Flávio atacou para não responder várias perguntas
Deu no O Globo
Em um debate esvaziado de propostas, que ficou marcado pela troca de acusações, o senador Flávio Bolsonaro e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se questionaram sobre as investigações dos descontos indevidos no INSS e do escândalo ligado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, entre outros temas.
Várias perguntas ficaram sem resposta. Embora tenha se exibido desempenho superior ao do concorrente no primeiro embate de segundo turno na TV, de acordo com os colunistas do O Globo, o candidato do PL foi também quem mais desviou de questionamentos.
LICENÇA-MATERNIDADE – Logo no início do debate, Lula perguntou a Flávio: “Em 2009, você como deputado estadual, sabe, tinha uma discussão na Assembleia para ampliar a licença maternidade das funcionárias. E de 49 deputados, você foi o único que votou contra a mulher ter dois meses mais para cuidar da criança. O que você tem contra as mulheres?”.
O candidato do PL disse não ter “nada” contra as mulheres e emendou elogios à mulher, Fernanda Bolsonaro, e às duas filhas. O petista insistiu no tema da licença-maternidade: “O que você tem que garantir que as mulheres tenham apenas mais dois meses para cuidar de uma criança? Por que você votou contra?”. Ficou novamente sem resposta.
ROBERTA LICHSINGER – Quando teve a palavra, Flávio desviou o assunto e questionou ao presidente se ele conhecia Roberta Luchsinger. Lula não respondeu se tinha algum vínculo com a lobista, apontada pela Polícia Federal (PF) como peça-chave de um suposto esquema de tráfico de influência durante o terceiro mandato do seu governo.
Flávio então retomou os ataques a Lula e repetiu a pergunta. “A Roberta é uma questão da Polícia Federal. E a Polícia Federal vai cuidar. E quando a Polícia Federal fizer a investigação, você vai saber o que é a Roberta”, disse o candidato do PT.
“Por que a sua Polícia Federal está investigando a Roberta?”, insistiu Flávio, que ouviu o adversário descrevê-la como “parceira” do “sócio” de Flávio. O presidente acusou o adversário de ser “sócio do Careca do INSS”, Antônio Carlos Camilo Antunes, com quem a lobista trabalhava.
LULINHA – Flávio, então, virou a artilharia para Fábio Luís Lula da Silva, primogênito do rival: “Por que a sua Polícia Federal só vai na casa dela e não vai na casa do seu filho. Cadê o Lulinha?”. Lula voltou a dizer que Roberta era um “problema da Polícia Federal”. Flávio então disse que Lulinha “mora em um bairro muito rico” na Espanha e questionou: “Quem é que está sustentando o seu filho?”. Depois, questionou por que Lulinha “está fugido” no país europeu.
Sem responder diretamente às perguntas, Lula disse que seu filho “abriu a sua conta bancária e o seu telefone para ser investigado”. Emendou que, no seu governo, não promoveu mudanças na Polícia Federal para proteger qualquer um e lembrou que o irmão de Flávio, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL), está nos Estados Unidos “tramando contra o Brasil”.
No mesmo embate, Lula disse que o esquema vinculado ao Careca do INSS começou no governo de Jair Bolsonaro e questionou o rival: “A quadrilha foi montada ou não foi?”. Flávio desviou: “No seu governo tem muitas quadrilhas” e focou no assunto Lulinha.
DANIEL VORCARO – Em outro momento do debate, Lula pediu que o oponente explicasse por que pediu R$ 134 milhões para o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso sob acusação de fraude bilionária com o Banco Master, do qual era dono. “Eu quero olhar para você aqui em casa”, afirmou Flávio, e Lula reforçou a pergunta, sem receber resposta. “Calma que não é dinheiro por fora igual o teu, não”, desviou o senador.
Lula questionou Flávio se o dinheiro pedido a Vorcaro, que o clã Bolsonaro afirma ter sido um financiamento privado para a produção do longa “Dark horse”, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro, foi usado para “ajudar o seu irmãozinho a ficar traindo do Brasil”. O petista fez referência à investigação que apura se o dinheiro ajuda a sustentar Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. “Quem deve explicação aqui é você”, afirmou Flávio.
CASO ANA CLARA – Lula também perguntou a Flávio Bolsonaro por que ele decidiu defender, como advogado, o policial militar Bruno Dias Delaroli da acusação de matar Ana Clara Machado, de 5 anos, com dois tiros de fuzil em uma favela em Niterói (RJ), em 2021. “Ô Lula, com você, a criminalidade explodiu no Brasil”, disse Flávio, que pediu ao presidente para explicar por que mais de 70% dos presidiários provisórios votaram no PT. “Eu quero que votem 100%, até teu pai”, rebateu o petista.
Lula insistiu na pergunta sobre a defesa do policial e se o militar havia apoiado Flávio na eleição. Depois, também questionou o senador se ele deu emprego para “a irmã e para a mulher do cara que é do Escritório do Crime, que mandou matar a Marielle [Franco]”. (O grupo chegou a ser investigado pelo crime, mas não foi apontado como o mandante oficial.)
EMPREGOS – O presidente se referia ao fato de o gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) ter empregado parentes do ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega — apontado como chefe de milícia e líder do grupo de matadores de aluguel, ele foi morto em 2020 na Bahia. Flávio não respondeu e preferiu retomar o assunto Lulinha: “Seu filho votou em você, Lula?”. O petista não falou sobre a escolha eleitoral do filho.
Durante o debate, Lula ainda perguntou a Flávio: “Quantas armas você tem em casa?”. Ficou novamente sem resposta, já que o senador partiu para o ataque, repetindo a mesma frase mais de uma vez: “Você liberou as armas para os traficantes”.
Mais à frente no embate, Lula questionou o rival pela mudança de posicionamento sobre o fim da escala 6×1. O senador deu voto favorável à proposta, aprovada no Congresso Nacional sob forte apoio popular, embora tenha criticado a medida e acenado ao lado patronal ao longo da campanha. “Por que você era contra?”, pressionou o petista. Flávio afirmou que o presidente só “faz fake news”.
MODELO MILEI – Ainda no tema da economia, Lula lembrou que Flávio é aliado do presidente argentino, Javier Milei, e o provocou a comentar o cenário das finanças do país vizinho: “Já que você é amigo do Milei, você tem acompanhado como é que está a Argentina? Você continua dizendo que o teu modelo é o modelo do Milei?”, questionou o petista.
“E o seu amigo, que é o Ortega, da Nicarágua, um ditador. Seu amigo que é o Maduro, que está preso? Esses são seus amigos”, disse Flávio, sem se referir à Argentina.
Lula insistiu em falar do país vizinho e descreveu o modelo econômico como “a motosserra do Milei”, perguntando novamente se o rival acompanhava as finanças. “O governo de esquerda deixou tanta gente na miséria que é difícil”, afirmou o senador, que então prometeu “consertar o Brasil”.
SUS – Em outro momento do debate, ao comentar a intenção declarada do rival de levar o “padrão Einstein” para o Sistema Único de Saúde, Lula questionou se o objetivo do adversário era privatizar o SUS. Emendou menções ao incentivo do uso de remédios sem comprovação científica durante a pandemia de Covid-19 e as críticas à vacina no governo de Jair Bolsonaro. “A minha pergunta é o seguinte: vocês não gostam do SUS?”, questionou o petista.
Flávio não respondeu, mas fez um mea culpa sobre a gestão do pai nessa área. “A saúde não foi uma área que a gente teve o melhor resultado durante o governo do presidente Bolsonaro”.