ARTIGO – Quando uma Casa Cai, um Mundo Inteiro Também Desaba
Por José Montalvão
Hoje, ao receber o vídeo do início da demolição da minha residência — aquela que um dia foi o abrigo seguro de minha infância e a fortaleza silenciosa de minha família — senti que não era apenas uma construção que estava vindo ao chão. Era como se parte de mim estivesse sendo derrubada junto, tijolo por tijolo.
A venda da casa, necessária diante da existência de vários herdeiros, é um fato racional. Mas nada existe de racional no impacto emocional que se instala quando vemos desaparecer um espaço que guardou nossa história. É uma perda que ultrapassa a materialidade: toca a memória, fere o afeto, sacode o que parecia eterno.
Aquela casa não era apenas um imóvel. Era o lar construído por minha avó, mãe do meu pai — uma mulher cuja força e simplicidade moldaram os alicerces não só da obra física, mas também de nossa identidade familiar. Sob aquele teto, meus pais viveram seus dias de luta, alegria e esperança. Ali cresci com meus irmãos, partilhando a mesa, os risos, as conversas, as lições e até os silêncios que só o lar compreende. Cada parede tinha memória, cada porta guardava um capítulo, cada canto escondia uma lembrança.
Por isso, a dor que sinto é legítima. A casa representava segurança, pertencimento, identidade. Era o endereço emocional da minha vida. Perdê-la — ainda que por vias legais, corretas e inevitáveis — é um tipo de luto. E todo luto merece respeito.
A demolição faz desabar mais do que concreto: derruba o que ficou guardado dentro de nós. Mas, ao mesmo tempo, é preciso compreender que as memórias não estão presas às paredes. Elas permanecem onde sempre estiveram: no coração, na lembrança e nas histórias que seguimos contando.