terça-feira, dezembro 07, 2021

7 ‘Modelo social-liberal ainda me parece o melhor caminho’, diz Arminio Fraga

 





Ex-presidente do Banco Central, o economista Arminio Fraga prevê que a reeleição do presidente Jair Bolsonaro é pouco provável, pelo "conjunto da obra ou da 'não obra'". Ele avalia que a economia será decisiva nas eleições, pelas dificuldades que o País passa, e alerta que o debate econômico na campanha eleitoral de 2022 terá de ser realista, ao invés de um festival de promessas não cumpridas. "Quem sabe o eleitorado melhor informado não entenda que alguma coisa está errada, que não há receita fácil, e que é preciso buscar uma proposta que tenha reais condições de dar certo".

Na semana passada, Armínio disse que aceitaria o cargo de ministro da Fazenda em um novo governo, desde que encontre a possibilidade concreta de colocar em prática suas ideias. Mas não deixou claro se tem simpatia por alguma candidatura e afirmou que não pretende se engajar em nenhuma campanha. Na entrevista abaixo, ele faz críticas às elites brasileiras: "Têm sido chapa-branca, curto-prazistas, oportunistas e um obstáculo ao desenvolvimento do País".

O sr. disse que não pretende entrar numa campanha eleitoral em 2022, mas aceitaria ser ministro da Fazenda. Como é isso?

De certo, digo que não pretendo me engajar em nenhuma campanha. Tenho tido a chance de conversar com muita gente e consideraria dar uma colaboração num governo onde haja chance de as ideias nas quais eu acredito serem postas em prática com algum sucesso.

Qual a sua avaliação dos cenários políticos dos presidenciáveis que já se apresentaram, do ponto de vista do debate econômico?

Está cedo ainda. Eles terão de se posicionar com mais clareza. No momento, estão dando sinais mais gerais. Alguns não dão sinal algum. Só saberemos a partir de março, abril.

A situação econômica ruim tira a possibilidade de reeleição do presidente Bolsonaro em 2022?

Hoje, a reeleição parece pouco provável. Não só por causa da economia. Pelo conjunto da obra ou da ‘não obra’.

O debate da desigualdade ganhará força nas eleições? Esse tema sempre esteve associado mais ao PT...

Sim, o PT fez muita coisa, Fernando Henrique também, houve continuidade. Mas, ao mesmo tempo, houve com o PT uma política de dar enormes subsídios, vantagens para os mais ricos, a chamada bolsa empresário. Sempre ouvi Pedro Malan (ex-ministro da Fazenda durante o governo FHC) repetir que a raiva da pobreza e da má distribuição de renda não é monopólio de ninguém. O modelo social-liberal, que foi o do Fernando Henrique, ainda me parece o melhor caminho. Precisamos de um pêndulo político mais curto, e não de uma bola de demolição.

Por que o Brasil não consegue se organizar para embarcar numa trajetória de crescimento consistente e inclusiva?

Essa é uma pergunta chave para nortear o debate. Politicamente tem sido difícil o País construir esse caminho. Nos prejudica a frequência com que o Brasil anda para trás. Parece que vai engrenar, mas logo vem uma guinada para trás, tipicamente consequência de ideias erradas e populistas. Essa instabilidade inibe muito o consumo e o investimento. Quem sabe o eleitorado melhor informado não entenda que alguma coisa está errada, que não há receita fácil, e que é preciso buscar uma proposta que tenha reais condições de dar certo.

Com o PIB em recessão técnica, alta da inflação e a volta da estagflação, qual a perspectiva para 2022?

O BC corretamente está apertando os juros. Pode-se discutir a calibragem, mas evito essa discussão conjuntural. Nessa hora, é bom que o presidente do BC tenha mandato e deixe claro que vai ficar até o fim, o que ele tem feito. A política monetária mais apertada e o enorme grau de incerteza que domina hoje a cena são fatores que deprimem a economia. Não é à toa que as estimativas de crescimento para 2022 estejam sendo revisadas para baixo. Um País com a nossa história chegar a uma inflação de dois dígitos, se começar a indexar, aí é o diabo.

A inflação é o maior problema da economia?

Não, mas é grave. Os maiores problemas são a falta de crescimento e a desigualdade. Faz falta uma agenda com esse foco. Mas com inflação não há progresso. O Brasil vive uma situação extrema de fragilidade fiscal, desemprego e subemprego. Parte da inflação vem de choques de custos. Nesse contexto faz sentido retornar à meta apenas em 2023, desde que em 2022 haja uma clara reversão na tendência de alta da inflação. Não combater a inflação seria pior, já vimos esse filme.

E como resolver o problema do crescimento da economia?

Falar do crescimento agora é falar da incerteza de uma economia toda engatilhada, amarrada, fechada. É preciso tomar certo cuidado para não confundir o comportamento cíclico do ano que vem com a tendência de crescimento. Eu gosto de usar a palavra crescimento para a tendência de médio e longo prazo. Quando falamos do ano que vem, estamos falando de recuperação. E a recuperação vem fraca e o crescimento, a essa altura do jogo, está com uma cara ruim.

Como fazer com que o debate econômico se aprofunde nas eleições de 2022?

Debate sempre há. No entanto, é preciso mais: o debate tem de ser construtivo e realista, capaz de oferecer as bases para uma política econômica melhor, ao invés de um festival de promessas que raramente são cumpridas. Vai depender do conjunto de participantes atores de um grande debate nacional, a imprensa, a academia e, sobretudo, os próprios políticos.

O sr. compartilha da avaliação de que na campanha de 2022, ao contrário do que correu em 2018, a economia será decisiva na eleição?

