quarta-feira, junho 22, 2022

Venezuela: 5 sinais de recuperação — com limites — da economia da Venezuela




A dolarização deu maior estabilidade à economia

Por Ángel Bermúdez

"Venezuela foi consertada" é uma frase que circula há meses nas redes sociais, mas que gera polêmica dentro e fora do país sul-americano.

Muitos dizem isso com forte carga de ironia, e outros veem mudanças nos últimos anos que apontam para melhorias em alguns dos graves problemas econômicos do país.

Alguns atribuem a frase a uma suposta estratégia do governo do presidente Nicolás Maduro de projetar uma imagem mais favorável. O presidente venezuelano, no entanto, não endossou essa declaração, embora tente ganhar crédito com as recentes mudanças.

"A Venezuela hoje pode dizer que merece o Prêmio Nobel de Economia porque avançamos sozinhos, humildemente sozinhos, com a agenda econômica bolivariana", disse Maduro no final de março.

Um mês depois, ele fez referência direta à frase. "Algumas pessoas começaram a dizer que 'a Venezuela foi consertada'. Não, não foi consertada. Está melhorando, a Venezuela vai melhorar, crescer, mas ainda há muito a ser feito", disse ele em um evento com empresários, de acordo com relatos da imprensa local.

'Maduro afirmou que a Venezuela merece o Prêmio Nobel de Economia'

Luis Vicente León, presidente da consultoria Datanalisis, diz que a percepção de melhora depende do ponto de comparação e que os venezuelanos vêm de uma "macrocrise", iniciada em 2018, com "hiperinflação brutal" e escassez de alimentos e medicamentos, e com longas filas e preços muitas vezes acima dos internacionais. Além disso, as pessoas podiam ir para a cadeia na Venezuela se realizassem operações com dólares.

"Então, quando você compara [hoje] com 2018, não há dúvida de que a situação está melhor", diz León, que alerta, no entanto, que entre 2013 e 2021 a economia venezuelana se contraiu 75% e que no ano passado houve crescimento entre 6% e 8%.

"É como um avião que estava voando a 10 mil pés e começou a despencar e antes de atingir o solo consegue levantar o nariz e agora está voando a 2,5 mil pés. Não caiu, mas está muito longe de sua altitude inicial."

O efeito dessa longa crise se reflete na vida cotidiana dos venezuelanos, como mostra o estudo Encovi sobre condições de vida dos venezuelanos realizado em 2021 pela Universidade Católica Andrés Bello. A pesquisa revela que 24,8% dos venezuelanos estão em situação de extrema pobreza e que 60% da população vive com insegurança alimentar moderada a grave.

Isso não significa que não houve mudanças ou melhorias. Mas abaixo explicamos as causas dessa recuperação. Antes, apresentamos 5 sinais que indicam as mudanças nas condições econômicas do país.

1. Fim da hiperinflação

Em janeiro de 2022, o Banco Central da Venezuela anunciou que o país havia completado 12 meses consecutivos com inflação abaixo de 50%, em contraste com a espiral hiperinflacionária na qual vinha desde 2017.

'A hiperinflação fez com que o bolívar venezuelano perdesse tanto valor que suas notas acabaram sendo usadas para fins decorativos'.

Isso foi confirmado logo depois, em março, quando a Venezuela teve inflação mensal de 1,4% — a menor registrada desde setembro de 2012.

Em abril, última data disponível, a inflação mensal subiu para 4,4%, mas ainda está bem abaixo dos 24,6% registrados em abril de 2021.

2. Aumento da produção de petróleo

A produção de petróleo da Venezuela atingiu o pico de mais de três milhões de barris por dia em 1998, e depois começou um lento declínio sob Hugo Chávez que acelerou sob Maduro.

'Em 2020, a produção de petróleo na Venezuela caiu para os níveis de meados do século 20'

Em janeiro de 2019, a Venezuela extraía apenas 1.106.000 barris por dia — uma queda de dois terços na produção em 20 anos.

Foi então que o governo dos EUA decidiu sancionar a indústria petrolífera venezuelana. A produção de petróleo bruto caiu para níveis de meados do século 20, registrando uma extração de apenas 434 mil barris por dia em novembro de 2020.

No entanto, no último semestre de 2021, a produção de petróleo bruto — principal fonte de riqueza do Estado — começou a aumentar até atingir cerca de 718 mil barris por dia em dezembro. Desde então a produção se mantém ligeiramente abaixo dos 700 mil barris.

Esse número é bem pequeno para um país que se orgulha de ter as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, mas é quase o dobro do registrado durante a queda histórica em 2020.

3. Previsões de crescimento econômico

Entre especialistas, há um consenso quase unânime sobre a possibilidade de a economia venezuelana continuar a crescer em 2022.

'Um relatório do Credit Suisse projetou um crescimento econômico de 20% para a Venezuela'

As estimativas variam bastante. O Fundo Monetário Internacional projeta um crescimento de 1,5% para a Venezuela em 2022, enquanto um relatório do banco Credit Suisse citado pela agência Reuters estima o aumento do PIB venezuelano em 20%.

Asdrúbal Oliveros, diretor da Ecoanalítica, destaca que sua consultoria espera que o PIB cresça 8% — e que o consumo privado cresça 12%.

