Publicado em 22 de novembro de 2025 por Tribuna da Internet

Tentativas de articulação paralela de bolsonaristas evaporaram
Pedro do Coutto
A decisão do presidente Donald Trump de reduzir as tarifas sobre produtos agrícolas brasileiros, recuando do patamar de 40% para 10%, marcou um ponto de inflexão no debate político e diplomático entre Brasília e Washington. O gesto, que veio após uma conversa direta entre Trump e o presidente Lula da Silva, confirma algo que parecia improvável para parte da oposição: a diplomacia brasileira continua a ter peso, credibilidade e capacidade de recompor espaços mesmo em cenários adversos.
Longe do ruído das disputas internas, o Itamaraty empenhou semanas de negociação técnica, argumentos econômicos consistentes e mobilização de canais institucionais — e o resultado fala por si. A revisão das tarifas não apenas alivia a tensão sobre exportadores e estabiliza um setor já pressionado pelas incertezas internacionais, como também desmonta uma engrenagem política construída por lideranças bolsonaristas.
NEGOCIAÇÃO – A ideia de que os Estados Unidos adotariam medidas punitivas duras contra o Brasil, ou mesmo que poderiam atuar como uma espécie de contrapeso externo ao governo Lula, perde tração diante da realidade prática: quando a Casa Branca sinaliza com clareza que negocia com o governo brasileiro e reconhece a interlocução oficial com Lula, as tentativas de articulação paralela — como as de Eduardo Bolsonaro — evaporam.
O discurso que buscava transformar pressões externas em munição doméstica colide com a lógica da diplomacia real, que se move por interesses de Estado, não por agendas partidárias.
Esse contraste revela um cenário doméstico mais amplo. Enquanto o governo obtém um ganho simbólico e estratégico ao reabrir espaços de diálogo e reconstruir confiança internacional, o bolsonarismo vê esvaziar uma de suas narrativas centrais: a de que bastaria acionar aliados ideológicos no exterior para forçar mudanças no ambiente político interno.
LEIS PRÓPRIAS – O recuo de Trump mostra que a política externa tem suas próprias leis — e que alinhamentos pessoais ou afinidades retóricas não substituem a necessidade de estabilidade, previsibilidade e negociação madura entre países.
Em última instância, a redução das tarifas funciona como uma espécie de termômetro do momento político: ela indica que o Brasil volta a ser tratado como parceiro confiável e que o governo atual recuperou capacidade de mediação internacional. Ao mesmo tempo, expõe os limites de estratégias que tentam instrumentalizar atores estrangeiros para influenciar disputas nacionais.
O episódio demonstra, com clareza, que o campo onde se decidem questões comerciais e geopolíticas responde a outra lógica — e que, nesta lógica, quem apresentou resultados concretos foi o governo brasileiro.