Publicado em 14 de julho de 2023 por Tribuna da Internet
Papa deu o exemplo em 2014, no abraço das três religiões
Jack Terpins
O Globo
O Congresso Judaico Latino-Americano — entidade que congrega e representa politicamente as comunidades judaicas da América Latina e do Caribe — volta a fazer história, como aconteceu em novembro passado, quando o Papa recebeu, no Vaticano, uma delegação de cem representantes de comunidades judaicas do mundo para o lançamento do Projeto Kishreinu, uma resposta à encíclica Nostra Aetate.
Agora, pela primeira vez, líderes judeus e muçulmanos de toda a América Latina se reúnem em Buenos Aires, em evento de dois dias, que terminou nesta terça-feira, dia 11,organizado pelo Congresso Judaico Latino-Americano em conjunto com a Liga Islâmica Mundial.
LAÇOS REFORÇADOS – O encontro marca um fato sem precedentes e para alguns será, finalmente, a oportunidade de reforçar laços de mais de uma década e que se estreitaram durante a pandemia da Covid-19, quando representantes das religiões judaica e muçulmana se conheceram por meio de uma tela de computador, único recurso possível na época.
Na ocasião, com a possibilidade existente e fazendo jus à tradição de levar a cabo o diálogo inter-religioso, celebraram juntos o mês do Ramadã. Assim, a festividade foi levada ao plano global e puderam se cumprimentar virtualmente.
Buscamos retomar uma caminhada que começou na Península Ibérica, durante o Século de Ouro, em que, com todo o seu esplendor, judeus e muçulmanos conviviam harmoniosamente.
DIZ A BÍBLIA – Se retrocedermos, no Antigo Testamento, em Gênesis 25:8: — “…Depois Abraão expirou: morreu numa velhice feliz, idoso e repleto de bons anos, e foi reunido aos seus antepassados. Seus filhos, Isaque e Ismael, o sepultaram na gruta de Macpela…”
Esse trecho demonstra a irmandade em torno do pai Abraão, as diferenças são postas de lado. Não só como uma organização, mas como judeu, busco alinhar nosso trabalho ao princípio de que juntos somos mais fortes. Sempre partilhamos de iniciativas que nos conduzam à paz. E reforço isso em nosso trabalho diário.
Nosso diretor executivo, Claudio Epelman, participou, liderando a delegação judaica, em 1991, da Conferência de Madri, quando a Arábia Saudita lançou o processo de diálogo inter-religioso.
ECUMENISMO – Paulatinamente, têm-se ampliado os lugares (ecumênicos) de partidas e despedidas, onde pedimos e agradecemos ao nosso Deus, seja ele Adonai, Alá e outros nomes, aquele que habita em nossos corações.
Durante essa jornada de trabalho, 40 participantes das duas religiões “embarcaram em uma viagem” ao interior de cada fé, buscarão semelhanças, perspectivas de novas atividades juntas, ampliarão as já existentes. Nesse espaço de tempo não escaparão temas complexos, como os prejuízos que os estereótipos constituem, uma barreira ao diálogo, ou o que a sociedade em geral enxerga, e como trabalhar juntos para vencer essas barreiras.
Se temos esse recomeço íntimo e sincero, creio que todos nós, habitantes da Terra, transformaremos a Babel em algo em que o diálogo preponderará, e juntos tornaremos o planeta em mundo. Alinhavaremos esse diálogo, guardando e respeitando as diferenças e semelhanças.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Jack Terpins, engenheiro, é presidente do Congresso Judaico Latino-Americano. É um grande defensor do ecumenismo pregado pelo Papa Francisco, uma doutrina que precisa ser seguida por todos os homens de boa vontade, como se dizia antigamente. (C.N.)