"Isso tem que ser entendido no contexto de um PIB que encolheu 80%, então estamos falando de uma economia que está no buraco, que caiu muito. Isso torna perfeitamente possível crescer a essa taxa porque estamos crescendo 8% acima de 20 e não acima de 100, que é onde estávamos em 2013. Para colocar em termos numéricos: 8% de 20 é apenas 1,6, então você está indo de 20% para 21,6% em relação ao seu ponto de partida que é 100", explica o especialista à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC).

Também analisa que esse crescimento está muito focado em setores como comércio, tecnologia, indústrias de alimentos e saúde, enquanto outros como manufatura, construção, bancos e seguros continuam sendo altamente afetados.

Ele alerta que o crescimento não é espalhado por todo o país e está concentrado em Caracas e algumas outras cidades.

"Também é um crescimento desigual, porque na Venezuela a distância entre quem tem acesso a bens e pode cobrir todas as suas necessidades e quem não tem é muito grande."

4. Melhorias no suprimento de produtos

Nos últimos anos, a escassez de produtos na Venezuela ficou famosa no mundo todo.

Da intermitente falta de produtos básicos — como leite, papel higiênico ou farinha de milho para fazer as típicas arepas — a Venezuela passou para uma escassez geral de todos os tipos, incluindo medicamentos essenciais e até gasolina.

'Venezuelanos tiveram muitos problemas de abastecimento nos últimos anos'

Atualmente, as imagens das longas filas de venezuelanos esperando para poder comprar produtos básicos sumiram — com uma importante exceção no caso da gasolina, que ainda exige filas de quem quer comprá-la a preços subsidiados.

"Hoje você não faz fila no supermercado para comprar leite. Hoje você tem oferta praticamente cheia. O problema agora são os preços", diz León.

Oliveros concorda e destaca que o índice de escassez de alimentos elaborado pela Econanalítica mostra uma redução muito significativa, que passou de 80% em 2016-2017 para 15-20% hoje.

No entanto, venezuelanos de baixa renda seguem com problemas de abastecimento.

Segundo Oliveros, um estudo realizado em janeiro mostra que cerca de 50% da população venezuelana ganha menos de US$ 100 por mês, enquanto outros 30% recebem entre US$ 100 e US$ 300.

"Com esses níveis, fica claro que a capacidade das pessoas de se alimentarem adequadamente é extremamente limitada, pois a cesta básica gira em torno de US$ 350 por mês", explica.

5. O retorno das companhias aéreas e artistas internacionais

Depois de uma ausência que durou anos, muitas companhias aéreas internacionais e artistas estrangeiros (ou venezuelanos residentes no exterior) estão retornando à Venezuela.

Oliveros diz que não tem conhecimento de nenhuma literatura econômica que use esses elementos como indicadores de crescimento econômico. No entanto, ambos foram fortemente incorporados ao debate em torno da frase "A Venezuela foi consertada".

'A Air Europa é uma das poucas companhias aéreas internacionais que voa para a Venezuela'

O desastre econômico vivido pela Venezuela nos últimos anos levou a uma redução maciça do número de companhias aéreas internacionais que operam no país — cujo número diminuiu de 25 para 5 entre 2014 e 2022.

Muitas dessas empresas decidiram deixar o mercado venezuelano por não conseguiram que o governo pagasse uma dívida estimada em cerca de US$ 3,3 bilhões, derivada da venda de passagens aéreas em bolívares a um preço subsidiado pelo Estado através do controle cambial.

No entanto, declarações recentes à imprensa do presidente da Associação de Companhias Aéreas da Venezuela, Humberto Figueras, indicam que pelo menos oito companhias aéreas internacionais iniciaram sondagens para voltar a operar na Venezuela.

No caso da visita de artistas internacionais ao país, seus shows começaram a ser reduzidos por volta de 2014 — em princípio por razões políticas, já que artistas, como o espanhol Alejandro Sanz, criticavam a repressão de Maduro aos protestos contra seu governo. Em 2017, os shows pararam por motivos econômicos.

Nos últimos meses, no entanto, houve um retorno perceptível de artistas internacionais (e artistas locais, mas residentes no exterior) aos palcos venezuelanos.

Entre os grupos e cantores que se apresentaram no país estão a banda colombiana Morat, os cantores mexicanos Emmanuel e Christian Castro e o cantor e compositor colombiano Fonseca, que há uma década não visitava a Venezuela.

'O mexicano Emmanuel é um dos primeiros artistas a cantar novamente na Venezuela'

Entre os artistas que têm shows programados na Venezuela estão a dupla Sin Bandera, a cantora porto-riquenha Olga Tañón, o cantor venezuelano José Luis Rodríguez "El Puma" e o roqueiro argentino Fito Páez.

O produtor musical José Luis Ventura disse à BBC News Mundo que a dolarização da economia tem sido fundamental para o retorno de artistas internacionais à Venezuela, porque esses artistas são pagos em moeda estrangeira.

Ele acrescentou que o custo estimado dos ingressos para esse tipo de espetáculo varia entre US$ 30 e US$ 200.

Mas como é possível que em um país onde o salário mínimo gira em torno de US$ 30, as pessoas possam pagar por esses shows e, em alguns casos, lotar os locais onde são realizados?

"Acho que todos nós entendemos que trabalhamos para um setor que ainda tem poder aquisitivo. É um setor pequeno, não sei se de 5% da população, mas que está dando certo", responde Ventura.

