doutrina particular, a saber, o racismo, que considera que a humanidade se divide em raças e algumas são superiores a outras. A Inquisição, que remonta à Idade Média, não proibia discurso de ódio nem coisas que causam dano, mas sim doutrinas particulares, as heresias. (Inclusive o racismo decorre da heresia do pré-adamitismo, ou, em sua versão leiga, a hipótese da poligenia humana.) Censura subjetivista em tempos de paz, ao menos na história do Direito ocidental, é novidade.

Como Maultasch aponta, outro tipo de demanda por censura apela à noção de dano, que foi muito usada na pandemia. Numa reductio ad absurdum, lista uma série de coisas que causam ou podem causar dano, mas não se pensa em proibir, tais como alpinismo (é perigoso) e refrigerantes (não são saudáveis).

Não obstante, ele ainda assim admite que “mesmo os mais absolutistas dos defensores da Liberdade de Expressão admitem […] que há exceções” (p. 67). Por isso, é forçoso concluir que alguém adjudica. Quem adjudicou, no frigir dos ovos, foi Oliver Wendell Holmes. E a limitação segue o princípio do dano, mas matizado: seria o do dano iminente. No caso de um teatro pegando fogo, o dano é iminente. De todo modo, poderíamos perguntar quem determina se o dano é iminente ou não. Aí a coisa se complica ainda mais, porque uma fundamentação desse raciocínio está em outra decisão, esta do juiz Louis Brandeis (1856 – 1941) em 1927, referindo-se à panfletagem de comunistas: “Se houver tempo para expor, pela discussão, a falsidade e as falácias, para reverter o mal pelo processo de educação, o remédio a ser aplicado é mais discurso, não o silêncio forçado” (p. 75). No caso do teatro, claramente não haveria tempo hábil de impedir o pisoteamento pela palavra. O discurso comunista deveria ser proibido em 1927 porque em 1927 não havia risco de causar dano iminente: os EUA não estavam à beira de uma revolução comunista. Ou ao menos assim adjudicou o juiz Brandeis.

Do princípio do dano ao coitadismo

Dá para brincar muito com esse tipo de proibição. Se os psicólogos sociais creem que a série da Netflix 13 Reasons Why aumentou a taxa de suicídio entre adolescentes, então pode-se dizer que não houve tempo hábil para demovê-los. Como há muito se sabe que o suicídio é um fenômeno social contagioso, os jornais e a TV têm uma série de boas práticas a serem seguidas. Mas não são codificadas como leis, e o mero constrangimento social costuma bastar para que sejam seguidas. Ainda assim, como mostra a Netflix, não são seguidas sempre. Para garantir isso, não basta nem criminalizar, já que a censura viria após o dano causado. Com o princípio do dano, legitimam-se comitês de censura prévia.

Nós vemos, hoje, censura prévia. As editoras já contratam um “leitor sensível” para, dotado de suas credenciais de oprimido, vasculhar obras literárias e ver se sente algum dano causado pelas palavras. Torturando direitinho os números, dá para dizer que morrem “negros” (pretos + pardos) demais, o que é uma prova da opressão sistêmica causada pelo racismo estrutural. O seu livro que usa a palavra “criado mudo” é parte do racismo sistêmico, de modo que precisa ser censurado para impedir o dano causado aos negros.

Já o movimento trans usa direto a cartada do suicídio. Antes do contágio social da disforia de gênero, transexuais já tinham uma alta taxa de suicídio. Como mostrou Abigail Shrier em Irreversible Damage, os profissionais de saúde ativistas usavam essa estatística para chantagear pais dizendo que, caso não aceitassem a mudança de sexo dos filhos, eles provavelmente iriam se matar. Hoje, o próprio Estado já faz esse papel e nem deixa os pais decidirem. (Veja-se artigo da mesma autora nesta Gazeta.)

Quem adjudica o dano imediato?

Dado histórico relevante

A acreditarmos em Maultasch, Oliver Wendell Holmes foi um iluminado cuja decisão coincidiu com uma lei moral absoluta pela primeira vez na história da humanidade. Ele teria passado por um processo de iluminação, pois uma decisão dele anterior era contrária à Liberdade de Expressão quase absoluta defendida por Maultasch. A saber: na mesma ocasião em que criou o exemplo de gritar “fogo” num teatro, “Holmes julgou que os panfletos [comunistas] de Schenk configurariam sim esse perigo; em meio a uma guerra, obstruir esforços de alistamento seria análogo a gritar ‘fogo!’ em um teatro lotado, em sua interpretação.” A decisão é de 1919. No mesmo ano, Holmes, após correspondência com o cientista político Harold Laski (talvez o marxista inglês mais famoso da primeira metade do século XX), dá uma outra decisão liberando a panfletagem socialista e defendendo o caráter experimental da democracia.

