Por Revista Será? | out 16, 2026 | Opinião | 1 |

Av Paulista
O Brasil está politicamente fraturado, dividido numa polarização cristalizada entre o lulismo e o bolsonarismo que apontam para dois futuros completamente diferentes em quase todas as áreas – respeito às instituições democráticas, independência da política externa, conservação do meio ambiente e qualidade das políticas sociais – como atestam as posições e a história política do Presidente Lula da Silva e do Senador Flávio Bolsonaro. A menos de dez dias das eleições, o resultado eleitoral está absolutamente indefinido, com um persistente empate técnico, a leve vantagem de Flávio ameaçada pela melhoria recente do desempenho de Lula, especialmente entre os jovens. Depois do susto com o resultado do primeiro turno, a militância de esquerda e centro-esquerda saiu às ruas numa grande mobilização, que parece já ter atraído parcela de eleitores independentes.
A campanha de Flávio, ao contrário, priorizou a busca de adesão e apoio de lideranças – Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Augusto Cury, que disputaram o primeiro turno, e Michel Temer – e de partidos políticos formando uma frente com o Republicanos, o União Brasil, o PP, o Novo e o Podemos, além da maioria dos diretórios do MDB. O resultado das duas estratégias é imprevisível: a mobilização da militância impressiona e atrai eleitores, enquanto a atuação dos partidos com capilaridade pode ir direto ao eleitor independente e indeciso e aos conservadores que se abstiveram no primeiro turno. A pesquisa Quaest mostra, contudo, que os eleitores que não votaram ou anularam o voto no primeiro turno têm uma preferência maior por Lula (43%) que por Flávio (38%).
A campanha tem sido muito pobre no debate de ideias e no confronto de propostas, deixando de explicitar as enormes diferenças políticas entre os candidatos, numa eleição caracterizada pela rejeição e pelo medo. De acordo com a pesquisa citada, 54% dos entrevistados não votam em Flávio em nenhuma hipótese e 53% rejeitam igualmente o presidente Lula; além disso, 43% dos eleitores têm tanto medo da continuidade do governo Lula quanto da volta dos Bolsonaros ao poder. O risco para a democracia é o principal receio que o eleitorado tem de uma eventual vitória de Flávio, lembrando, com razão, dos discursos e da tentativa de golpe de Estado liderado por Jair Bolsonaro.
Para aumentar o medo e a rejeição ao adversário, a campanha de Lula tem se concentrado na desqualificação do Senador, citando a sua ligação com milicianos e a lembrança da desastrosa passagem de Jair Bolsonaro pelo poder. No outro lado, Flávio gasta o tempo em se defender (tentando reduzir o medo que desperta no eleitorado) e na exploração do cotidiano duro dos brasileiros diante da carestia e da violência, na expectativa de elevação do receio dos eleitores com a continuidade do governo Lula.
Na última semana de campanha, o presidente Lula deve avançar na mobilização da militância, nas ruas e nas redes sociais, e vai ter dois trunfos importantes para conquistar corações e mentes: o programa lançado esta semana de apoio às MEIs e a aprovação da redução da jornada de trabalho. Flávio depende do engajamento das lideranças e partidos que declararam apoio. Embora 9% dos entrevistados digam, na pesquisa, que ainda podem mudar o voto, o percentual de votos brancos, nulos e abstenções caiu para apenas 9% dos eleitores. O espaço para avançar é bem restrito. Mas, num empate técnico, qualquer movimento pode definir a vitória ou a derrota. Os debates entre os dois candidatos, com temas que vão, finalmente, obrigar Lula e Flávio a explicitarem e defenderem posições e programas, podem decidir as eleições. Talvez menos pelo conteúdo das propostas e mais pela demonstração de competência, conhecimento da realidade brasileira e da capacidade de convencimento dos brasileiros.
https://revistasera.info/2026/10/o-brasil-rachado-e-empatado-editorial/