As razões da recuperação econômica e seus limites

Asdrúbal Oliveros destaca que há três fatores que explicam a melhora da economia: o fim das políticas "draconianas" de controle cambial e de preços, a dolarização da economia e a abertura às importações.

Estas medidas permitiram ao setor privado operar em melhores condições, sabendo que poderia ajustar os seus custos e garantir rentabilidade. Ao mesmo tempo, graças à dolarização, o setor pode fixar os seus preços em dólar e chegar a acordos estáveis com fornecedores.

'Quedas frequentes de energia na Venezuela são um obstáculo à recuperação econômica'

No entanto, tanto Oliveros quanto León concordam que essa recuperação incipiente da economia venezuelana é muito limitada — "uma recuperação em segundo plano", como descreve Oliveros — e que será difícil levá-la adiante se outras mudanças importantes não ocorrerem.

Uma taxa de crescimento como a atual — de 6% a 8% — é insuficiente para que a economia venezuelana tenha uma recuperação completa.

"Com uma queda de 75% no PIB, é preciso crescer 400% para se recuperar os níveis de 2013. Você estava em 100 e caiu para 25, então, para voltar a 100 você teria que quadruplicar, mas o crescimento foi de 6% a 8%. Nesse ritmo, você precisaria de décadas para poder voltar ao patamar de 2013", diz León.

Ambos apontam que esse ritmo de crescimento mais alto exige infraestrutura que permita o fornecimento de energia elétrica, água e todos os tipos de serviços necessários para investimentos — e que o governo não tem condições de fornecer isso.

"A Venezuela não tem acesso a financiamento. É um elemento muito importante. Nem financiamento público nem privado. O grande problema das empresas venezuelanas é a falta de crédito. Além disso, você tem um colapso do Estado e um colapso do poder público, o que se reflete em uma queda significativa na capacidade de produção. O caso mais emblemático é a falta de energia elétrica. Sem energia elétrica, é muito difícil a indústria conseguir crescer", diz Oliveros.

O especialista acredita que o crescimento necessário não pode ser alcançado sem uma reforma profunda e sem a construção de um acordo político que permita à Venezuela ter acesso ao financiamento de organismos multilaterais. Com isso, poderia haver uma recuperação econômica da Venezuela entre 8 e 10 anos.

"Não podemos ter acesso ao Fundo Monetário, nem ao Banco Mundial e seu apoio — que é essencial para um programa de estabilização e reconstrução. Não teremos isso até que a questão política seja resolvida", diz ele, mencionando também sanções econômicas contra a Venezuela.

Governo e oposição estão em desacordo há anos. Muitos países sequer reconhecem Maduro como presidente.

Mas o que acontecerá com a economia venezuelana se não houver um acordo político?

"Se as condições não mudarem significativamente, a Venezuela pode demorar entre 40 ou 50 anos para se recuperar. Não vai seguir caindo, mas também não vai crescer. Ficará estagnada e esse é o perigo que vemos para o futuro", conclui Oliveros.

BBC Brasil

Novo chefe do Exército Britânico: Devemos estar prontos para "lutar mais uma vez na Europa"




O novo chefe do Exército Britânico advertiu os soldados que eles devem se preparar "para lutar mais uma vez na Europa", comentários que adquire um novo significado à medida que a guerra da Rússia contra a Ucrânia continua brutalmente.

O general Sir Patrick Sanders, que começou na segunda-feira na liderança do Exército Britânico, dirigiu-se às tropas e funcionários públicos pela primeira vez em uma mensagem interna na quinta-feira passada.

No rallying cry, publicado pela BBC, o comandante disse: "A invasão russa da Ucrânia sublinha nosso propósito central de proteger o Reino Unido, estando pronto para lutar e vencer guerras em terra. Existe agora um imperativo ardente para forjar um exército capaz de lutar ao lado de nossos aliados e derrotar a Rússia em batalha".

Ele acrescentou: "Somos a geração que deve preparar o Exército para lutar mais uma vez na Europa".

Sanders observou em sua mensagem que ele é o primeiro chefe do Estado-Maior, desde 1941, a "assumir o comando do Exército na sombra de uma guerra terrestre na Europa, envolvendo uma grande potência continental".

Ele estabeleceu objetivos, incluindo a mobilização e modernização do exército, numa tentativa de impulsionar a defesa da OTAN e de "negar à Rússia a chance de ocupar qualquer outra parte da Europa".

Sanders está liderando o menor exército que a Grã-Bretanha teve  durante mais de 300 anos, um período de tempo que se estende através da Guerra Fria até o reinado ingles como uma potência colonial global. Em março, dados do Ministério da Defesa mostraram que entre outubro de 2021 e janeiro de 2022, o número de soldados nas Forças Armadas do Reino Unido caiu em 1.800 - para pouco mais de 197.000.

Mais tarde naquele mês, o Secretário de Defesa Ben Wallace anunciou uma visão futura para o exército britânico, que incluía £3 bilhões (cerca de $3.7B) a serem gastos em novos sistemas de foguetes de longo alcance e defesas anti-aéreas, bem como £120 milhões (cerca de $147M) para a criação de novos Regimentos de Ranger.

O Primeiro Ministro Boris Johnson encontrou-se com o Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky em Kiev na sexta-feira - em sua segunda visita surpresa desde que a invasão da Rússia começou em 24 de fevereiro.

