EDITORIAL: O Canal do São Francisco como Redenção do Rio Vaza-Barris – A Solução Depende de Vontade Política
O Rio Vaza-Barris é um dos cursos d'água mais emblemáticos e estrategicamente importantes para a nossa geografia regional, serpenteando por terras ricas e carregando a história do nosso povo. No entanto, quem caminha por suas margens e conhece de perto a realidade dos ribeirinhos depara-se com um paradoxo doloroso: o solo é de excelente qualidade, os terrenos são planos, bons e extremamente produtivos, mas a escassez crônica de água limita o potencial da região. Na agricultura e no semiárido, sem o líquido sagrado, não existe milagre.
Atualmente, os produtores ribeirinhos resistem bravamente. Eles conseguem produzir e abastecer mercados locais com hortaliças, frutas e culturas de subsistência, demonstrando uma vocação agrícola inata. Contudo, essa produção ainda é insuficiente, de pequena escala e operada de forma primária, justamente porque falta a segurança hídrica necessária para que o trabalhador possa planejar, investir e expandir suas plantações. Para resolver o problema do Rio Vaza-Barris de forma definitiva, só existe uma solução verdadeira: uma grande obra de infraestrutura para trazer um canal de transposição partindo do Rio São Francisco.
A Engenharia da Fartura: O "Velho Chico" Alimentando o Vaza-Barris
A ideia de interligar bacias hidrográficas não é utopia; é uma realidade técnica que já transformou outras regiões do Nordeste. Trazer um canal do Rio São Francisco para alimentar a calha do Vaza-Barris seria a redenção econômica e social de uma vasta área que abrange diversos municípios.
Perenização e Regularidade: O Vaza-Barris sofre severamente com os períodos de estiagem, reduzindo seu volume a filetes de água ou secando em determinados trechos. O aporte contínuo das águas do São Francisco garantiria a perenização do rio, mantendo o nível estável durante todo o ano.
Transformação do Modelo Agrícola: Com água garantida e em abundância, a agricultura primária e de subsistência daria lugar a polos modernos de irrigação. As terras férteis das margens responderiam imediatamente, multiplicando a produtividade, gerando empregos no campo e atraindo agroindústrias para a região.
Segurança Hídrica para o Povo: Além do ganho econômico na lavoura e na pecuária, o projeto asseguraria o abastecimento humano de dezenas de comunidades rurais e sedes municipais que hoje ainda dependem de poços artesianos de água salobra ou do socorro paliativo de carros-pipa.
A Barreira Não é Técnica, é a Falta de Vontade Política
Projetos dessa magnitude não saem do papel por falta de engenheiros ou por incapacidade financeira do Estado, mas sim pela ausência de vontade política. O Brasil possui recursos e tecnologia de ponta para executar canais de transposição e adutoras de grande porte. O que falta é o alinhamento de forças e o empenho real das bancadas federais, dos governadores e do governo central para colocar o Vaza-Barris na prioridade do orçamento nacional.
Muitos políticos preferem manter o ciclo das medidas paliativas — que rendem dividendos eleitorais a cada seca — a abraçar uma obra estruturante que libertará o produtor rural da dependência da chuva. É preciso que as lideranças regionais assumam o protagonismo, coloquem a técnica debaixo do braço e batam às portas dos ministérios em Brasília para exigir esse canal de integração.
Conclusão: Libertar o Potencial do Nosso Chão
O homem do campo na nossa região já provou que sabe trabalhar. Ele tira riqueza da terra mesmo sob as condições mais adversas. Dar a esse agricultor a água do Rio São Francisco é dar a ele a ferramenta definitiva de emancipação econômica.
Interligar o "Velho Chico" ao Vaza-Barris é um projeto de soberania alimentar, de fixação do homem no campo e de justiça social. Que os discursos de palanque sobre o desenvolvimento do semiárido se transformem em canteiros de obras e canais de concreto. A terra é boa, o povo tem coragem e a solução existe; falta apenas a coragem política de fazê-la acontecer.
Blog de Dede Montalvão: Defendendo o municipalismo, a segurança hídrica e o desenvolvimento real para quem trabalha a terra.
José Montalvão Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, Pós-Graduado em Jornalismo. Membro da ABI (C-002025