Suspeito que sim. Em função do sofrimento e das dificuldades que o País vem enfrentando desde 2014. A economia sempre é uma prioridade das pessoas, porque ela está conectada com temas como: emprego, inflação, desigualdade, saúde, educação, transporte e segurança. Todos temas que afetam diretamente a qualidade de vida. Essas questões têm espaço natural de discussão no orçamento, que conecta a economia e a política. Não será o único assunto, as questões identitárias ganharão cada vez mais espaço. Mas tem muito assunto que depende de dinheiro.

A pandemia fez o sr. revisar o que pensava antes sobre crescimento mais inclusivo?

Sempre tive essa preocupação, mas nunca foi o objeto da minha pesquisa no dia a dia como investidor e mesmo como alguém que trabalhou duas vezes no Banco Central. Deu para fazer alguma coisa no BC, mas não era o foco principal. Uma das medidas que mais deram prazer foi a autorização aos correspondentes bancários. Foi uma ferramenta sensacional para todos os programas sociais que dependiam de cartão, pois quadruplicou o número de postos bancários. Mas, sim, venho já há algum tempo me debruçando sobre o tema. Inclusive fundei os Institutos de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e Mobilidade e Desenvolvimento Social (Imds). Me fazia falta também a conexão com a política, com as ciências sociais em geral. Um aspecto fulcral, que tem tudo a ver com a qualidade do debate, é para onde vai o dinheiro público e de onde ele vem, ou seja, a composição do gasto e da receita. São questões de grande impacto distributivo.

O Congresso está ignorando o que acontece na economia e só pensa na eleição de 2022?

Por ora, os sinais não são bons, o que parece ser consequência de um foco exagerado no varejo e nas eleições. A grande vítima desse jogo foi a responsabilidade fiscal. Aumentou muito o risco de uma crise maior. Mas o Congresso tem instinto de sobrevivência, espero que acordem.

O que seria uma crise maior?

Inflação, mais pressão no dólar (que lembra 2002), uma recuperação econômica relativamente tímida e que poderá ser abortada. A partir dessa avaliação, pode-se imaginar uma dinâmica entre política e economia bem complicada. Quando os candidatos estiverem em plena campanha, o mercado vai oscilar com base nas opiniões que são ventiladas e nas probabilidades de essas posições se tornarem realidade. Essa probabilidade se extrai das pesquisas, sobretudo. Vamos ver muita volatilidade.

A elite empresarial do País está vivendo numa bolha, fazendo vista grossa à realidade do País?

A conclusão inescapável é que as elites, com exceções, têm sido chapa-branca, curto-prazistas, oportunistas, na verdade um obstáculo ao desenvolvimento do País. Parte dessa "elite" abraçou a Dilma e o Bolsonaro. Ambos tiveram, até um determinado momento, apoio substancial das elites empresariais. E isso casa com o que parece ser uma obsessão suicida de voltar a um modelo de economia fechada, com subsídios abundantes, pouco respeito à previsibilidade, ao equilíbrio macroeconômico e à desigualdade. É como se a gente não aprendesse. Nas décadas de crescimento acelerado, o Brasil estava se industrializando e urbanizando. Mas o modelo se esgotou e houve um colapso na produtividade visível já na década de 70. Em todos esses momentos, tivemos uma elite defendendo o seu pedaço de uma maneira míope e que foi responsável por uma parte relevante do nosso desempenho medíocre desde a década de 80.

O atraso do País está na repetição dos erros?

Não é que o Brasil tenha ficado parado. Não ficou. Mas a impressão que eu tenho é que falta mais. Duas grandes reformas ainda não foram abordadas: as reformas tributária - a indireta e a do Imposto de Renda - e uma do Estado com foco na área administrativa, no RH. Falta uma certa paz. Quando passamos dois anos e meio no Brasil preocupados com nossa democracia, a economia se assusta.

Como o sr. avalia a aprovação da PEC dos Precatórios?

O que vivemos agora é a continuidade do que começou em 2014: a destruição do arcabouço de responsabilidade fiscal do País. Isso é gravíssimo, um fator de incerteza e de risco altamente relevante. Começou lá atrás, quando houve um colapso do saldo primário das contas públicas, que era a principal âncora fiscal. Sabíamos que o gasto público não poderia crescer mais do que o PIB indefinidamente. Tínhamos um arcabouço fiscal bem razoável, com a Lei de Responsabilidade Fiscal. Entretanto, por alguma razão ainda não totalmente documentada, ela não conseguiu defender o que se tinha. Não está muito claro quanto desse fracasso foi brecha na lei ou crime mesmo.

Agora fazem remendos e, mesmo assim, dizem que o teto de gastos está sendo cumprido.

Vamos ter de repensar o regime fiscal brasileiro. Isso precisa ser feito. O atual já era. Esses remendos, como a PEC, fazem crescer as dúvidas quanto à solidez fiscal do País. Mas, com o passar dos anos, ficou claro que o quadro geral das finanças públicas (com o teto) não era sustentável. Não se pode eliminar quase que totalmente a capacidade de investimento do Estado. O ajuste fiscal necessário não é só aquele suficiente para o Brasil voltar a ter superávit primário. É maior para permitir uma reprogramação das prioridades do gasto público. Estamos falando de um desafio enorme. A constatação de que 80% dos gastos vão para a folha e Previdência é um prato cheio para a reforma.

Qual é a saída?

Estamos diante de uma pesada agenda de reformas na área econômica. A resposta terá de vir, em última instância, da política, que terá de encarar os desafios definindo prioridades de forma transparente e responsável.

Estadão / Dinheiro Rural

Índia assina tratado de cooperação militar com Rússia, apesar de ameaça de sanção dos EUA




A Rússia e a Índia assinaram uma série de acordos comerciais e de venda de armamentos nesta segunda-feira (6), durante uma reunião em Nova Delhi entre o presidente russo Vladimir Putin e o primeiro-ministro indiano Narendra Modi.