"Foi incrivelmente emocionante caminhar pelas ruas de Kiev com você mais uma vez, prestar homenagem a seus soldados caídos, cujo sacrifício, coragem inconquistável e bravura jamais esqueceremos", disse Johnson.

DefesaNet

Do aborto à Petrobras, a ética do fato consumado.




Já passou da hora de levar em conta que o mundo não está amigável à abertura comercial, e que o mercado em vigência está muito longe do livre mercado. 

Por Bruna Frascolla (foto)

O progressismo tem uma doença moral muito característica: usar “fato consumado” como regra moral, ao mesmo tempo em que se empenha em consumar mais uns fatos do que outros. De minha parte, na discussão do aborto, sempre me chamou a atenção que a argumentação “pró-escolha” mais comum é, ao mesmo tempo, a pior de todas: alega-se que as mulheres abortam, então têm que ter o direito de abortar. Não é uma obviedade ululante que esse raciocínio embasa a descriminalização do homicídio? Ora, os homens se matam uns aos outros muito antes de as mulheres aprenderem a abortar. O CFM defende há anos a descriminalização por meio de um argumento filosófico baseado em biologia, qual seja: a capacidade de sentir dor deve ser o marco do início da vida humana, e o aborto deve ser permitido antes que o ser vivo passe desse estado como que vegetativo à condição sensível. 

Daí vem o prazo de 12 meses (que no entanto pode ser questionado por uma via científica). De uma maneira consistente, quem defendia o aborto até três meses costumava defender eutanásia daqueles que estavam reduzidos ao estado vegetativo, sem possibilidade de retorno à vida consciente. Desligar os aparelhos de quem teve morte cerebral não é crime, mas é assassinato fazer o mesmo com quem tem possibilidades de retornar à consciência. Em pleno 2022, com um leque de possibilidades teóricas para defender a descriminalização do aborto, a Folha de S. Paulo fez um editorial apelando à moral do fato consumado: "A despeito da proibição legal, centenas de milhares de abortamentos são cometidos todos os anos no país. Ocorrem em residências ou em clínicas clandestinas, onde a falta de estrutura e orientação adequada fere e mata sobretudo as mulheres de baixa renda. Deveriam todas ficar de 1 a 3 anos em detenção? Ou deveriam ser assistidas por profissionais que garantissem a maior segurança diante dessa intervenção extrema nas primeiras semanas da gravidez? Os países avançados optam pelo segundo caminho. Aos poucos, nações da América Latina se movimentam na mesma direção, como atestam os exemplos de Argentina, Colômbia e México. O Brasil, por sua vez, parou no tempo".

Moral do fundo do poço

O progressismo usa da ética do fato consumado em todas as questões que aborda. O racismo é um fato consumado, então seria anticientífico querer abolir a categorização racial da vida social. O estupro de mulheres por homens é um fato consumado, então o mundo jurídico deveria considerar de antemão os homens como culpados quando as mulheres alegam que foram estupradas. Os gays só podem reivindicar alguma aceitação social e proteção patrimonial para suas relações caso se admita que toda orientação sexual seja inata. Na questão trans, é preciso alegar que os médicos cometem erros ao dizerem que um bebê é menina só porque nasceu com vagina. O gênero também seria inato, como a sexualidade, e o correto seria esperar a sua manifestação.

Tudo se passa como se os fatos do presente e do futuro fossem inexoráveis, e como se opinião da sociedade não tivesse nenhuma relação com fatos. Na prática, os progressistas fomentam o aborto e o racismo, transformam-nos em fatos, e depois chamam de anticientíficos ou negacionistas quem ouse alçar um pouquinho as vistas e pretenda melhorar o estado de coisas.

No caso do aborto em particular, vemos uma coerência macabra. De fato, se os defensores aderissem à argumentação do CFM, teriam de ser contra o aborto tardio, que é a mais nova pauta imposta pelos progressistas via judiciário, exportando a Roe x Wade. E de fato quem defende o aborto defende a retirada das forças do Estado das áreas pobres – tal como na decisão de Fachin que impede a polícia de subir os morros cariocas. Essas áreas de pobre são como que reservas para a livre prática de homicídios e de toda sorte de crimes. Nelas, vale a lei do mais forte ou a survival of the fittest – expressão usada pelos darwinistas sociais que na verdade é de Spencer. Na certa os pobres mais fracos têm menos chances de viver e de se reproduzir nessas reservas do crime criadas pelo progressismo. Dada a coerência da agenda, dado o seu inegável neomalthusianismo e dado o fato de que o Ocidente rico está cada vez mais maluco (pense no surto de drag queens interagindo com crianças ou na aceitação social da castração química de menores), é de se perguntar se não é de caso pensado.

A voz da Ciência econômica

A ética do fato consumado pode ser transposta para a economia. E o chilique de parte da direita contra Bolsonaro na questão dos preços da Petrobras repete o mesmo percurso do progressismo. A Ciência diz que em preço não se mexe. A alta do petróleo é um fato consumado. A Petrobras, portanto, deve seguir a Ciência e jogar o preço lá para cima. Aliás, a Ciência diz que estatal não funciona, então o certo é vender a Petrobras. Quem discorda é ignorante.

Tudo se passa como se no mercado não houvesse interferências políticas capazes de gerar impactos internos, e a Ciência nos mandasse olhar passivamente a tudo. Assim, um bom homem ilustrado, científico, é obrigado a condenar a interferência governamental sobre os preços da estatal Petrobras.

