
Mensagem de Villas Bôas não alcançou o efeito pretendido
Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense
Desde de 1964, nunca houve tanta agitação a favor de um golpe militar. Pelo custo e envergadura da mobilização, que entrou na terceira semana, é evidente a existência de um forte movimento de extrema-direita, organizado com o propósito de melar a posse do presidente Lula da Silva. Nesta terça-feira, feriado da Proclamação da República, seria apenas mais um dia em que gente muito fanática, defensora de uma intervenção militar, protestasse à porta dos principais comandos militares do país, entre os quais os do Planalto, em Brasília — onde reside a maioria dos generais de quatro estrelas —, e no Rio de Janeiro, que abriga o maior contingente militar do país.
Seria apenas mais um dia de vigília bolsonarista, não fosse o tuíte do general da reserva Eduardo Villas Boas, uma indiscutível liderança militar, endossando as manifestações golpistas e pondo mais lenha na fogueira.
DISSE O GENERAL O ex-comandante do Exército poderia ter ficado na dele, mas não: decidiu surfar os protestos para reafirmar sua liderança junto aos descontentes com a derrota do presidente Jair Bolsonaro e, talvez, na tropa que está na ativa.
“A população segue aglomerada junto às portas dos quarteis pedindo socorro às Forças Armadas. Com incrível persistência, mas com ânimo absolutamente pacífico, pessoas de todas as idades, identificadas com o verde e o amarelo que orgulhosamente ostentam, protestam contra os atentados à democracia, à independência dos poderes, ameaças à liberdade e as dúvidas sobre o processo eleitoral”, afirmou.
Com isso, o velho general alimentou ainda mais as infundadas críticas e maliciosas suspeitas ao resultado das urnas, com a mesma ambiguidade com que Bolsonaro silencia diante do resultado oficial da eleição, e não reconhece publicamente a inequívoca vitória de Lula.
CENÁRIO CATASTRÓFICO – No véspera da eleição, Villas Boas já havia publicado um tuíte no qual traçou um cenário catastrófico em caso da vitória de Lula, o que tem tudo a ver com sua manifestação desta terça-feira, quando criticou a imprensa por não dar aos manifestantes a importância que gostaria:
“Talvez nossos jornalistas acreditem que ignorando a movimentação de milhões de pessoas elas desaparecerão. Não se apercebem eles que ao tentar isolar as manifestações podem estar criando mais um fator de insatisfação. A mídia totalmente controlada nos países na Cortina de Ferro não impediu a queda do Muro de Berlim. A História ensina que pessoas que lutam pela liberdade jamais serão vencidas”, advertiu.
E assim, com fina ironia, o general inverteu o significado histórico de um velho bordão das esquerdas contra as ditaduras: “O povo unido jamais será vencido!”.