Putin visitou a Índia com seus ministros de Defesa e Relações Exteriores para fortalecer os laços entre Nova Delhi e Moscou, o que resultou na assinatura de um pacto de cooperação militar até 2031 e um compromisso de aumentar o comércio anual de armas para US$ 30 bilhões (R$ 170 bilhões) até 2025.

Rússia e Índia "reiteraram sua intenção de fortalecer a cooperação em matéria de defesa, inclusive no desenvolvimento conjunto da produção de equipamentos militares", disseram os dois países em um comunicado conjunto emitido após a reunião.

Fuzis e defesa aérea

Além de um acordo segundo o qual a Índia produzirá mais de 600.000 fuzis de assalto russos AK-203, a Rússia indicou que deseja continuar fornecendo aos indianos sistemas de mísseis de defesa aérea S-400.

O ministro das Relações Exteriores da Índia, Harsh Vardhan Shringla, disse que os dois países assinaram 28 pactos de investimento, incluindo acordos em aço, construção naval, carvão e energia.

Este acordo com Moscou coloca a Índia em risco de sofrer sanções dos Estados Unidos, segundo uma lei norte-americana de 2017 que visa dissuadir os países de comprar equipamento militar russo.

RFI / DefesaNet

Um passo para a teocracia




Por Fernando Gabeira (foto)

No momento em que o país afunda na recessão, e cresce a insegurança alimentar, começo com um tema secundário, desses que os analistas políticos acham que mereciam apenas uma nota de pé de página na história.

O tema são os gastos do cartão corporativo de Bolsonaro. Ele gasta a média de R$ 1,3 milhão por mês, e suas despesas estão sendo julgadas, em segredo, pelo Tribunal de Contas.

É muito dinheiro para quem tem casa, comida, conexão e transporte gratuitos. O relator do processo é o ministro Raimundo Carreiro, o mesmo que Bolsonaro designou embaixador do Brasil em Portugal. Um prêmio.

O deputado Elias Vaz (PSB- GO) pediu que o relator se declarasse impedido. Mas é duvidoso que aceite isso ou que seja levado a isso.

Carreiro foi um grande amigo de Sarney. Nasceu num distrito de Nova Iorque, no Maranhão, e aos 16 anos votou pela primeira vez na UDN. Dizem que se declarou dois anos mais velho para ser eleitor de Sarney.

Sempre foi protegido do cacique maranhense. No Senado, saiu da área de produção de atas e acabou sendo um assessor vital para os presidentes. Sua fidelidade o levou ao Tribunal de Contas, e agora parece cruzar o oceano com ele.

Sou das poucas pessoas que gostariam de saber como Bolsonaro gasta tanto dinheiro. E se isso é legal e razoável.

Como isso escapa um pouco do radar da oposição no conjunto, o melhor é tratar o fato da semana: a eleição de André Mendonça para o STF.

A demora em sabatiná-lo estava ficando constrangedora. Suas declarações ao Senado foram estudadas na medida para impressionar os senadores que, por sua vez, estavam ansiosos para agradar à grande força eleitoral evangélica.

Mendonça disse que, em casa, seguia a Bíblia, e no STF, a Constituição. Mal se sentiu vitorioso, disse que sua vitória era um passo para o homem e um salto para os evangélicos. Como assim?

O Brasil tem uma bancada evangélica que se dispersa por diferentes partidos. Não temos bancadas católica, protestante ou umbandista. Os evangélicos funcionam como um partido político.

Mendonça deu a entender que o processo de infiltração religiosa no poder alcançara um novo patamar com sua eleição.

É espantoso como a oposição e os deputados independentes que fizeram a CPI da Covid-19 embarcaram nessa. Parecem não ter a visão histórica do que é uma teocracia e do que representará para o país. Quando uma confissão religiosa se articula como partido político e busca o poder, lança sinais muito inquietantes.

Na revolução teocrática do Irã, um intelectual de peso como Michel Foucault embarcou na canoa furada de apoiá-la, era popular, antiamericana, deu no que deu.

Estamos longe do Irã, muito mais longe dos talibãs. Mas a mistura da religião com política leva à ditadura teocrática. As religiões pretendem dizer como devemos viver, partidos políticos democráticos apenas apontam soluções para nossos impasses, saídas coletivas que preservam a pluralidade de nossas escolhas.

Quando vi todo aquele esforço para agradar aos evangélicos e ganhar alguns votinhos em troca, quando vi um deputado evangélico que, no passado, foi preso com um avião carregado de dinheiro ao lado do novo ministro do STF, pensei: as coisas não caminham bem no Brasil. Pelo menos, no meu modo de avaliar, baseado em experiência própria.

Ao aprovar Mendonça, os senadores não consideraram o absurdo de invocar a Lei de Segurança Nacional para punir adversários de Bolsonaro, a existência de lista de pessoas suspeitas de ser antifascistas.

E foram enganados na resposta sobre apoio aos direitos dos gays e LGBT.

Se você perguntar a eles se querem um Brasil teocrático, responderão que não. Mas não estabelecem nenhuma conexão entre suas escolhas e as consequências futuras.

Semana de isolamento. Ainda bem que estou em viagem. Preocupar-se com os astronômicos gastos de Bolsonaro e com um possível futuro teocrático do Brasil é coisa de minoria.

Aprendi a me consolar com essa ideia e, ainda assim, a sobreviver nos trópicos.

O Globo

Fator Moro nas eleições: o que muda no cenário?