Eu, que sou mais humilde do que esse pessoal, me dei ao trabalho de ouvir o pronunciamento de Bolsonaro sobre o tema no dia 16 deste mês. Ele alega que a Petrobras não está obrigada a aumentar os preços tão logo haja aumento no exterior; poderia, em vez de repassar um grande aumento súbito, esperar meses, acompanhar as oscilações e fazer um aumento só da média. Para ele e para a equipe econômica, o lucro bilionário da empresa não é uma boa coisa. O Conselho da Petrobras é que parece mais interessado em dar o maior lucro possível aos acionistas minoritários.

A condição limítrofe da Petrobras é complicada. O interesse dos acionistas minoritários é o maior lucro possível; o do majoritário – o Brasil – é o de fazer com que a empresa forneça energia ao país pelo menor preço possível. Por menor preço possível entenda-se o preço capaz de garantir a saúde financeira da instituição, deixando-a longe dos prejuízos e com caixa suficiente para investir em inovação. Isso é bem diferente do congelamento de preços imposto por Dilma à Eletrobras, que a deixou no prejuízo.

Mas é de bom tom, agora, empinar o nariz e, com muita “prudência e sofisticação”, dizer que controle de preços é anticientífico. Como se o Conselho da Petrobras fosse incorruptível. Como se o Conselho fosse superior à política. Como se segurar preço reduzindo a margem de lucro de uma estatal fosse a mesma coisa que o Plano Cruzado ou a gestão de Dilma. De quebra, falar mal de Bolsonaro é chique no úrtimo, o pessoal na Europa adora.

“Arrá, é por isso que tem que privatizar!”

Digamos que haja corrupção no Conselho de nossa estatal, que os acionistas minoritários o tenham comprado e que um grupo contrário aos interesses do Brasil use O Globo como assessor de imprensa. Nesse caso, haveria uma combinação entre corrupção e politicagem impedindo que a estatal fosse gerida conforme os nossos interesses. A imprensa comum não se mobilizaria para investigar corrupção nenhuma; o brasileiro pagaria a gasolina mais cara possível para levar lucro aos fundos de pensão internacionais.

Toda vez que uma empresa pública é usada contra os interesses do país, o discurso da moda crava: “É por isso que tem que privatizar!”. Será? Deixemos de lado o fato de a corrupção existir nos meios público e privado, e de se reinventar à medida que se inventem mecanismos para coibi-la. O fim da corrupção não é uma perspectiva sensata. Se a cada vez que se pegar um caso de corrupção no Estado se inferir que não deveria existir o órgão estatal, chegaremos à utopia do WEF, em que o Estado deve ser um tímido prestador de serviços, que podem muito bem ser terceirizados.

Deixemos de lado isso e notemos o elefante na sala: a atipia que vive o setor energético no mundo. Em primeiro lugar, há as sanções impostas à Rússia, que é uma grande fornecedora de energia para a Europa. Se o petróleo russo está sob sanção, só isso já basta para jogar os preços para cima.

Quanto aos EUA, Biden pôs uma porção de ambientalista maluco tomando conta da energia e tem sabotado a indústria nacional de petróleo e gás com base em ambientalismo. Alinhado com isso, o CEO Larry Fink, da BlackRock, vem usando os votos das ações sob sua custódia para impedir o financiamento de petroleiras, também com base na agenda verde dos neomalthusianos. A combinação ESG + EUA tem manipulado o mercado para impedir o investimento em combustíveis fósseis e, por conseguinte, encarecer o produto. Dado o neomalthusianismo dessa turma, é plausível que tenham em vista a inflação como um mecanismo para reduzir as famílias.

Particularmente, acho que demandaria mais atenção da parte dos analistas a opção do governo Biden por comprar petróleo da Venezuela em substituição do nacional e do russo. A única explicação que tenho em mente é a possibilidade de comprá-lo provisoriamente para acalmar o eleitorado durante as eleições de meio mandato e depois parar. Porque não dá para deixar as petroleiras americanas voltarem a trabalhar num curto prazo e sem perspectiva de investimento, mas dá para comprar dos venezuelanos no curto prazo e voltar depois. Seja como for, o mero fato de a produção nacional dos EUA cair serve, como as sanções à Rússia, para fazer o preço do petróleo subir.

Uma PPP intervencionista global

Seja como for, fato é que há uma parceria público-privada interferindo no preço do petróleo mundo afora. O liberal ingênuo pode se defender dizendo que aí não é livre mercado e a culpa é dos intervencionistas. De acordo. Mas o marxista também tem um plano brilhante para fazer tudo funcionar, e também pode apontar um culpado para seu plano ter falhado. Gente séria não se deslumbra com ideologia. Já passou da hora de levar em conta que o mundo não está amigável à abertura comercial, e que o mercado em vigência está muito longe do livre mercado.

Achar que o Brasil deve ser um expectador passivo das “leis de mercado” é de um simplismo constrangedor.

Gazeta do Povo (PR)

Populismo faz mal para a direita




Jair Bolsonaro vai ficando isolado na América Latina e nas Américas, à medida que candidatos de esquerda derrotam a direita populista e essa polarização empurra a centro-direita para fora do jogo. 

Por Fernando Dantas 

O presidente Jair Bolsonaro está ficando crescentemente isolado no contexto latino-americano e mesmo das Américas como um todo.

