Publicado em 10 de novembro de 2022 por Tribuna da Internet
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O que a compra do Twitter tem a ver com a eleição? Nada.
Pedro Doria
O Globo
Há alguns dias, Elon Musk entrou na sede do Twitter carregando uma pia de louça nas mãos. “Let that sink in” — escreveu. Literalmente, “Deixe esta pia entrar” — embora, em inglês, a frase também possa ser lida como “Deixa essa ficha cair”. Enquanto publicava o vídeo na própria plataforma, modificou sua autodescrição: “Chief Twit”. Mais ou menos ao mesmo tempo, os funcionários da empresa receberam um e-mail geral. “Elon Musk está circulando pelo prédio, aproveitem para dizer “oi”.
Pela cabeça de muita gente certamente passava outro recado — que Musk, ao comprar mesmo o Twitter, cortaria muita mão de obra da empresa. (Ele negava, mas cortou.)
CAINDO NA REAL – Pois é: dia 30 tivemos a eleição mais importante da História brasileira desde que Tancredo Neves foi escolhido pelo Colégio Eleitoral, lá se vão quase 40 anos. E cá o colunista está falando de Elon Musk comprando o Twitter…
Ocorre que o foco habitual deste espaço é o encontro de tecnologia, sociedade e política. E também acontece que a maneira como a informação que circula entre nós foi corrompida pelas redes sociais é diretamente responsável pela eleição de tipos como Donald Trump e Jair Bolsonaro, e quase funcionou novamente.
O assunto é inevitável e está no centro do drama que continuaremos a enfrentar, apesar da confirmação da vitória de Lula.
DONO DO TWITTER – Além da compra, Musk já agia como dono do Twitter. A toda hora o Vale do Silício anuncia que alguma startup abriu seu capital, fez um IPO na Bolsa, levantou alguns bilhões. O caminho inverso é bem mais raro. Musk está pegando uma empresa pública e fechando o capital. Comprando as ações vendidas na Bolsa e tornando-a um negócio privado.
A vantagem de um negócio privado é que a regulamentação é bem mais leve. O CEO não tem de prestar contas a cada quatro meses a respeito dos lucros, guinadas estratégicas violentas se tornam possíveis.
E este negócio das redes sociais precisa de uma guinada radical. Ele tem de ser reinventado. Musk, numa carta dirigida aos anunciantes do Twitter na outra semana, afirmou que imagina a plataforma como uma praça pública global onde o diálogo seja possível, mas os extremistas não tenham voz.
ALDEIA GLOBAL – As redes já são uma praça pública global. O problema é que, nesse espaço comum, não é o diálogo que os algoritmos incentivam. É a desinformação e são os cancelamentos. Os atores políticos que não têm pudor de usar esses recursos crescem. Os outros perdem a voz.
Não é surpresa que o Brasil tenha elegido neste ano um Congresso onde o pior da direita venceu, e o centro desapareceu. E esta não é só uma história brasileira.
Musk também vem recebendo pressão de gente bem próxima para trazer de volta à plataforma vozes banidas por radicalismo ou desinformação. O problema, porém, não é o que é dito no Twitter. É o que o Twitter — ou o Face, ou o Insta, ou o YouTube, ou o TikTok — escolhe ampliar. Um antissemita como Kanye West falando para si mesmo e mais cinco não causa dano. Vira problema quando um app decide que sua voz deve chegar a milhões todos os dias.