domingo, novembro 06, 2022

Vai-se Bolsonaro. Qual Lula volta?




Petista só avançará para a maioria no centro se tocar uma administração econômica como a do seu primeiro mandato

Por Carlos Alberto Sardenberg (foto)

Então ficamos assim: vai-se Bolsonaro, volta Lula.

Pela ordem: Bolsonaro. Ele não sai com os 58 milhões de votos que obteve no segundo turno. Pesquisas e a observação política sugerem que em torno de 40% escolheram votar no capitão. Os demais, contra o PT.

Os que escolheram Bolsonaro, obviamente, integram a direita, especialmente nos valores morais, religiosos e de costumes. Mas é possível dizer, com boa margem, que a minoria desses eleitores faz parte da direita extremista, essa que fechou estradas e ainda quer melar as eleições. Os demais, maioria desse grupo, votaram em Bolsonaro por falta de outra opção firme à direita.

Se essas observações estiverem corretas — e, claro, acredito que estão —o bolsonarismo raiz é uma pequena fração do eleitorado brasileiro. Nesse caso, fora da Presidência, Bolsonaro volta ao baixo clero, de onde só saiu por uma combinação de acidentes históricos.

Simplesmente, não é possível aceitar que existam no Brasil 58 milhões de direitistas radicais. Mesmo entre os 25 milhões, mais ou menos, que escolheram o capitão, não é possível aceitar que sejam todos fascistas, golpistas.

Dirão: mas fecharam estradas e ainda fazem manifestações.

Não funciona. Um punhado de caminhoneiros mais os baderneiros que não têm mais o que fazer podem interromper uma via.

Tudo considerado, os eleitores de direita — os não extremistas — procurarão outros candidatos. Já têm pelo menos dois à disposição, os governadores Romeu Zema e Tarcísio de Freitas.

Mas o episódio Bolsonaro não termina aí. Houve uma tentativa — meio tabajara, mas ainda assim uma tentativa de golpe. Houve organizadores e financiadores. Têm que ser apanhados.

Agora, Lula. Também não são todos dele os 60 milhões de votos que obteve no segundo turno. De novo, pesquisas e observações sugerem que metade escolheu Lula, a outra metade votou contra Bolsonaro. Nessa segunda metade estão, inclusive, figuras ilustres que deixaram clara sua opção: Bolsonaro é o risco maior para a democracia.

Vai daí que Lula tem um enorme desafio pela frente se quiser mesmo aposentar-se com um bom governo que deixe em segundo plano, na história, os erros do passado —aqui incluídas a corrupção e a desastrosa gestão econômica.

Para isso, não poderá governar só com o PT, nem só para seus eleitores fiéis. Precisa formar uma frente ampla e criar um ambiente de credibilidade na política econômica, esta uma questão-chave.

Quase todo mundo no centro político, tanto à esquerda quanto à direita, aceita que Lula aumente os gastos e fure o teto em 2023 para atender compromissos —especialmente o novo Bolsa Família e o reajuste do salário mínimo.

Mas a concessão dessa licença tem contrapartida: a definição de um ministro da Fazenda e, sobretudo, de uma equipe econômica que transmita credibilidade aos agentes internos e externos. Por agentes econômicos, incluímos aqui todos os que tomam decisões no dia a dia: comprar, poupar, investir, tomar financiamento. Isso depende da confiança de que se terá um ano de gastança, seguido de vários anos de equilíbrio fiscal e monetário.

Claro que o público não está atento a essas questões de superávit primário ou rigor fiscal. Mas perceberá quando o aumento do déficit e da dívida pública gerar mais inflação, mais juros, menos atividade e empregos.

A gestão econômica puramente petista, do segundo mandato de Lula e do mandato e meio de Dilma, deixou inflação, recessão e estatais quase quebradas. Isso está na lembrança de investidores nacionais e estrangeiros.

Tudo considerado, Lula só conseguirá completar esse movimento —sair de sua bolha e avançar para a maioria no centro —se tocar uma administração econômica como a de seu primeiro mandato. Isso quer dizer: um ministro petista, político, moderado, que monte uma equipe responsável no equilíbrio das contas públicas e na derrubada da inflação.

Não será fácil. O erro traz a direita de volta.

O Globo

Em destaque

Senado impõe sigilo sobre entradas de nomes ligados ao escândalo do Banco Master

Publicado em 10 de maio de 2026 por Tribuna da Internet Facebook Twitter WhatsApp Email Ouvidoria do Senado é comandada por Ciro Nogueira Ra...

Mais visitadas