
Brasil caiu nas oitavas de final depois de 36 anos
Pedro do Coutto
A eliminação da Seleção Brasileira diante da Noruega ficará marcada como um dos capítulos mais decepcionantes da história recente do futebol nacional. Mais do que a derrota em si, chamou atenção a maneira como ela ocorreu.
O Brasil apresentou um futebol pobre, desorganizado, sem criatividade e distante da identidade que, durante décadas, transformou a camisa amarela em sinônimo de excelência. A manchete publicada por O Globo nesta segunda-feira sintetiza com precisão o sentimento predominante entre torcedores e analistas: “O Brasil fez a pior Copa nos últimos 36 anos”.
SEM RITMO – O desempenho brasileiro não pode ser explicado apenas pelos méritos da Noruega, que atuou com disciplina tática, intensidade e eficiência. A equipe europeia controlou a maior parte da partida, neutralizou as principais peças brasileiras e explorou as fragilidades defensivas sem encontrar grande resistência. Em nenhum momento a Seleção conseguiu impor seu ritmo ou transmitir a sensação de que poderia reverter o cenário adverso.
A atuação foi decepcionante tanto do ponto de vista coletivo quanto individual. O Brasil demonstrou enorme dificuldade para manter a posse de bola, construir jogadas ofensivas e exercer qualquer tipo de pressão consistente sobre o adversário. A circulação de bola foi lenta, previsível e marcada por inúmeros erros de passe. Sem organização, os jogadores pareciam atuar de maneira isolada, sem coordenação entre os setores e sem um plano de jogo claramente definido.
Desde os primeiros minutos, a equipe transmitia insegurança. A perda do controle emocional ficou evidente após sofrer o primeiro gol, quando o time passou a cometer erros ainda mais frequentes. Em vez de reagir, a Seleção pareceu sentir o peso do resultado, tornando-se presa fácil para um adversário que executava com precisão sua estratégia.
ANCELOTTI – Grande parte das críticas naturalmente recai sobre o técnico Carlo Ancelotti. Reconhecido mundialmente por sua trajetória vitoriosa no futebol europeu e pela capacidade de administrar elencos estrelados, o treinador italiano ainda não conseguiu transferir esse prestígio para o comando da Seleção Brasileira. Contra a Noruega, sua equipe apresentou exatamente aquilo que se espera evitar em um torneio de alto nível: falta de identidade, pouca intensidade, dificuldade de adaptação durante a partida e ausência de alternativas táticas quando o plano inicial fracassou.
As substituições pouco alteraram o panorama do jogo. O Brasil permaneceu previsível, sem criatividade e incapaz de modificar a dinâmica da partida. A impressão deixada foi a de uma equipe sem mecanismos ofensivos trabalhados e sem repertório para enfrentar uma marcação bem organizada. Em competições curtas, nas quais cada detalhe pode definir a classificação, essa limitação cobra um preço elevado.
Também é impossível ignorar que a Seleção atravessa um processo de desgaste que antecede a chegada de Ancelotti. Nos últimos anos, o futebol brasileiro perdeu regularidade em competições internacionais, passou por sucessivas mudanças de comando técnico e ainda busca reconstruir uma identidade competitiva. Entretanto, um treinador contratado justamente para corrigir essas deficiências precisa ser avaliado pelos resultados e, principalmente, pela evolução apresentada em campo. Neste aspecto, a campanha deixa poucas razões para otimismo.
TRADIÇÃO – O contraste entre a tradição brasileira e o desempenho atual torna a decepção ainda maior. O país que construiu sua história sobre um futebol criativo, ofensivo e tecnicamente refinado apresentou justamente o oposto: pouca inspiração, baixo poder ofensivo e enorme dificuldade para controlar uma partida decisiva. Não se trata apenas de uma derrota, mas de uma atuação que simboliza o momento de instabilidade vivido pela equipe nacional.
Embora Ancelotti tenha contrato até 2030, a permanência de um treinador em uma seleção de futebol nunca depende apenas da duração do vínculo formal. Ela está diretamente ligada aos resultados, ao desempenho coletivo e à confiança da direção da confederação, dos jogadores e da torcida. Quando esses elementos começam a desaparecer, a pressão torna-se inevitável.
PLANEJAMENTO – Ainda é cedo para afirmar qual será a decisão da Confederação Brasileira de Futebol, mas a eliminação diante da Noruega certamente muda o ambiente em torno do treinador. Uma campanha considerada a pior em mais de três décadas não pode ser tratada como um simples tropeço. Ela exige uma análise profunda sobre planejamento, modelo de jogo, preparação e capacidade de reação diante dos desafios do futebol internacional.
O Brasil continua sendo uma das maiores potências da história do esporte, mas tradição, por si só, não vence partidas. O futebol moderno exige organização, intensidade, equilíbrio tático e capacidade de adaptação. A derrota para a Noruega evidencia que ainda há um longo caminho até que a Seleção volte a apresentar um futebol compatível com sua história.