terça-feira, julho 11, 2023

Papa Francisco, mais cristão do que católico, avança na reforma da doutrina do Vaticano


Papa elegeu Manuel Fernández como guardião da doutrina católica

Pedro do Coutto

Excelente reportagem de Edison Veiga, Folha de S. Paulo, deste domingo, destaca amplamente a decisão do Papa Francisco de escolher o bispo argentino Víctor Manuel Fernández para prefeito do Dicastério para a doutrina da fé, dando sequência a seu projeto de reforma, uma vez que Fernández pertence à corrente avançada e progressista da Igreja, sendo inclusive autor de livro que incentiva os casais a colocarem mais erotismo em seus beijos.

A decisão do Papa Francisco, é claro, desagradou os conservadores, aqueles que consideram necessária a distância entre a Cátedra de São Pedro (como chamava Otto Maria Carpeaux) da população. Agora, o ato de Francisco conduz a uma identificação e uma aproximação maior entre os executores da doutrina e a opinião pública.

DICASTÉRIO – Ao tentar impor comportamentos, assinalou o Papa, em outras épocas a Igreja de Roma chegou a utilizar métodos imorais, a exemplo da Inquisição e, acrescento, o silêncio do Papa Pio XII em relação ao nazismo. O Dicastério para a doutrina da fé é o mais antigo organismo do Vaticano. Quando em 1959, o Papa João XXIII lançou a Encíclica Mater et Magistra, esse ato representou uma ruptura com um comportamento tradicional e tradicionalista do clero que defendia a ideia exclusiva da vida eterna como meio de realização humana.

João XXIII destacou que o ser humano tem que se realizar tanto na terra quanto no céu. Foi uma ruptura, foi um avanço de modernização. Afinal, na verdade, o céu é um endereço que depende do comportamento humano e o cristianismo na minha ótica de pensamento é um princípio essencial do humanismo, portanto da valorização do ser humano em relação a si mesmo e também em relação ao sentimento religioso.

Por isso, é estranho quando partidos políticos, em suas propagandas na televisão, se apresentam como cristãos e conservadores.  A discussão não abrange apenas o plano moral e individual. Abrange o espaço mais amplo que depende da dignidade e da reforma.

CONTRA A OPRESSÃO – O cristianismo nasceu além do aspecto divino, da luta pela liberdade e pela reforma contra a opressão romana que invadiu a Judeia, tempo do imperador Tibério, e contra o governo de Herodes Antipas, imposto pela tirania romana. A tirania romana na Judeia tinha a sua base em dois governadores; Pôncio Pilatos e Herodes Antipas. No meu livro “Cristo, o Maior dissidente da História”, focalizo o tema.

Mas, voltando à nomeação de Víctor Manuel Fernández, o vaticanista Robert Mickens, em artigo no diário católico La Croix International, avalia a nomeação como uma bomba que deve incomodar os católicos das alas tradicionalistas, sobretudo porque Fernández é considerado um teólogo de sólida formação, um homem extraordinariamente culto e comprometido com as ideias modernas de reforma.

CRÍTICAS – Conservadores, inclusive, já iniciaram as críticas à nomeação de Fernández, ressaltando que ele é favorável à abertura temática voltada para corrente LGBT e ao acolhimento dos casais em segunda união, portanto os casais divorciados.  Fernández também é destacado por seu enfrentamento à ditadura militar argentina que começou em 3 de outubro de 1955 com a deposição do presidente Juan Perón. Por uma coincidência histórica, nesse mesmo dia, o Brasil elegia Juscelino Kubitschek.

Na ocasião da Encíclica Mater et Magistra, Dom Helder Câmara, bispo auxiliar do Rio de Janeiro, deixou a seguinte frase: “Com a Mater et Magistra, a Igreja deixa de ser freio e passa a ser acelerador”. De fato, a integração da fé com a evolução social dos seres humanos é uma face essencial do avanço do Vaticano e de seu encontro com a condição humana.

INADIMP’LÊNCIA – Reportagem de Renan Monteiro, Beatriz Coutinho e Daniela Nogueira, O Globo desta segunda-feira assinala que a emissão em série de cartões de crédito incentivadas por cerrada campanha publicitária, está contribuindo para elevar a inadimplência no país. No momento, como as pessoas podem ter vários cartões cada uma, o número de cartões de crédito atingiu 208 milhões, número maior do que o da própria população. A informação é do próprio Banco Central.

As pessoas vão assumir cartões de crédito com grande facilidade, sejam eles emitidos por bancos tradicionais ou por lojas comerciais. A publicidade oferece crédito bastante elástico e não inclui em suas mensagens os juros cobrados. Os créditos rotativos, inclusive, passam de 400% ao ano, taxa inacreditável que torna impossível o pagamento de dívidas acumuladas.

FINANCIAMENTO – O problema atingiu uma escala tão impressionante que o governo tomou a iniciativa de financiar através do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal os débitos atrasados de até R$ 5 mil. São milhões de casos e o programa que está custando a entrar em vigor não leva em conta que o resgate de um débito pode habilitar a pessoa a assumir um outro compromisso. Além disso, o Ministério da Fazenda fixou em 1,9% ao mês as taxas de financiamento para zerar os débitos.

Muito alta essa taxa que significa praticamente 30% ao ano, considerando-se os montantes aplicados aos juros. Um problema grave que inibe o consumo e incentiva o não pagamento, uma vez que as taxas cobradas não podem ser assumidas pelos devedores.


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