Pré-candidato do Podemos, Moro terá que enfrentar o desafio de superar a pulverização para ocupar a posição de terceira via

O que esperar no segundo turno com Bolsonaro e o ex-ministro? Para especialistas, candidatura de Moro pode tirar a previsibilidade do tabuleiro político

Por Taísa Medeiros 

Brasília – Desde o anúncio da pré-candidatura do ex-ministro da Justiça Sérgio Moro (Podemos) ao Palácio do Planalto, a tão falada “terceira via” ganhou novas configurações para as eleições de 2022. Moro, que ficou longe do país durante o último ano, retorna trazendo seu nome para o centro da disputa e, na opinião de especialistas, com possibilidade de crescimento significativo nas pesquisas, caso mantenha a postura contida, sem revidar ataques.
 
'Para especialistas, não haverá reconciliação entre Bolsonaro e o ex- ministro nem para combater o adversário comum dos dois'

Para aliados, Moro é o candidato certo para aliviar as tensões da polarização política entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL), que prometem ser mais altas em 2022 do que em 2018. É o que aposta o colega de partido, o senador Eduardo Girão (CE). “É uma opção que renova a força de um símbolo perdido de esperança e transformação, sem termos que enveredar necessariamente para mais um Fla x Flu”, crê. “O cidadão brasileiro não aguenta mais briga por política. Repugna isso. Ele quer maturidade e diálogo”, acrescenta o parlamentar.

Girão destaca ainda que Moro goza de muita credibilidade junto a grande parte da população. “Seu trabalho exitoso, que ganhou popularidade por ser um símbolo positivo do país, de que a justiça seria para todos, está muito forte e recente no imaginário do povo brasileiro”, afirma o senador, que menciona também um sentimento de “gratidão” de muitos brasileiros.

'Composições políticas nos âmbitos regionais e locais e tempo na TV podem beneficiar Lula, assim como o presidente, na corrida eleitoral'
 
Leandro Consentino, professor de Ciência Política e Relações Internacionais do Insper, acredita que, caso Moro mantenha a popularidade, é possível que mude o rumo das eleições. “O desafio da terceira via é difícil quando há pulverização de candidatos, mas o Moro é quem tem mais condições de fazer isso neste momento”, avalia.

Consentino explica que a candidatura de Moro também torna delicada a situação do Partido dos Trabalhadores (PT), visto que enfrentar Bolsonaro no segundo turno seria o melhor cenário para o partido de Lula. “Deverá haver um esforço de igualar Moro e Bolsonaro ao longo da campanha, em uma tentativa de deslegitimar essa candidatura”, prevê.

CESSAR FOGO Para Danilo Morais dos Santos, professor da pós-graduação do Ibmec-DF, uma eventual ascensão de Moro na preferência do eleitorado pode levar “Lula e Bolsonaro a um cessar fogo entre si, tendo em vista que a maior ameaça para ambos é a chamada terceira via”. Diante disso, é possível que a imagem do ex-juiz venha a sofrer alguns desgastes, em razão dos excessos cometidos pela Lava-Jato, que devem ser explorados pelos adversários durante a campanha presidencial.
 
A respeito da candidatura, outro ponto a ser considerado são os limites da popularidade do ex-ministro, uma vez que ter o nome em pauta nas principais capitais do país, no caso de Moro, é um dos principais desafios. “É uma candidatura que vai do Oiapoque ao Chuí. Não basta ser um nome conhecido apenas em alguns lugares. Embora Moro tenha largado com muita potência na corrida eleitoral, há desafios pela frente para consolidar o nome dele pro ano que vem”, explica Danilo Santos. O professor destaca também que o enraizamento partidário poderá fazer falta para o ex-ministro, que se filiou no início deste mês ao Podemos.

ANIMOSIDADES Após a conturbada saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça de Bolsonaro, em abril do ano passado, não são raros os ataques entre o presidenciável do Podemos e o chefe do Executivo. Na última live realizada por Bolsonaro nas redes sociais, o presidente chamou Moro de “mentiroso deslavado” e afirmou que ele faz “papel de palhaço”.

Foi uma reação às declarações do ex-ministro de que Bolsonaro havia comemorado a saída de Lula da prisão. Moro, por outro lado, usou as redes sociais para criticar as declarações do presidente contra a vacinação. “Volto a dizer: com mais de 615 mil mortes, a postura antivacina do presidente já foi longe demais. Estamos falando de vidas humanas”, escreveu em um tweet no dia 1º de dezembro.
 
O ex-ministro Moro ainda declarou, em entrevista ao Correio Braziliense, que o combate à corrupção, tão evidenciado na campanha de Bolsonaro, não é uma prioridade de fato. “Bolsonaro não está nem aí para o combate à corrupção”, disse ele à jornalista Denise Rothenburg.
 
Diante das críticas trocadas entre os dois possíveis candidatos ao pleito, especialistas avaliam que, mesmo em um cenário em que a união de Moro e Bolsonaro fosse determinante para a derrota de Lula, não há chance de reconciliação. “Não concebo uma aliança entre Bolsonaro e Moro. A saída dele do Ministério foi muito traumática, e com o presidente jogando nesse modo sobrevivência, tudo indica que será uma campanha muito pesada, que vai dificultar muito um apoio entre os dois”, analisa Danilo Santos.

Para o senador Girão, as trocas de farpas não irão colaborar com o debate edificante que deveria haver nas eleições. “Tudo o que o brasileiro anseia é por uma campanha diferente, que deixe de lado a agressividade entre candidatos e evidencie exposições propositivas para o triunfo do Brasil e dos brasileiros”, argumenta.

ACORDO IMPROVÁVEL Consentino também acredita ser improvável um acordo que sele a paz entre Moro e Bolsonaro. “Mas tampouco eu consigo vislumbrar estes dois dando a mão pro Lula num eventual segundo turno. Eu antevejo que eles vão liberar seus eleitores para fazerem o que quiserem e aí, muito provavelmente, os eleitores de um migram pro outro”, vislumbra. “Acho que a questão está menos pautada nas lideranças, num acordo eventual, e mais no comportamento do eleitorado”.
 