Nos mais importantes países da América Latina, candidatos de esquerda têm batido nas urnas a direita.

São os casos das vitórias de Andrés Manuel López Obrador sobre Ricardo Anaya e outros no México em julho de 2018, de Alberto Fernandez sobre Mauricio Macri na Argentina em outubro de 2019, de Pedro Castillo sobre Keiko Fujimori no Peru em abril de 2021, de Gabriel Boric sobre José Antonio Kast no Chile em dezembro de 2021 e, nesse último domingo, de Gustavo Petro sobre Rodolfo Hernández na Colômbia.

Esses cinco países, com 277 milhões de habitantes, representam 42,5% da população da América Latina e do Caribe. Se o favorito Lula derrotar Bolsonaro em outubro deste ano, em quatro anos a esquerda terá derrotado a direita em países latino-americanos correspondentes a 75% da população da região, incluindo o Caribe.

E essa conta não leva em conta países menores em que a esquerda está no poder pelo voto, como a Bolívia, nem ditaduras de esquerda como Cuba, Venezuela e Nicarágua.

Também não está considerado que nos dois vizinhos ricos da América do Norte, Estados Unidos e Canadá, com um total de 367 milhões de habitantes, os eleitores colocaram na chefia do Poder Executivo políticos de centro-esquerda, que também derrotaram a direita.

Na verdade, a impressão é de que a maior vítima do fortalecimento do populismo de direita no chamado “Hemisfério Ocidental”, isto é, nas Américas (incluindo o Caribe) é a centro-direita, e não a esquerda.

Uma possível maneira de se pensar esse fenômeno é a de que o radicalismo de direita consegue galvanizar e fidelizar uma parcela expressiva do eleitorado de uma forma que a centro-direita, com seu tom cosmopolita e elitista, nunca conseguiu.

Esse quinhão do eleitorado da direita populista, entretanto, é significativo mas não majoritário, o que é um padrão recorrente em movimentos políticos radicais. No final das contas, o condomínio eleitoral que vai da esquerda até a centro-esquerda tende a reunir mais votos e a derrotar a direita fumegante.

A ressalva é que não se deve simplificar demais a história. Nem todas as vitórias da esquerda citadas acima foram sobre a direita populista, como nos importante exemplos do México e da Argentina. E em alguns casos o candidato de esquerda vitorioso era ainda mais caricaturalmente populista que o de direita, como no Peru. No Uruguai, a centro-direita de Luis Lacalle Pou derrotou por margem muito apertada a centro-esquerda em novembro de 2019.

Ainda assim, quando se pensa em políticos como Bolsonaro e Donald Trump, de países que juntos contêm mais da metade da população do Hemisfério Ocidental, a destruição da centro-direita pela direita populista parece evidente.

No caso norte-americano, o fenômeno se deu por meio da conquista do Partido Republicano pelo trumpismo. No Brasil, com a derrocada do PSDB diante da polarização entre lulismo e bolsonarismo.

Tanto no caso dos Estados Unidos como no Brasil, a direita populista chegou ao poder e governou de forma sofrível, para dizer o mínimo. Não se pode de forma nenhuma desconectar o despreparo, a ignorância e cultivo sistemático da mentira, típicos desses dois líderes de extrema-direita, dos maus resultados dos seus governos.

O populismo é um trunfo para ganhar eleições, mas um fardo para governar. No longo prazo, no caso da direita, é uma armadilha que inviabiliza as bandeiras da centro-direita civilizada.

O Estado de São Paulo

Os ‘meninos’ de Lula - Editorial




Petista jacta-se de ter intercedido em favor dos sequestradores de Abílio Diniz, como se estes fossem só jovens que mereciam perdão, e não delinquentes que cumpriam pena segundo a lei

Para quem não está com o juízo comprometido pela paixão ideológica, a pré-campanha eleitoral tem evidenciado o relativismo de Lula da Silva ao tratar de certos crimes, que para ele seriam menos graves a depender de quem os cometeu e das causas que os teriam motivado.

Além de tentar reescrever a história do petrolão, fazendo os brasileiros de tolos, há poucos dias Lula achou que era o caso de jactar-se de ter intercedido, em 1998, pelos sequestradores do empresário Abílio Diniz junto ao então presidente Fernando Henrique Cardoso.

Presos havia quase dez anos, os sequestradores do empresário, que Lula tratou singelamente como “meninos”, decidiram entrar em greve de sede e de fome. “Eu disse: ‘Fernando, você tem a chance de passar para história como um democrata ou como o presidente que permitiu que dez jovens que cometeram um erro morressem na cadeia, e isso não vai (se) apagar nunca’”, disse Lula em Maceió (AL) na semana passada, no que se prestava a ser um discurso elogioso ao senador Renan Calheiros (MDB), ao seu lado no palanque. Renan Calheiros era o ministro da Justiça àquela época.

Abstraindo a pretensão de Lula de ensinar a FHC como entrar para a história como um democrata, é inacreditável como o petista, passados todos esses anos, ainda manifeste explícita simpatia pelos que cometeram não um “erro”, mas um crime tão violento – extorsão mediante sequestro – que em 1990 passou a ser qualificado como hediondo, conforme a Lei 8.072.

