terça-feira, novembro 15, 2022

Quando se insurge contra a democracia, o fervor patriótico pode se tornar patético

MPF vê ataque à democracia em ato no QG do Exército e pede providências -  CartaCapital | Cartacapital - Carta Capital

Diante do QG, o acampamento exige intervenção militar

Publicado em 15 de novembro de 2022 por Tribuna da Internet

Duarte Bertolini

Visitei um acampamento em frente ao quartel e me emocionei muito. Como não ir às lagrimas (verde e amarelas, claro) ao ver aquele grupo, na sua maioria jovens em pleno vigor de sua ânsia democrática (embora muitos com rinsagem nos cabelos, realçando-lhes um dos tons da bandeira, o branco imaculado) e todos bradando em uníssono, cantando o HINO NACIONAL a plenos pulmões?

Errou quem dizia que o PT havia mudado o currículo escolar para esquecer “de ensinar o hino”? Foi lindo, verdadeiramente.

MALEMOLÊNCIA – Quando terminou o hino, a rigidez da posição de respeito cedeu lugar a uma certa malemolência brasileira, mas o sentimento patriótico estava ainda quente.

Quem ainda poderia lembrar do grande Francisco Alves e do poeta Guilherme de Almeida, senão os patriotas, que após pequeno folego, renovaram os brios nacionalistas com a Canção do Expedicionário?

Voltei ao primário e ao ginásio e foi difícil conter as lágrimas. Esta sim era uma época de Brasil de verdade. Com genuíno amor à pátria, pois os maus brasileiros, seguindo as ordens patrióticas de ame-o ou deixe-o, haviam ido embora ou para outros paises ou desta para outra melhor, como se dizia quando o vivente era desencarnado, mesmo que fosse à força. Quase igual agora, mas o que mudou é que os que pretendem ir embora são os patriotas genuínos.

POUCA PRÁTICA – Fiquei meio confuso, mas deve ser a minha pouca prática nestes eventos. Até as poucas nuvens pareciam verde e amarelas, juntando-se ao fervor do momento.

Mas ainda tinha mais e pensei que meu coração não resistisse quando o animador conclamou todos a uma oração para que Cristo iluminasse o irmãos militares fechados atrás dos muros para que rompessem os grilhões da democracia e reconduzissem ad eternum o mito ao trono da mãe pátria.

Acho que o animador sentiu a grande emoção do momento e, num folego só, organizou o coro (imagino que já mil vezes ensaiado…) com primeiro as mulheres e depois os homens, bradando com todo o vigor patriótico que o momento impunha: Mulheres: “SOS!”; Homens: “Forcas Armadas!”

FUI IMPEDIDO – Quase juntei-me a eles, mas fui impedido pela vergonha, o amor próprio, o conhecimento da história, a sapiência (pouca é claro, mas suficiente) dos cabelos brancos. que já viram filmes parecidos, e basicamente a vergonha de dizer aos meus netos: “Eu me ajoelhei frente aos quarteis pedindo intervenção militar para acabar com nossa frágil democracia…”.

Isso me impediu, mas era comovente. Todos deveríamos ir ver essas manifestações para comprovar até onde o fanatismo, a imbecilidade, a fé cega, a reprodução automática de gestos e chavões superavam valores como civilidade, democracia, honestidade e vergonha.

Foi o mais patético espetáculo que ja presenciei em minha vida. Se não fosse o potencial trágico, seria absolutamente hilariante. Fiz ao final minha oração solitária: “Vadre Retro”.

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