É possível, ainda, que ocorra o contrário do cenário de 2018, quando muitos políticos de carreira foram deixados de lado, em meio aos anseios por renovação. O pleito de 2022 pode vir com um quê de tradição e convencionalidade, como avalia Danilo Santos. “Nessa eleição, apostaria nos políticos profissionais, com tempo de TV, composições políticas, nos âmbitos regionais e locais. Nesse sentido, Lula e Bolsonaro largam na frente em desfavor de Moro”, vislumbra. “Moro está muito próximo de um ponto de saturação, isso cria uma expectativa grande do mercado. Ou ele vai estagnar, ou mesmo com a campanha negativa, pode haver inflexão forte e perder esse eleitorado. É um forte candidato a repetir o fenômeno Marina Silva”, avalia.
 
A ex-ministra do Meio Ambiente, nas eleições de 2014, era favorita nas pesquisas. Mas na reta final do primeiro turno a então candidata do PSB teve encolhimento de seu eleitorado, ficando com 21% dos votos.

Correio Braziliense / Estado de Minas

Tropas russas perto da Ucrânia elevam temor de novo conflito - Editorial

 




O presidente russo Vladimir Putin tem muitos defeitos, mas ninguém pode acusá-lo de não ter senso de oportunidade. Com a Europa preocupada com a escalada de preços de energia, o frio aumentando e vários países dependentes do gás russo, Putin ordenou que suas tropas, parte delas voltando de um exercício militar na Bielorrússia, montassem acampamento próximo à fronteira com a Ucrânia. O movimento causou alarme no país vizinho, nas capitais europeias e em Washington. Pelos cálculos do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, são por volta de 100 mil soldados. Um relatório da inteligência americana revelado pelo jornal The Washington Post fala em planos para uma ofensiva de 175 mil, incluindo 100 batalhões táticos, blindados e artilharia pesada.

Um movimento menor também provocou preocupação em abril, depois foi desfeito. Desta vez, ninguém sabe ao certo as intenções de Putin. A inflação está em alta na Rússia, a pandemia está longe de controlada. É bastante provável que atrair a atenção para a Ucrânia seja uma clássica manobra diversionista. Se for apenas isso, as tropas provavelmente voltarão logo para casa. Mas há dúvidas.

Para os serviços de inteligência do Ocidente, há motivos para acreditar que Putin não esteja blefando e talvez planeje anexar mais um naco do território ucraniano. No dia 1º deste mês, Putin pediu “garantias legais” de que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) não se estenderia mais para o leste. Para ele, uma aliança entre a Ucrânia e o Ocidente configura uma ameaça existencial.

Quando os ucranianos estavam prestes a aderir à União Europeia, em 2014, a Rússia anexou a Península da Crimeia. Há sete anos tem apoiado grupos de origem russa que lutam pela independência de parte da Ucrânia, num conflito que já matou mais de 14 mil. Agora Putin quer evitar a entrada na Otan, que permitiria o avanço na região de tropas lideradas pelos Estados Unidos.

Num esforço diplomático, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, encontrou o chanceler russo, Sergey Lavrov. Em novembro, o presidente americano Joe Biden mandara o chefe da CIA, William J. Burns, viajar para Moscou para avisar aos russos que, caso fossem adiante com uma invasão, as represálias econômicas viriam em seguida. Até agora, os russos não levaram a ameaça a sério, talvez contando com falta de cooperação dos europeus, dependentes do seu gás.

Para a Rússia, o conflito vai além da questão militar. O tema gera alta carga emocional. Os dois países têm fortes laços culturais. A disputa militar tem separado famílias com o fechamento da fronteira. Para Putin e seus apoiadores, a visão pró-Ocidente de Zelensky é uma traição. A Ucrânia, pelo prisma russo, deveria continuar como integrante inalienável da esfera de influência de Moscou. É o que leva analistas a dizer que a invasão até pode não acontecer desta vez, mas ocorrerá algum dia.

O Globo

Pandemias futuras podem ser mais mortais e contagiosas, diz cientista

 




Sarah Gilbert pediu mais financiamento para a ciência

Por Carla Quirino 

Londres - A pesquisadora da vacina da Oxford-AstraZeneca, Sarah Gilbert, disse que "esta não será a última vez que um vírus ameaçará as nossas vidas e os meios de subsistência e pediu mais financiamento para que a ciência esteja melhor preparada. "Os avanços que fizemos e o conhecimento que adquirimos não devem ser perdidos", afirmou.

"Assim como investimos em forças armadas, serviços secretos e diplomacia para nos defendermos de guerras, devemos investir em pessoas, pesquisa, manufatura e instituições para nos defendermos de pandemias", sustentou Sarah Gilbert, citada no jornal britânico The Guardian.

No início de 2020, quando a covid-19 surgiu pela primeira vez na China e a doença se espalhou, Sarah Gilbert, professora de Vacinologia da Universidade de Oxford, e sua equipe criaram uma das vacinas contra o SARS-CoV-2.

Atualmente, a cientista diz que a doença está longe do fim e que a variante Ômicron, altamente mutável, não deverá ser a última. Para ela, o próximo vírus pode ser pior. "Pode ser mais contagioso, ou mais letal, ou ambos". 

"Não podemos permitir uma situação como a que passamos e, depois, descobrimos que as enormes perdas econômicas que sofremos significam que ainda não há financiamento nos prepararmos para uma pandemia", acrescentou. 

"Os avanços que fizemos e o conhecimento que adquirimos não devem ser perdidos", alerta a pesquisadora, chamando a atenção para a necessidade de continuar mantendo o investimento em ciência.

