Publicado em 14 de julho de 2023 por Tribuna da Internet
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Até Sachsida defende a exploração na Foz do Amazonas
José Fucs
Estadão
O advogado e economista Adolfo Sachsida, de 50 anos, foi um dos poucos integrantes da equipe do ex-ministro Paulo Guedes que ficou no governo Bolsonaro do começo ao fim. Primeiro, no próprio Ministério da Economia, como secretário de Política Econômica, depois, chefe da Assessoria Especial de Assuntos Estratégicos e, por fim, ministro de Minas e Energia.
Nesta entrevista ao Estadão, a primeira desde que deixou o governo, Sachsida diz que, se o ex-presidente Jair Bolsonaro tivesse conseguido se reeleger, a Petrobras seria privatizada.
Como o sr. vê a mudança da política de preços da Petrobras e o abandono na prática do PPI (preço de paridade de importação), que vinculava os preços do petróleo no País aos praticados no mercado internacional?
O atual governo tem uma visão de mundo muito diferente da nossa. Quando fui ministro de Minas e Energia, sempre procurei colocar um norte muito claro para cada uma das áreas que estavam sob minha direção. Nos setores de petróleo e gás, o meu norte era gerar competição. Vou até dar uma nova informação aqui: nós iríamos privatizar a Petrobras se o presidente Bolsonaro ganhasse a eleição. Embora muita gente não acreditasse que isso fosse possível, a privatização da Petrobras estava sendo preparada pelo governo. Nós iríamos trazer, no espaço de um ano e meio, muita competição aos setores de petróleo e gás no Brasil.
Como seria feita essa privatização?
Havia várias propostas de como privatizar a Petrobras na mesa, mas nós estávamos estudando uma maneira de fazer a privatização gerando competição nos setores de petróleo e gás. A gente não iria trocar um monopólio estatal por um monopólio privado. Isso iria facilitar e melhorar muito a vida dos brasileiros. No caso da PPSA (Pré-Sal Petróleo S/A), o processo já estava mais adiantado. Nós chegamos a enviar ao Congresso um projeto de lei para vender os recebíveis de trinta anos da PPSA, que era uma maneira de privatizar a empresa. Na época, pelos nossos cálculos, isso renderia cerca de R$ 390 bilhões, mas, como o preço do petróleo caiu um pouco de lá pra cá, hoje esse valor ficaria em torno de R$ 300 bilhões.
Qual era a posição do presidente Bolsonaro em relação à questão?
Quando ele me chamou para ser ministro, no meio daquela discussão toda sobre a alta dos preços dos combustíveis, eu falei: “Presidente, existem maneiras estruturais de diminuir os preços da gasolina e do diesel no País”. Entre os pontos que eu listei para ele estava a realização dos estudos para a privatização da Petrobras. Eu disse: “Tem de ser assim. Nós temos de gerar competição nesse mercado e só isso é que vai diminuir os preços dos combustíveis e melhorar o atendimento”. Então, ele falou prontamente: “Vai adiante”.
O sr. acreditava que, se o presidente ganhasse a eleição, isso realmente seria levado adiante?
Você sabe como é política. Se a gente tivesse ganho a eleição, eu teria de continuar como ministro, né? E você nunca sabe qual vai ser o arranjo político. Agora, pelo entendimento que eu tive com ele até o fim do governo, tinha sinal verde para tocar a privatização da Petrobras. Meu primeiro ato oficial foi solicitar ao ministro Paulo Guedes, a quem o PPI era subordinado, para incluir a PPSA e a Petrobras no processo de privatização. Então, eu acredito que teria o apoio do presidente para dar continuidade ao processo, caso ele ganhasse a eleição. Só que, agora, tudo mudou. O presidente Lula determinou a exclusão da Petrobras, da PPSA e de mais seis empresas, como os Correios, a EBC (Empresa Brasileira de Comunicação) e o Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados), do PPI.
Voltando à nova política de preços da Petrobras, qual é a sua posição nessa questão?
Acredito que ela vai levar a um aumento excessivo no endividamento da Petrobras, que foi bem reduzido desde 2019, e a outros problemas que nós já vimos no passado. Vai afetar a rentabilidade e reduzir os dividendos, cuja maior fatia vai para o governo, como principal acionista da companhia. Estão querendo também parar com a venda das refinarias. O atual governo pretende construir novas refinarias. Eu respeito essas ideias, mas discordo delas. Acho que o melhor para o Brasil é desconcentrar o setor, trazer competição e diminuir a intervenção do Estado na economia.
Recentemente, o Ibama negou o licenciamento para a Petrobras realizar a exploração de petróleo na foz do Amazonas. O que o sr. pensa sobre isso?
Nós temos de entender que a margem equatorial vai ser explorada, de um jeito ou de outro. Se não for pelo Brasil, será pela Guiana. Aliás, várias empresas petrolíferas já estão perfurando para extrair petróleo na Guiana. O mundo todo está de olho na margem equatorial porque são reservas de valor significativo. A França, por exemplo, explora petróleo na margem equatorial. Se a França pode fazer isso, acho justo que o Brasil também possa. Acredito que não podemos perder essa oportunidade. O Brasil tem de se dar a chance de ser rico. Quando você fala da margem equatorial, está falando de um montante enorme de recursos, que vai beneficiar vários Estados do Norte e Nordeste.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Caramba! Escapamos por pouco. O nacionalismo desse ministro chega a ser comovente. Espera-se que não volte a fazer carreira na vida pública e permaneça na privada, como dizia o Barão de Itararé. (C.N.)