domingo, outubro 25, 2026

Interferência de Trump em eleições, inclusive no Brasil, prejudica os EUA, afirma editorial do New York Times

 

Interferência de Trump em eleições, inclusive no Brasil, prejudica os EUA, afirma editorial do New York Times

Jornal americano cita tarifas contra o Brasil e apoio velado a Flávio Bolsonaro na disputa deste domingo contra Lula

Por Folhapress

25/10/2026 às 14:10

Atualizado em 25/10/2026 às 13:53

Foto: Reprodução/Instagram

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump

Em editorial publicado neste domingo (25), o jornal americano The New York Times critica a interferência do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nas eleições de outros países, incluindo o Brasil.

O texto afirma que Trump retoma uma tradição intervencionista da Guerra Fria, abandonada em grande parte por governos americanos nas últimas décadas, e classifica a postura como prejudicial à democracia e aos interesses dos próprios EUA.

O editorial cita medidas adotadas pelo governo Trump contra o Brasil, como a imposição de tarifas de 50% sobre a maioria dos produtos brasileiros em 2025 e sanções contra o ministro do STF Alexandre de Moraes e sua esposa, em uma tentativa de pressionar o país após a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe.

O jornal americano também menciona o apoio de Trump a candidatos de direita em outros países e afirma que suas ações favorecem políticos com tendências autoritárias.

O texto recupera ainda a participação dos EUA no golpe militar de 1964 no Brasil e argumenta que a redemocratização do país foi positiva para a comunidade internacional. Segundo o conselho editorial do NYT, ao tentar influenciar o voto de eleitores estrangeiros e pressionar governos democraticamente eleitos, Trump enfraquece a imagem dos EUA como defensor da democracia e reduz a influência internacional do país.

Leia a íntegra a seguir:

Os Estados Unidos têm um histórico problemático de interferência em eleições estrangeiras, em grande parte durante a Guerra Fria. Nas últimas décadas, porém, Washington passou a respeitar mais as outras democracias e, em geral, evitou intervir em suas campanhas eleitorais. Presidentes e seus assessores raramente chegaram a manifestar preferência sobre quem deveria vencer uma eleição em outro país.

O presidente Donald Trump está levando os Estados Unidos de volta ao passado intervencionista e contraproducente. Nos últimos dois anos, ele ou integrantes de seu gabinete endossaram candidatos na Argentina, na Colômbia, em Honduras, na Hungria, em Israel, no Japão e na Polônia. Em alguns casos, o governo Trump foi além e recompensou os candidatos de sua preferência com políticas favoráveis ou puniu países governados por políticos que deseja tirar do poder.

O exemplo mais recente é o Brasil, onde os eleitores escolherão neste domingo entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um populista de esquerda, e Flávio Bolsonaro, senador da direita radical cujo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, cumpre pena de 27 anos de prisão por tentativa de golpe após perder a última eleição.

Trump não endossou formalmente o filho de Bolsonaro, em parte por receio de que a iniciativa pudesse produzir o efeito contrário, disse um assessor da Casa Branca ao The Washington Post. Ainda assim, fez tudo, menos declarar oficialmente seu apoio.

Em uma tentativa frustrada de evitar que o ex-presidente Bolsonaro fosse preso, adotou medidas que se afastam radicalmente da tradição diplomática americana. Em 2025, o governo impôs uma tarifa de 50% à maioria das importações brasileiras e impôs sanções contra o juiz responsável pelo julgamento de Jair Bolsonaro e contra a mulher dele. As tarifas enfraqueceram a economia brasileira.

No mês passado, parlamentares democratas escreveram uma carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, acusando o governo de conduzir uma "campanha contínua e multifacetada de interferência e desestabilização no Brasil". Lula apresentou sua própria queixa na Organização das Nações Unidas no mês passado. Referindo-se à "maior potência militar do mundo", afirmou: "Estamos testemunhando novamente uma interferência externa nos processos eleitorais".

Essa intromissão prejudica a democracia e os interesses nacionais dos EUA. Interferir nas eleições de um Estado democrático é antidemocrático: afinal, os americanos não fazem parte do corpo político brasileiro. Por trás das intervenções do governo Trump está uma mensagem desrespeitosa: a de que os americanos —ou pelo menos um pequeno grupo deles— acreditam saber melhor do que os brasileiros o que é bom para o Brasil.

Historicamente, esse paternalismo produziu resultados ruins, inclusive para os próprios paternalistas. Governos eleitos democraticamente e livres de interferência externa têm sido parceiros diplomáticos e econômicos mais fortes e estáveis para outras democracias liberais.

