O fator Tarcísio
É aí que entra Tarcísio de Freitas. De olho no trono vago com a decadência do bolsonarismo, o governador reeleito de São Paulo pelo Republicanos já vem dando sinais de afastamento do clã. Disse que “a eleição já passou”, não endossou o discurso golpista de Flávio após a derrota e passou a falar em pacificação e “projeto de país”.
O que Tarcísio esquece é que o sobrenome Bolsonaro ainda sobrevive no núcleo brasileiro da extrema direita. Michelle, recém-eleita senadora pelo PL no Distrito Federal, também está de olho no espólio e, com a benção de Jair e mandato garantido por oito anos, se credencia para assumir a liderança do grupo ao menos em Brasília.
Tudo vai depender do que o novo Congresso, que surfou a “onda de direita” do 1º turno, vai fazer a partir de 2027. A promessa de varrer o STF com impeachments de ministros, convenhamos, não é nada moderada – pelo contrário, vem recheada de ódio e rancor. Isso sem contar os planos para frear propostas como o fim da escala 6x1 e o avanço da regulação das big techs, defendidas por Lula.
Tudo vai depender de quem dará as cartas no Legislativo. No Senado, o primeiro embate interno da extrema direita deve se dar na disputa pela presidência da casa. De um lado, Rogério Marinho, do PL do Rio Grande do Norte, braço-direito de Flávio na eleição e defensor da proposta de remuneração por “horas trabalhadas”. De outro, Tereza Cristina, do PP do Mato Grosso do Sul, ex-ministra da Agricultura no governo Bolsonaro.
Se não houver consenso entre quem representará a extrema direita na eleição para comandar o Senado, o caminho estará aberto para a base governista se unir e reeleger Davi Alcolumbre, do União Brasil do Amapá, que tem se alinhado cada vez mais a Lula e ao Centrão para se garantir no poder por mais dois anos.
Já na Câmara, os expoentes da extrema direita serão Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais, deputado federal que recebeu mais de 3,1 milhões de votos, e Sóstenes Cavalcante, do PL do Rio de Janeiro, aliado de Silas Malafaia e investigado pela Polícia Federal. Embora nenhum dos dois figure na lista de apostas para presidir a casa, fato é que nenhum plano do grupo por lá avançará sem a articulação e o aval dos dois.
Quem diria que, menos de um mês após comemorar uma vitória de peso nas urnas, a extrema direita estaria nesta encruzilhada? Os próximos dias serão cruciais para saber se haverá um racha mais intenso ou se, novamente, eles vão abraçar o golpismo e a idolatria a Trump para seguir jogando – e conspirando – contra o futuro do Brasil.