As declarações foram divulgadas depois de o Reino Unido ter registrado, nesse domingo (5), 246 casos da variante Ômicron e quase 44 mil novas infecções diárias, com 54 mortes a cada dia.

Foi descoberto, na variante Ômicron, que a proteína spike contém mutações já conhecidas, responsáveis por aumentar a transmissibilidade do vírus, disse Gilbert. "Mas há mudanças adicionais que podem significar que os anticorpos induzidos pelas vacinas, ou pela infecção com outras variantes, podem ser menos eficazes na prevenção da infecção pela Ômicron. Até sabermos mais, devemos ser cautelosos e tomar medidas para desacelerar a disseminação dessa nova cepa".

Mark Woolhouse, cientista que presta assessoria ao governo do primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, afirma, citado pela BBC: "Se as tendências atuais aqui e na África do Sul continuarem nas próximas semanas e meses, a nova Ômicron poderá substituir a Delta como estirpe dominante no mundo".

No fim de semana, o governo britânico anunciou que quem viaja para o Reino Unido tem de fazer teste de covid-19 no local de partida. A Nigéria foi adicionada à lista vermelha dos países potenciais importadores de Ômicron, por estar associada aos novos casos da variante em território britânico.

"Se a Ômicron está aqui no Reino Unido - e certamente está -, se há transmissão comunitária no Reino Unido - e certamente parece que sim -, então é essa transmissão comunitária que impulsionará a próxima onda", disse Woolhouse.

O cientista acrescenta que as novas restrições pecam por serem tardias e são muito tímidas, para fazer face a "uma onda potencial da variante no Reino Unido".

De acordo com o The Guardian, o grande percentual de novos casos, em geral, está relacionado a pacientes não vacinados. O líder trabalhista Keir Starmer, aproveitando essa informação, critica de forma veemente os que resistem à inoculação: "É frustrante e preocupante que os médicos estejam acompanhando muitas camas hospitalares, e os recursos do Serviço Nacional de Saúde estejam sendo usados por aqueles que optaram por não receber a vacina".

RTP / Agência Brasil

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Próxima pandemia pode ser mais letal, diz criadora de vacina contra covid

Por Becky Morton

Dame Sarah Gilbert defende que mais financiamento é necessário para a preparação para uma futura pandemia

Futuras pandemias podem ser mais letais do que a atual crise da covid, advertiu uma das criadoras da vacina Oxford-AstraZeneca.

A professora Dame Sarah Gilbert disse que é necessário mais financiamento para a preparação para uma pandemia de forma a evitar que os avanços feitos sejam perdidos.

Na ocasião, ela também alertou que as vacinas podem ser menos eficazes contra a variante ômicron. E acrescentou que as pessoas devem ser cautelosas até que se saiba mais sobre o assunto.

"Esta não será a última vez que um vírus ameaçará nossas vidas e meios de subsistência. A verdade é que o próximo pode ser pior. Pode ser mais contagioso, ou mais letal, ou ambos", disse a cientista.

"Não podemos permitir uma situação em que passamos por tudo o que passamos e depois descobrirmos que as enormes perdas econômicas que sofremos significam que ainda não há financiamento para a preparação para uma pandemia", afirmou. "Os avanços que fizemos e o conhecimento que adquirimos não devem ser perdidos."

Falando sobre a variante ômicron, ela disse que a proteína spike continha mutações conhecidas por aumentar a transmissibilidade do vírus.

"Mas há mudanças adicionais que podem significar que os anticorpos induzidos pelas vacinas, ou pela infecção com outras variantes, podem ser menos eficazes na prevenção da infecção pela ômicron", disse. "Até que saibamos mais, devemos ser cautelosos e tomar medidas para desacelerar a disseminação dessa nova variante."

No entanto, Dame Sarah apontou que a proteção reduzida contra infecções e doenças leves não significaria necessariamente proteção reduzida contra doenças graves e morte.

Ela também pediu que o rápido progresso observado na distribuição de vacinas e medicamentos durante a pandemia se tornasse a norma.

Dame Sarah começou a desenvolver uma vacina contra o coronavírus no início de 2020, quando a covid foi identificada pela primeira vez na China.

A vacina Oxford-AstraZeneca é agora a mais utilizado em todo o mundo, com doses enviadas para mais de 170 países.

A fala da cientista foi feita na 44ª Palestra Richard Dimbleby. O evento, que leva o nome do falecido apresentador Richard Dimbleby, apresenta palestrantes influentes da academia, artes e negócios e da Família Real.

Ômicron no Brasil

'Após Alfa, Beta, Gama e Delta, ômicron entra na lista das variantes de preocupação do coronavírus mantida pela OMS'

A ômicron foi encontrada em cerca de 40 países até agora — incluindo o Brasil.

Detectada pela primeira vez na África do Sul no final de novembro, essa nova versão do agente infeccioso vem chamando a atenção de especialistas pela quantidade e pela variedade de mutações genéticas.

Assim como em outros países, a terceira dose — ou dose de reforço — da vacina contra a covid-19 está sendo ofertada no Brasil.

Em meados de novembro, o Ministério da Saúde anunciou que todos os brasileiros com mais de 18 anos estão aptos a tomar uma terceira dose da vacina que protege contra a covid-19.

Até aquele momento, o reforço acontecia após seis meses e só era indicado para indivíduos com mais de 60 anos, profissionais da saúde e imunossuprimidos (pessoas com problemas no sistema imunológico).