Abílio Diniz, convém recordar, foi sequestrado no dia 11 de dezembro de 1989, em São Paulo, por um grupo de delinquentes do Movimento de Esquerda Revolucionária-Político (MIR-Político) e das Forças Populares de Libertação (FPL) de El Salvador. Dez pessoas foram presas por envolvimento no crime: cinco chilenos, dois canadenses, dois argentinos e um brasileiro. O empresário passou quase uma semana no cativeiro e, em entrevistas posteriores, descreveu seu medo de morrer a qualquer momento nas mãos daqueles, segundo a definição carinhosa de Lula, “meninos”.

“Eles iam entrar em greve seca, que é ficar sem comer e sem beber, e aí é morte certa”, disse Lula. “Eu então fui procurar o ministro da Justiça, Renan Calheiros, que depois de uma longa conversa me disse para falar com o presidente Fernando Henrique Cardoso, porque ele teria toda a disposição de mandar soltar o pessoal.” O petista afirmou ter convencido os sequestradores a encerrar a greve seca. “Eu fui na (sic) cadeia no dia 31 de dezembro (de 1998) e falei com os meninos: ‘Vocês vão ter que dar a palavra para mim e garantir que vão acabar com a greve de fome agora, e vocês vão ser soltos’. Eles respeitaram a proposta, pararam a greve de fome, foram soltos. Não sei onde estão agora.”

É muito curiosa essa preocupação de Lula com o equilíbrio nutricional dos sequestradores de Abílio Diniz, todos ligados a movimentos revolucionários de esquerda, que, confessadamente, pretendiam usar o dinheiro do resgate para sustentar a guerrilha em El Salvador. O mesmíssimo Lula tem uma visão diametralmente oposta da greve de fome como instrumento de manifestação política quando ela é empregada no cárcere por opositores dos regimes que ele apoia. Recordemos o que Lula disse à agência Associated Press, em 2010, quando um grupo de opositores da ditadura de Fidel Castro em Cuba decidiu iniciar uma greve de fome em protesto contra prisões arbitrárias na ilha caribenha. “Nós temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubano de deter pessoas em razão da legislação de Cuba, como quero que respeitem o Brasil”. Para aquele Lula, “a greve de fome não pode ser usada como um pretexto de direitos humanos para libertar as pessoas. Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrassem em greve de fome e pedissem a liberdade”.

Lula é isso: para seus “meninos”, criminosos condenados por sequestro, carinho e compreensão; para os que enfrentam a ditadura sanguinária de Cuba colocando a própria vida em risco, frieza e cinismo. Eis aí o líder que pretende resgatar o Brasil do pântano moral. 

O Estado de São Paulo

O que explica e quais os desafios da nova "onda de esquerda" latina




Por Malu Delgado

Ressurgimento da esquerda na América Latina foi acelerado pela pandemia, tem menos ideologia e enfrentará questões econômicas e ambientais muito mais complexas do que a onda anterior, preveem especialistas.

O mapa "avermelhado" que está sendo delineado na América Latina nos últimos dois anos – o que os acadêmicos chamam de nova onda rosa – tem muito menos ligação com matizes ideológicos do que a primeira onda de ascensão da esquerda no continente ocorrida no final dos anos 90 e início dos anos 2000.

O domínio político da esquerda no passado é datado da posse de Hugo Chávez na Venezuela, em 1998, até a derrota da era Kirchner na Argentina, em 2015. Essa nova esquerda que ressurge agora, após a hecatombe da pandemia de covid-19, enfrentará desafios econômicos e sociais muito mais complexos, especialmente os ligados à agenda ambiental, e vai trilhar um terreno bastante arenoso, sem o amparo financeiro do boom das commodities.

A eleição de Gustavo Petro e Francia Márquez na Colômbia, no último domingo, foi mais um movimento em direção à consolidação desse novo bloco de poder. "A sua vitória fortalece a democracia e as forças progressistas na América Latina", declarou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em suas redes sociais nesta terça-feira (21/06).

No entanto, os ambientes políticos extremamente polarizados nos diferentes países da região comprovam que a ascensão da direita – ainda que encurtada pelo coronavírus – não pode ser menosprezada e só se governará com compactuações entre diferentes setores econômicos e sociais. Na Colômbia, por exemplo, Petro venceu por margem estreita, com 50,44% dos votos. O candidato da direita, Rodolfo Hernández, ficou com 47,31%.

A possibilidade de derrota do atual presidente brasileiro, Jair Bolsonaro (PL), e retorno de Lula (PT) em 2023 ao governo do Brasil, como têm apontado as últimas pesquisas de opinião, consolidaria uma aspiração de retomada de um bloco regional latino e atuação econômica conjunta, o que foi solapado pela lógica bolsonarista.

"Só existe um pensamento regional e um pensamento concreto sobre o papel do Brasil na América Latina com Lula ou qualquer outro candidato que tenha compromisso com a visão tradicional das relações internacionais brasileiras. No caso de Bolsonaro, se ele tem alguma ambição geopolítica é que o Brasil vire as costas para a América Latina", afirma Mathias Alencastro, cientista político, professor de relações internacionais na UFABC e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Para Alencastro, uma eventual reeleição de Bolsonaro aprofundaria a dinâmica de desvinculação do Brasil com o resto do continente.

A integração do continente na primeira onda rosa, que durou mais de uma década e meia, trouxe resultados consistentes e novidades históricas relevantes, segundo o professor Dawisson Belém Lopes, professor de Política Internacional da UFMG e atualmente pesquisador na Latin American Center da Universidade de Oxford.