Ele simplesmente mudou de ideia? Eu prefiro continuar com a cronologia, e citar o caso mais espúrio da Suprema Corte dos EUA: em 1927, no furor do movimento eugenista, o estado da Virgínia criou uma lei de esterilização e o pessoal do hospital quis esterilizar certa Carrie Buck alegando que ela era débil mental. (No fim das contas, não era; era só uma redneck pobre.) Holmes decidiu que “três gerações de idiotas eram o suficiente” e ela foi esterilizada com base numa lei de vacinação compulsória. A votação foi de 8 a 1 na Suprema Corte. O único dissidente, o juiz Pierce Butler, era um católico.

Recuemos na cronologia. Em 1919 os EUA viviam a Progressive Era. Estavam sob os auspícios do movimento intelectual que implementou o racismo de Estado, a eugenia e o controle de natalidade. (Uma boa obra para se inteirar do período é Liberal Fascism, de Jonah Goldberg. Saiu em português com o título de Fascismo de esquerda e eu comentei nesta Gazeta.)

Em 1919, o presidente era o cientista político Woodrow Wilson. Ele colocara os EUA na I Guerra Mundial após se eleger prometendo não entrar na guerra. Durante a Guerra, criou o primeiro departamento de propaganda estatal, o Committee on Public Information (CPI), que tinha todas as características de um Estado totalitário. O ministro Göbbels é um imitador do ministro Creel. Os nazistas alemães imitaram os progressistas americanos nisso e nos tribunais de esterilização, no mínimo.

Em 1917, a Rússia passou pela Revolução Comunista. A I Guerra acabou em 1918. Embora tenha sido julgado em 1919, o caso Schenk ainda ocorreu em época de guerra, portanto considerava-se que havia “dano iminente”. Em 1919, os réus eram imigrantes russos, comunistas e anarquistas, que publicavam escritos contra a invasão da Rússia pelos EUA – invasão que de fato não ocorreu. Holmes pode perfeitamente ter considerado que esta não era uma opinião danosa.

Como diz Maultasch, a concepção dele de “Liberdade de Expressão” demorou a valer: “Aos poucos, a Suprema Corte foi se distanciando do medo geral do ‘pavor vermelho’, e assim começou a proteger a Liberdade de Expressão mesmo daqueles que defendiam ideologias autoritárias” (p. 76). Na década de 30, estava liberado defender comunismo. A década de 30 é justo a era do rádio nos EUA.

Liberdade instrumental

Vocês podem achar que todo mundo ficou bonzinho e afeito a liberdades. Quanto a mim, noto que o povo perdeu o poder de proibir a divulgação de ideias infames no momento em que a comunicação de massa centralizada se tornou um fato estabelecido. Cada lar passou a ter uma máquina falante. Do outro lado da máquina estava um punhado de gente que tinha posto muito dinheiro naquilo.

Nos anos 40, o aborto era uma ideia infame nos EUA até mesmo para os vanguardistas adeptos da pílula. Outro dia vi um seriado americano de 2017 com uma cena assim: um casal de meia idade e de classe média descobre uma gravidez improvável e discute com naturalidade se vão mesmo ter a criança, por causa dos custos. É evidente que uma mudança de mentalidade foi efetuada. Foi espontânea ou foi fruto de propaganda? Seja como for, o STF de lá já tinha decidido que não se poderia criminalizar a apologia do aborto. Enquanto isso, instituições como a Planned Parenthood seguiam fazendo dinheiro, e os ativistas judiciais, de caneta na mão, se movem no Brasil para passar o infanticídio de fetos de sete meses. Assim como se moveram para descriminalizar o racismo e implementar o racismo de Estado em 2012.

Então ficamos assim: uma meia dúzia de bilionários botam dinheiro em suas ONGs, tais como a Fundação Ford, a Open Society e a Planned Parenthood. Essas ONGs e esses bilionários podem botar propaganda o dia inteiro na nossa cara e nós não podemos fazer nada, porque isso contraria um princípio apriorístico no qual meia dúzia de libertário acredita. Acha ruim? Ganhe bilhões e faça a sua própria ONG!

Isso não é democracia. Isso é o despotismo de um conluio de bilionários com o judiciário que se esconde debaixo das formalidades que as democracias costumavam ter.

Gazeta do Povo (PR)

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