BBC Brasil

Moro recoloca a ética no debate da política




A traição e a falta de lealdade residem em quem abandonou seus princípios e valores, apegando-se unicamente a suas posições de poder

Por Denis Lerrer Rosenfield (foto)

O ingresso do presidente Jair Bolsonaro em seu novo partido é revelador do nível em que caiu a política brasileira. Após uma campanha eleitoral contra a “velha política”, contra o “sistema”, clamando por uma renovação com toques religiosos de salvação nacional, eis que o novo “militante” do PL se curva a tudo o que dizia abominar. Qualquer traço de coerência ou de verdade simplesmente se evapora ou, melhor, desaparece, como se nunca tivesse existido. Coroando o ato, seu filho, senador Flávio Bolsonaro, disse em poucas palavras tudo o que este triste evento encerra: discursou contra o ex-presidiário Lula sem atentar, talvez, a que sua fala ocorria no partido de um ex-presidiário, antigo companheiro dos petistas.

Em seu livro, o ex-juiz Sérgio Moro relata que o presidente Bolsonaro se regozijou com a “libertação” de Lula, expondo, para quem quiser ver, a afinidade que os une, apesar das aparências discordantes. Enfim, seu inimigo figadal estaria “livre” para enfrentá-lo eleitoralmente, numa polarização altamente benéfica para ambos os contendores. Numa encenação que lhe é própria, o atual presidente vociferou contra as “mentiras” de Moro, mostrando o quão incomodado está com um candidato que pode colocar o seu favoritismo em questão. Diria que, para o seu adversário, quanto mais golpes receber, melhor será, na medida em que atrairá para si a atenção de todos os que estão preocupados com a moralidade na política.

As pesquisas de opinião têm retratado que a luta contra a corrupção teria deixado de ser uma prioridade nacional. Pudera, com tantos meliantes governando o País em tempos recentes, estava se produzindo um certo fastio, porque ninguém estava conseguindo hastear esta bandeira. O PT e Lula abandonaram esta pauta, visto que suas administrações se caracterizaram pelo mensalão, pelo petrolão e outros “ãos”, com seus dirigentes vagando pelos presídios do País. Bolsonaro, por sua vez, abandona esta bandeira mais preocupado em proteger a sua família. Nesse sentido, podese dizer que o retrato das pesquisas é o de uma situação tida, digamos, como “natural”, numa normalidade do tipo aterradora.

Com a entrada no jogo eleitoral de um símbolo da Lava Jato, da luta contra a corrupção, que conseguiu condenar e colocar na prisão figurões do mundo empresarial e político, ressurge uma demanda adormecida, a da ética na política, uma bandeira que tinha sido jogada no lixo. A fome, a miséria, a doença, a morte, a falta de emprego e de expectativa são o dia a dia da imensa maioria de nossa população, algo contrastante com o triste espetáculo de emendas parlamentares, inação governamental, discursos vazios e mentiras descaradas, exibindo o quão pouco de solidariedade, de honestidade e de lisura orientam boa parte dos políticos e governantes. Para uma pessoa normal, nosso panorama é propriamente vergonhoso. Quem pensou que esta pauta tinha passado, passou ao largo da política. O rápido crescimento da candidatura de Sérgio Moro bem mostra isso.

Contribuição decisiva para que a indignação moral cresça neste país, ganhando inclusive um contorno político, tem sido dada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), que, por várias “razões”, têm anulado as condenações da Lava Jato e “libertado” condenados. Subitamente, um ministro, apoiado ou não pelo colegiado, após vários anos “descobre” uma falha processual ou formal – seja chamada de “juiz natural”, seja que a Justiça Federal não seria a competente, mas a Justiça Eleitoral. Provas são jogadas no lixo, como se nada tivesse acontecido. Os “anulados” – na verdade, “absolvidos” – por este passe de mágica tornam-se politicamente “inocentes”. É o milagre da ressurreição eleitoral. Consagra-se a impunidade dos criminosos por ministros que se apresentam como “garantistas”. Aliás, garantistas de quê? De que crime não é mais crime?

A despeito de tantas decisões das mais altas Cortes voltadas contra a Lava Jato, a pauta da luta contra a corrupção ganhou força política. Quanto mais batem nesta operação judicial, mais ela cresce na opinião pública. Tentam vários ministros reescrever a história, como se fossem novos escribas, quando, na verdade, estão trazendo uma outra história à tona, a de que o crime deve ser punido, a de que a ética na política continua vigorando, a de que a Justiça deve valer para todos, e não apenas para os pobres e desfavorecidos.

Muitos ministros, secretários e assessores foram abandonando o atual governo. Alguns deles foram considerados traidores por saírem atirando. Ora, sair atirando é somente um modo de desqualificar a pessoa, porque o que de fato fizeram foi criticar e apresentar as razões de suas discordâncias. A verdadeira traição é a dos que descumpriram o prometido, mostrando que suas palavras de nada valiam, sendo meros instrumentos demagógicos e eleitorais. A traição e a falta de lealdade residem em quem abandonou seus princípios e valores, apegando-se unicamente a suas posições de poder. Eis o que estará, também, em jogo nas próximas eleições.

O Estado de São Paulo

Brasil – Rússia - Parceiro Estratégico ou só Kompromat*?

 



Por Nelson F Düring
 
Na sua live de última quinta-feira (02/DEZ/2021), Jair Bolsonaro disse que aceitou o convite de Vladimir Putin e viajará à Rússia no início do próximo ano.

O acerto foi feito depois de viagem do Ministro de Relações Exteriores Carlos Alberto França à Moscou, onde foi recebido pelo seu homólogo Sergey Lavrov e pelo assessor internacional do Presidente Vladimir Putin, Embaixador Yuri Ushakov. O Chanceler brasileiro ouviu promessas de interesses comuns na ONU (Conselho de Segurança), G-20 e BRICS, mas saiu das reuniões sem nenhuma garantia de apoio nas pautas estratégicas e comerciais, que interessam ao Brasil.