"A Unasul (União das Nações Sul-Americanas) talvez tenha sido o que de mais relevante nasceu no período", enfatiza Lopes. Na visão do professor, a união política do bloco no passado também trouxe consequências sociais, sobretudo pelo fato de o Brasil ter se tornado uma espécie de exportador de políticas públicas como o Fome Zero e o Bolsa Família, além de políticas de desenvolvimento agrário lideradas pela Embrapa.

Pandemia antecipou movimento do pêndulo histórico

Especialistas em relações internacionais salientam que é importante perceber que a duração da direita e da extrema direita no poder só foi encurtada devido à pandemia.

"Imaginava-se que a direita teria um ciclo mais longo na América Latina, como a literatura da ciência política define os ciclos de humores políticos. Mas a pandemia acelerou o desgaste dos incumbentes, de quem está no poder. E calhou que quem estava no poder na América Latina era a direita, com o desgaste de gerir as sociedades na pandemia. A gestão mais desastrada da pandemia foi justamente na América Latina", ressalta Dawisson Lopes. "Morreu aqui mais gente que em outros cantos do planeta."

Caso o mundo não tivesse vivenciado o "evento bíblico da pandemia", pontua Mathias Alencastro, "provavelmente [Donald] Trump teria sido reeleito e Bolsonaro provavelmente estivesse muito melhor" na disputa eleitoral. A brevidade da permanência da direita pelas circunstâncias históricas não enfraqueceram, no entanto, o poder desse grupo político.

É por isso que se observa nessa nova esquerda uma vontade mais genuína de compactuação, segundo Alencastro, especialmente como demonstram Gabriel Boric, 35 anos, eleito em novembro de 2021 no Chile, Petro na Colômbia e Lula, ainda em campanha, no Brasil. O prisma dessa nova esquerda, de acordo com Alencastro, precisará incluir toda a sociedade democrática, o que é positivo.

"As pessoas estão votando na esquerda porque elas viram que sem estado social forte, sem coesão social, não vamos sobreviver neste mundo feito de pandemias e catástrofes climáticas", sentencia Alencastro. O momento histórico é extraordinário, diz ele, e a esquerda, sob o ponto de vista programático, terá que demonstrar que está à altura do desafio.

Para Dawisson Lopes, é inegável que a atual conjuntura política vai empurrar essa esquerda cada vez mais ao centro. As vozes da direita continuam a emular, diz ele, e "os governos de esquerda na América Latina não conseguirão implementar políticas de socialismo democrático".

"Esses governos vão se deslocar para a direita porque as sociedades se deslocaram. É difícil imaginar um governo bolivariano", sustenta. A pauta religiosa e a de costumes é imperativa. "A esquerda que assume agora na América Latina está vestindo uma camisa de força do ponto de vista moral, axiológico, de valores. Isso diminui os espaços políticos."

A agenda do futuro sem as benesses das commodities

Os governantes da nova onda rosa na América Latina vão se deparar não apenas com dilemas estruturais da desigualdade social no continente, agravados na pandemia, mas também com a agenda imperativa das mudanças climáticas deste século. "Os governos de direita não têm na desigualdade, ou na mitigação da desigualdade, a sua principal plataforma, em qualquer lugar do mundo. A ideia central é gerar riqueza, e não combater desigualdades ou assimetrias sociais", observa o professor Dawisson Lopes. Só que a direita não lidou bem, segundo ele, com as consequências socioeconômicas devastadoras impostas pela pandemia e se viu numa cilada histórica.

A nova conjuntura e a entrada da agenda da transição verde na pauta global, de forma emergencial, aumenta o desafio da nova esquerda na América Latina, explica Alencastro. Segundo ele, já ficou patente nos discursos dos presidentes do Chile e da Colômbia, que são uma nova geração da esquerda, que "justiça ambiental e social são temas inseparáveis e estão interligadas".

"Não vai se combater a desigualdade no século 21 sem política climática ambiciosa. E não vai ter política climática ambiciosa sem o combate das desigualdades. Obviamente isso é uma revolução paradigmática da esquerda latino-americana, que durante 70 anos acreditou que o desenvolvimento se faria através da mobilização dos recursos naturais", afirma o professor de relações internacionais.

É cedo para avaliar como essa agenda vai prosperar na América Latina, diz ele, e as visões de política ambiental obviamente não são homogêneas entre os novos governantes. Além disso, é preciso aguardar os rumos brasileiros. A despeito de tantas incógnitas, Alencastro vê os desafios econômicos atuais como oportunidades para a nova esquerda, com possibilidade de explorar novos caminhos diante da divisão de poderes entre China e Estados Unidos.  A América Latina, diz ele, poderá experimentar novos acordos comerciais, novos modelos de desenvolvimento, reforçando a autonomia regional, ainda que não tenha uma zona de conforto proporcionada pelo aumento das commodities.

Como esses governos de esquerda não poderão contar com fonte de renda proeminente e o desafio fiscal é uma realidade em praticamente todos os países, os governantes, defende Alencastro, precisam estar mais abertos a novas propostas e abusar da criatividade de gestão.

"A nova onda rosa está muito mais ligada a um desafio de futuro, enquanto a onda passada era muito mais pautada pelo passado recente. Essa onda olha pra frente. A onda passada olhava mais pra trás", definiu.

Deutsche Welle

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