Eleitor precisava menos de acusações e mais de respostas
Pedro do Coutto
O primeiro debate entre Lula da Silva e Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais deveria ter sido uma oportunidade para que os dois candidatos apresentassem, com clareza, o país que pretendem governar a partir de janeiro.
Precisava saber como cada candidato pretende enfrentar os problemas concretos da economia, da segurança, da saúde, do emprego e das contas públicas. O que recebeu, entretanto, foi um confronto dominado por ataques pessoais, acusações de corrupção e tentativas de associar o adversário a escândalos e comportamentos que, em muitos momentos, ocuparam o espaço que deveria pertencer às propostas.
TEMAS RELEVANTES – Isso não significa que o debate tenha sido vazio de conteúdo. Houve discussões relevantes. Segurança pública, sistema prisional, saúde, endividamento das famílias, escala de trabalho e política econômica apareceram no confronto. Flávio Bolsonaro defendeu, entre outras medidas, uma política mais dura contra organizações criminosas, ampliação da estrutura penitenciária e um modelo de saúde inspirado em experiências de gestão privada. Lula respondeu com propostas de maior coordenação federal da segurança e com a defesa do fortalecimento do SUS. Na economia, os dois apresentaram caminhos diferentes para enfrentar o endividamento e ampliar a atividade.
O problema foi a dificuldade de transformar essas propostas em uma discussão sobre sua viabilidade. Uma eleição presidencial não pode ser reduzida à capacidade de um candidato expor as fragilidades do outro. O eleitor precisa conhecer custos, fontes de financiamento, prioridades, prazos e consequências. Prometer é uma parte relativamente fácil da política. Explicar como cumprir é o verdadeiro teste de responsabilidade de quem pretende governar.
A discussão sobre o fim da escala 6×1 é um bom exemplo. A medida tem forte apelo entre os trabalhadores e ganhou espaço na campanha. Lula apresentou a redução da jornada como uma conquista associada a uma semana de 40 horas e vinculou a mudança a outras medidas, como a ampliação do transporte gratuito aos fins de semana. A questão, porém, não termina na promessa. É preciso discutir seus efeitos sobre empresas, trabalhadores, produtividade, salários, preços e geração de empregos. A pesquisa Nexus/BTG divulgada nesta segunda-feira mostra que 66,2% dos eleitores apoiam o fim da escala 6×1, o que ajuda a explicar a centralidade eleitoral do tema.
FLEXIBILIZAÇÃO – Flávio Bolsonaro, por sua vez, incorporou ao discurso a defesa do fim da escala 6×1, embora sua agenda trabalhista também inclua propostas de flexibilização das relações de trabalho. Reportagem da Folha mostrou que sua campanha passou a explorar uma bandeira tradicionalmente associada à esquerda, ao mesmo tempo em que mantém uma proposta de contratos mais flexíveis. A questão, portanto, não é apenas quem apoia ou rejeita uma determinada mudança, mas qual modelo de mercado de trabalho cada candidato pretende construir e quais serão os efeitos para quem trabalha e para quem emprega.
Algo semelhante ocorreu com o chamado Ministério da Prosperidade anunciado por Flávio Bolsonaro. A ideia pode ser apresentada como uma tentativa de reorganizar políticas sociais e econômicas, mas o nome, por si só, não produz prosperidade. O desenvolvimento de um país depende de produtividade, investimento, educação, infraestrutura, estabilidade institucional, crédito, inovação e capacidade de geração de empregos. Criar uma estrutura administrativa pode ajudar a coordenar políticas, mas não substitui essas condições. O próprio debate mostrou que há uma diferença importante entre anunciar uma finalidade política e demonstrar o caminho para alcançá-la.
Também Lula poderia ter sido mais preciso ao explicar como pretende transformar suas propostas em resultados concretos. A reindustrialização, a inovação tecnológica, a expansão de programas sociais e a ampliação de serviços públicos exigem recursos e escolhas orçamentárias. Não basta apresentar uma agenda socialmente atraente; é necessário mostrar como ela será sustentada diante das restrições fiscais e de um país que continuará precisando conciliar investimento, crescimento e responsabilidade nas contas públicas.
TROCA DE ACUSAÇÕES – Foi justamente nesse ponto que o debate perdeu uma parte importante de seu valor democrático. A troca de acusações pode produzir audiência, mobilizar militantes e alimentar as redes sociais, mas dificilmente ajuda o eleitor indeciso a compreender qual governo será capaz de entregar resultados. A disputa pela Presidência não deveria ser uma competição para descobrir quem consegue atribuir ao outro a maior quantidade de problemas. Deveria ser uma comparação entre propostas, prioridades e capacidade de execução.
O eleitor também precisa separar acusações políticas de fatos comprovados. Num ambiente eleitoral marcado pela desinformação e pela radicalização, lançar uma suspeita contra o adversário não equivale a demonstrá-la. Da mesma forma, negar uma acusação não encerra automaticamente uma investigação. Questões envolvendo corrupção, patrimônio, relações empresariais ou condutas de agentes públicos devem ser submetidas às instituições responsáveis, à investigação e às provas. Transformá-las em armas retóricas pode ser eleitoralmente conveniente, mas empobrece o debate público.
O encontro da Band revelou, portanto, uma contradição da própria campanha. Quanto mais apertada parece a disputa, maior deveria ser a responsabilidade dos candidatos em explicar o que pretendem fazer. Entretanto, quanto maior a pressão pela conquista dos votos, maior parece ser também a tentação de transformar o debate em uma disputa de acusações. Reuters e Associated Press registraram justamente esse ambiente de confronto, embora tenham destacado que temas relevantes também foram tratados.
QUALIDADE POLÍTICA – A audiência elevada não deve ser confundida com qualidade política. Um programa pode atrair milhões de espectadores porque existe uma enorme expectativa em torno do choque entre duas candidaturas fortemente polarizadas. Isso demonstra o interesse da sociedade pela eleição, mas não necessariamente a qualidade do conteúdo oferecido. A política não melhora porque um debate é visto por muita gente; melhora quando os cidadãos terminam de assisti-lo com mais elementos para decidir.
O próximo confronto, marcado para sexta-feira, 23 de outubro, na Globo, será a última grande oportunidade televisiva antes da votação do dia 25. O desafio, portanto, não é apenas para os candidatos, mas para o próprio processo eleitoral: transformar o confronto em comparação. Lula e Flávio Bolsonaro não precisam concordar, muito menos deixar de fazer críticas duras. Precisam, entretanto, explicar como pretendem governar.
MAIS PREPARADO – O Brasil não irá às urnas para escolher quem foi mais agressivo em um estúdio de televisão. Escolherá quem considera mais preparado para enfrentar problemas que continuarão existindo na segunda-feira, independentemente do resultado: segurança, emprego, inflação, saúde, educação, dívida pública, infraestrutura e desigualdade. Promessas eleitorais podem conquistar votos; somente políticas executáveis produzem resultados.
O verdadeiro teste do debate da Globo, portanto, não será descobrir quem atacará melhor o adversário. Será saber se os dois candidatos conseguirão finalmente responder à pergunta que interessa ao eleitor: o que exatamente pretendem fazer, quanto isso custará e como farão para entregar o resultado prometido? É essa diferença entre campanha e governo que pode transformar uma eleição marcada pela polarização em uma escolha efetivamente democrática.