
Direita tenta transformar segurança em bandeira eleitoral
Marcelo Copelli
Revista Fórum
A condução do PL Antifacção revelou, nas últimas semanas, um ponto nevrálgico da política brasileira: a incapacidade da direita de sustentar qualquer coerência mínima naquilo que apresenta como seu “pilar estruturante” para 2026. O episódio envolvendo o relator Guilherme Derrite — que desafiou a Polícia Federal, recuou diante da resistência institucional e, logo depois, tentou se recolocar no discurso de linha dura — tornou-se um exemplo cristalino de improviso legislativo, cálculo eleitoral errático e contradição performativa.
Desde que governadores alinhados ao bolsonarismo decidiram transformar a segurança pública na vitrine do pós-8 de Janeiro, difundiu-se a narrativa de que o país estaria à beira de um colapso provocado por uma suposta leniência da esquerda. No entanto, o movimento acabou expondo desorganização interna e fragilidade estratégica.
REDUÇÃO DE COMPETÊNCIAS – O relatório de Derrite reduzia competências da PF e subordinava a instituição aos governadores — medida que afrontava a lógica do enfrentamento ao crime organizado de dimensão transnacional e atingia justamente a corporação que a direita mais instrumentalizou nos últimos anos como fonte de legitimidade para seus palanques discursivos.
A reação foi imediata, ampla e transversal: PF, Ministério Público, especialistas, governo federal e até aliados políticos se insurgiram. O secretário de Segurança de Tarcísio teve de reescrever trechos essenciais, recompor a defesa do texto e explicar o que muitos classificaram como amadorismo legislativo. O que deveria sinalizar autoridade converteu-se em uma sucessão de ajustes forçados e reposicionamentos constrangidos.
Mas a questão é mais profunda que um equívoco procedimental. A direita insiste em amalgamar, de forma deliberada, categorias ausentes de qualquer literatura séria: terrorismo e crime organizado. É preciso afirmar com clareza algo constantemente distorcido: terrorismo e facções criminosas não pertencem à mesma matriz de ação. O terrorismo, em sua definição essencial, é um projeto político — busca alterar instituições, regimes e modos de vida. As facções, ao contrário, operam como uma indústria bilionária. Seu objetivo não é derrubar o Estado, mas instrumentalizá-lo: corrompê-lo, infiltrá-lo, cooptá-lo e contorná-lo para manter mercados ilícitos em funcionamento.
RISCO – Confundir essas naturezas não é apenas erro conceitual — abre caminho para remédios de exceção, dilui garantias constitucionais e amplia a margem para arbitrariedades que, como de costume, recaem sobre populações vulneráveis. O Brasil conhece bem o destino das legislações emergenciais: convertem-se rapidamente em ferramentas de seletividade penal e perseguição política.
Essa confusão, contudo, não é descuido. É método. Quando se declara guerra, suspende-se a política. E, quando a política é suspensa, prevalece quem está armado — seja o Estado, seja o próprio crime. Nesse cenário, a categoria “narcoterrorismo”, agora reciclada por setores da direita brasileira, não funciona como diagnóstico, mas como senha diplomática: um código destinado a justificar cooperação militar externa sob o argumento de uma guerra “inevitável” que ultrapassaria fronteiras.
O alinhamento automático a Donald Trump tampouco é casual — trata-se de importar uma doutrina militarizada fracassada na América Central e profundamente nociva às instituições democráticas.
SEM RESULTADOS – A contradição torna-se ainda mais evidente quando se observa que nenhum governador defensor de soluções draconianas conseguiu entregar resultados concretos e sustentáveis de redução da violência em seus estados. Mortes em operações espetaculares rendem manchetes, mas não constituem políticas eficazes. Ao contrário, denunciam a ausência de planejamento integrado, coordenação federativa e uso robusto de dados — elementos centrais das estratégias que, de fato, enfraquecem organizações criminosas no longo prazo.
A população apoia rigor, mas não confusão deliberada entre facções e terrorismo, tampouco arcabouços jurídicos que abram margem para excessos estatais.
O fetiche com Nayib Bukele também é distorcido: o apoio em El Salvador não nasce de execuções pelo Estado, mas da percepção concreta de recuperação territorial. Nenhum governo de direita no Brasil chegou perto de entregar algo semelhante.
SINTOMA – O episódio do PL Antifacção, portanto, não é um acidente. É sintoma. A direita tenta liderar o debate sobre segurança, mas, quando convocada a formular políticas reais, tropeça nos próprios slogans. O relator retrocedeu, a narrativa se fragmentou e o discurso que se pretendia sólido revelou-se tecido de improvisos, tensões internas e estratégias incongruentes.
O país não precisa de mais “guerras”, e sim de política pública séria, baseada em evidências, coordenada nacional e internacionalmente e comprometida com o fortalecimento institucional — não com sua submissão a impulsos eleitorais. Até agora, porém, o que a direita ofereceu foram apenas experimentações retóricas, recuos constrangidos e medidas ornamentais. Muita fumaça. Pouco projeto.
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