Para agravar os danos, os candidatos preferidos de Trump tendem a ser hostis à democracia em seus próprios países, assim como ele próprio tem sido. Em sua maioria, são políticos de extrema direita com tendências autocráticas. Usam o poder do Estado para garantir acordos lucrativos para si mesmos, seus bajuladores e pessoas próximas a Trump. Tentam mudar as regras eleitorais para manter seus partidos no poder. Em alguns casos extremos, como o do ex-presidente Bolsonaro e o do próprio Trump, demonstram simpatia pela violência extremista cometida em seu nome.

É impossível saber quão eficaz foi a interferência de Trump no Brasil. Algumas de suas tentativas anteriores de influenciar eleições tiveram efeito contrário, como a constrangedora passagem do vice-presidente J. D. Vance pela Hungria em campanha em favor do autoritário Viktor Orbán, que os eleitores tiraram do poder pouco depois.

Na América Latina, os ventos políticos favorecem os partidos de direita mesmo em países onde a interferência de Trump é pequena. Muitos eleitores da região estão frustrados com o desempenho econômico dos governos de esquerda na última década e preocupados com os altos índices de criminalidade e migração.

Ainda assim, o envolvimento de Trump na região tem sido significativo. Os EUA têm poder econômico suficiente para afetar as economias de outros países, e o governo Trump buscou explicitamente recompensar aliados e punir adversários políticos na Argentina, no Brasil e na Colômbia.

Trump e seus assessores se gabam disso. No mês passado, o presidente afirmou: "Estamos indo muito bem na América do Sul" e se referiu a "muitas pessoas que eu elegi". Na Venezuela, foi muito além da interferência eleitoral: usou ilegalmente a força militar para depor o líder autocrático Nicolás Maduro e instalar um governo que frequentemente faz o que o governo Trump deseja.

Essas intervenções são especialmente prejudiciais no cenário atual. A política internacional é cada vez mais definida por duas alianças pouco coesas: uma dominada por democracias, entre elas os EUA, a União Europeia e o Japão; outra, por Estados autoritários, como China, Irã e Rússia.

Os líderes autoritários frequentemente fingem ser democratas —como nas eleições fraudulentas da Rússia— enquanto classificam os dirigentes de democracias de verdade como imperialistas. Trump joga a favor deles ao desrespeitar os cidadãos de outros países, dizer em quem devem votar e usar o poder econômico americano para influenciar o ambiente político.

Na disputa entre democracia e autocracia, as democracias deveriam ter uma grande vantagem perante a opinião pública mundial. É muito melhor viver em uma democracia do que em uma autocracia, e a maioria das pessoas reconhece isso: milhões de pessoas em todo o mundo gostariam de se mudar para os EUA ou para a Europa; relativamente poucas desejam ir para a China ou a Rússia.

A intromissão do governo Trump prejudicou essa vantagem de soft power [poder brando]. Em 2014, os habitantes do Brasil, do Chile, da Colômbia e do México tinham uma opinião substancialmente mais favorável dos EUA do que da China, segundo pesquisas do Pew Research Center. Neste ano, a vantagem americana havia praticamente desaparecido no Brasil; nos outros três países, a China tinha uma pequena dianteira. "As pessoas são muito mais propensas a dizer que os EUA interferem nos assuntos de outros países do que a afirmar o mesmo sobre a China", escreveu o Pew.

A história da democracia na América do Sul e na América Central nas últimas décadas do século 20 foi positiva. Várias juntas militares e ditaduras saíram de cena, e as democracias emergiram. Os EUA, que haviam sustentado regimes autocráticos, tornaram-se um defensor mais forte —embora ainda imperfeito— da democracia na região.

O Brasil foi um estudo de caso. No início dos anos 1960, o governo Kennedy gastou milhões de dólares em operações secretas no país para influenciar eleições legislativas e enfraquecer a esquerda, que apoiava o presidente João Goulart, visto como uma ameaça comunista. Essa intervenção clandestina levou ao golpe de 1964 e a duas décadas de regime autoritário respaldado pelos militares, durante as quais centenas de pessoas morreram ou desapareceram.

Em 1985, porém, um líder civil da oposição foi escolhido presidente, e o presidente Ronald Reagan reuniu-se rapidamente com ele para sinalizar apoio. Em 1989, o Brasil realizou uma eleição presidencial pela primeira vez em três décadas. O surgimento da democracia brasileira foi bom para o Brasil e para o restante do mundo, inclusive os EUA.

O que Trump parece não compreender é que a posição dos EUA no mundo se fortalece quando seus líderes tentam corresponder aos mais elevados ideais americanos. Trump despreza esses ideais e se importa sobretudo consigo mesmo. Nesse processo, prejudica outros países e enfraquece o poder americano.

Politica Livre

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