6 x 1 pra vocês, BMW pra mim
O deputado federal Bibo Nunes, do PL do Rio Grande do Sul, é um cristão de bem, preocupado com os valores da família tradicional brasileira e toda aquela ladainha que os bolsonaristas usam como escudo moral para cometer as maiores barbaridades.
Durante o governo Bolsonaro, ele disse que alunos de universidades federais contrários ao então presidente tinham “que viver no lixo, no esgoto” e mereciam “morrer queimados”.
Esse anjo da política brasileira agora ataca os trabalhadores que lutam contra a escala 6x1. Ele foi um dos 22 deputados que votaram contra a proposta de emenda constitucional, a PEC, que acaba com a jornada exaustiva. Bibo Nunes subiu ao púlpito da Câmara e defendeu que o trabalhador tem que trabalhar mais, não menos: “O homem mais rico do mundo, Elon Musk, disse que quem trabalha menos de 60 horas por semana jamais terá prosperidade além do normal. Vocês querem ser normais: trabalhar pouco e ganhar pouco”.
Esse papo de coach é tão delirante que o bolsonarista nem percebe que ele próprio contraria a pensata que ele pegou emprestado de Elon Musk. O deputado vai à Câmara três dias por semana e ganha quase R$ 50 mil por mês, sem falar nos generosos benefícios. Trabalha pouco, ganha muito.
A internet não perdoa e logo lembrou que o deputado gastou quase R$ 58 mil da cota parlamentar para alugar um BMW no mandato passado. À época, Bibo defendeu a escolha do carro de luxo e reclamou da vida de deputado: “Esse é o meu estilo de vida desde sempre, eu sempre andei de Mercedes, de BMW, eu não vou abaixar o meu estilo de vida só porque sou deputado. Eu já perco muito sendo deputado”.
“Cara de pau” é uma expressão fraca para descrever o que faz Bibo Nunes. É muito mais que isso. O deputado quer que o povo se esfole na escala 6x1, enquanto desfruta de uma vida mansa, sustentada por quem realmente produz. Não há maneira sincera e honesta de descrever esse escárnio sem ferir o Código Penal.
Nikolas, guerreiro do povo brasileiro?
A bancada do PL passou os últimos dias atacando com força a PEC que acaba com a escala 6x1. Segundo os bolsonaristas, a proposta é uma medida eleitoreira do governo que quebrará a economia do país. Do dia pra noite, os bolsonaristas mudaram radicalmente de opinião. Decidiram não somente apoiar a escala 5x2, mas garantir ainda mais folga para o trabalhador, propondo uma jornada 4x3.
A mudança não foi por convicção, claro. Eles ainda acreditam que diminuir o tempo de trabalho será destrutivo para a economia. O objetivo foi criar uma proposta tão radical que se tornaria inviável, empurrando para o governo e para a esquerda o ônus de dizer “não” a um benefício ainda maior para os trabalhadores. Vejam o nível de covardia da turma.
O deputado federal Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais, que sempre foi um dos mais aguerridos contra o fim da escala 6x1, não escondeu que sua intenção foi mesmo a de usar o trabalhador como bucha de canhão para constranger o governo: “[Queremos] apoiar não somente a 5x2, mas apoiar a 4x3, que seja vigorado amanhã e que a quebradeira comece antes das eleições”, disse. “A gente quer mostrar que quando der merda, a culpa é deles”.
Perceba que o chaveirinho do bolsonarismo não demonstrou o menor constrangimento em confessar que votou a favor de uma medida que julga ser péssima para o país e para os trabalhadores. Ele quer ver o oco. Quer que a “quebradeira comece antes das eleições”.
Em discurso no plenário da Câmara, o deputado continuou com a selvageria: “Quando houver demissão em massa, quando aumentar o preço dos produtos, quando o empreendedor não conseguir mais e tiver que demitir a pessoa para contratar outro... Aí, meus amigos, esse dia vai ser maravilhoso”.
Nikolas não esconde a satisfação em imaginar um cenário destrutivo para a economia, com desemprego em massa. Quando o apocalipse chegar, “vai ser maravilhoso”, diz ele. O deputado mais votado do país não sente o menor pudor em escancarar que deseja ver o povo se ferrar junto com o governo. Nada mais pode ser mais representativo do bolsonarismo do que isso.