O Chanceler França foi cobrado pelo apoio à Rússia na questão ucraniana. Os russos anexaram a península da Crimeia em 2014 e provocaram uma guerra no leste do país que já matou mais de 14 mil pessoas. Estados Unidos e países europeus estão alarmados com a movimentação de tropas russas na fronteira com a Ucrânia, e uma invasão pode acontecer no mês de janeiro, segundo informações das agências de inteligência ocidentais.

Jair Bolsonaro já havia oferecido apoio ao seu homólogo ucraniano, Volodymyr Zelensky. Os dois se encontraram pessoalmente em 2019. Em abril deste ano, o deputado Eduardo Bolsonaro esteve em Kiev e foi recebido pelo chefe do parlamento. Enquanto que os russos fornecem armamento de última geração para a Venezuela, os ucranianos possuem no Brasil a sua segunda maior colônia na diáspora, a maioria deles no estado do Paraná.

O isolacionismo imposto pelos países europeus a Bolsonaro, em especial ações lideradas pela França e Alemanha, talvez tenha induzido Bolsonaro a cair na complexa rede de “kompromats” dos russos. Essa aproximação com Moscou foi mal recebida em Washington e acendeu uma luz vermelha em diversos gabinetes nas capitais europeias, principalmente em Estocolmo.

Fonte diplomática disse que os suecos poderiam embargar o negócio dos caças Gripen vendidos à Força Aérea Brasileira caso o Brasil mostrasse apoio à Rússia. Ou tornar ainda mais difícil, as negociações sempre complexas, com os suecos. Ou até poderiam degradar a performance e sistemas eletrônicos do caça F-39 Gripen.  

Em Kiev, os ucranianos se sentiram traídos pelos brasileiros. Havia até o plano de aquisição de aviões Super Tucano da Embraer, que deverá ser paralizado. Aliada ideológica de Bolsonaro, a Polônia é outro país que se preocupou com a reviravolta na política externa brasileira.

Fonte do Planalto disse à DefesaNet que contatos informais de diplomatas se acentuaram desde as declarações pró-russas de Bolsonaro. Informações de inteligência afirmam que a espionagem em Brasília aumentou nos últimos dias. Os atuais parceiros querem garantias do Brasil sobre seu posicionamento nas grandes questões globais. Caso se confirme o apoio brasileiro à Rússia, o Brasil poderá ter dificuldade na compra de armamentos e acesso a tecnologias sensíveis, isso também vai impactar nas exportações de produtos da Base Industrial de Defesa.

Ações da Rússia

Durante a pandemia a Federação Russa incentivou a negociação da vacina da Covid-19 SputnikV. Para isto procurou o Consórcio Nordeste, estados comandados por partidos de oposição ao goveno federal e apoiados em resoluções do Supremo Tribunal Federal, praticamente incentivaram uma secessão regional, que afetaria a integridade nacional. O assunto vacina SputnikV foi mencionado na entrevista coletiva dos dois chanceleres. O Brasil prometeu reconhecer a vacina assim que fosse recohecida internacionalmente.  

Em matéria exclusiva de DefesaNet, foi alertado sobre manobras russo-venezuelanas na fronteira norte do Brasil. Fato recohecido em audiênência pública da Comissão de Relações Exteiores da Câmara Federal pelo próprio Ministro da Defesa Braga Netto.  (Ver matéria  Exclusivo – Pela primeira vez Governo Brasileiro confirma russos operando na fronteira)

A visão dos militares brasileiros, bastante preocupados com a presença de militares russos na Venezuela, é de que a Rússia é um aliado complexo e cheio de nuances que a tornam incerta, e condenam a política externa de Moscou, que fez guerras e anexou parte dos territórios dos vizinhos Geórgia e Ucrânia. Apesar disso, um general da área de comunicações esteve na Rússia recentemente para conhecer as tecnologias russas. Moscou ainda pressiona pelo contrato de modernização dos helicópteros Mi-35 e a aquisição do sistema de defesa antiaérea Pantsir S2. Notícia plantada em recente exposição no Peru pelos russos.

A Marinha, que conduz um projeto de fragatas Clase Tamandaré, com a Alemanha e de submarinos com a França, também ficou preocupada com a repentina aproximação com a Rússia já que seus projetos de reequipamento poderiam sofrer reveses. A agressiva posição da Alemanha na reunião do Grupo Puebla, em apoio aos movimento de esquerda continental vai em direção contrária ao prometido pelo novo governo alemão às autoridades diplomáticas brasileiras, de que não ocorreria mudanças significativas frente ao Brasil. Embora o presidente Macron tenha provocado o Brasil, na recente viagem do ex-presidente Lula da Silva à França, o complexo militar-industrial francês consegue conter a sua influência. A Marinha monitora todos os movimentos no momento, que avança o programa de submarino de propulsão nuclear brasileiro. Embora a estatal Eletronuclear mantenha contatos com a russa ROSATOM.

Em 2016, na missão UNIFIL no Líbano, um navio de guerra russo iluminou com seu radar de tiro uma corveta brasileira, o que gerou bastante desconforto nos chefes navais.

O presidente Jair Bolsonaro e seus principais assessores internacionais, como o Almirante-de-Esquadra Flávio Rocha, precisam pensar e analisar, com cuidado, este complexo xadrex geopolítico global. Esses movimentos poderão minar a base de apoio interna do próprio presidente e colocar o país numa situação difícil de sair no concerto das nações. Quais seriam os ganhos?

Sem falar como ficam as relações com o maior parceiro comercial do Brasil. A China tem intereses comuns com a Rússia, mas não são aliados incondicionais.
 
*Kompromat – Técnica russa de comprometer o adversário ou até aliado para obter vantagens.

DefesaNet

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