sexta-feira, abril 08, 2022

Uma cadeira radioativa - Editorial




Bolsonaro e Lula coincidem na ambição de submeter a Petrobras a seus projetos pessoais de poder, ante a saúde da empresa – e isso torna especialmente desafiador presidi-la

A presidência da Petrobras certamente é uma posição desejada por executivos de todo o País. Uma das maiores produtoras mundiais de petróleo e gás, a empresa registrou lucro líquido de R$ 106,6 bilhões em 2021 e distribuiu R$ 72,2 bilhões em dividendos, dos quais R$ 37,3 bilhões à União. No ano passado, a contribuição da companhia na arrecadação de tributos federais chegou a R$ 53,8 bilhões e para Estados e municípios, quase R$ 95 bilhões, fora os royalties e as participações especiais. Com mais de 40 mil funcionários, sem contar os empregos gerados na cadeia de fornecedores, os números não deixam dúvidas: é uma das organizações que mais contribuem com o País. Ainda assim, a rotatividade da presidência é reveladora das dificuldades do cargo. Como mostrou o Estadão, a permanência média não chega a dois anos.

O presidente mais longevo na história da Petrobras foi José Sergio Gabrielli, entre 2005 e 2012. Sua gestão foi marcada por uma política definida pelo ministro da Fazenda Guido Mantega, cuja prioridade, longe de ser a gestão da companhia, era segurar a inflação por meio do controle artificial de preços administrados. Entre 2008 e 2018, a empresa acumulou prejuízos de R$ 180 bilhões ao não repassar integralmente a variação das cotações internacionais do petróleo ao mercado interno, bem mais que as perdas de R$ 6,2 bilhões reconhecidas em balanço em decorrência das investigações da Operação Lava Jato. 

Os dados expõem um misto de oportunismo, cegueira e memória curta que vigora no País a respeito da Petrobras. O presidente Jair Bolsonaro chegou ao cúmulo de criticar o desempenho excepcional da estatal. Paradoxalmente, o erro do ainda presidente da estatal Joaquim Silva e Luna foi ter feito seu trabalho bem demais. Seu antecessor, Roberto Castello Branco, em plena pandemia de covid-19, cometeu a ousadia de usar máscara em reunião no Palácio do Planalto. Perdeu o cargo dias depois, ao dizer o óbvio: que as ameaças de greve de caminhoneiros em razão do aumento dos preços de combustíveis não eram um problema da companhia.

Se o governo quisesse realmente ajudar os caminhoneiros autônomos, poderia elaborar uma política pública e criar um subsídio para a categoria com o dinheiro dos impostos e dividendos pagos pela Petrobras. Seria uma solução mais simples, barata e efetiva que a criação de fundos de estabilização de preços que fracassaram no mundo todo. Mas isso seria exigir algo impossível de Bolsonaro: que governe. A preocupação do presidente não é resolver problemas, mas encontrar culpados para se livrar de questões que possam custar sua reeleição. Nessa saga, ele não hesita em submeter seus assessores à humilhação pública, algo que deveria servir de alerta para os interessados em presidir a Petrobras.

Lula, por sua vez, promete dobrar a aposta no equívoco que foi a política da Petrobras ao longo de seus mandatos. Ao falar em “abrasileirar” o preço dos combustíveis, prova que o PT não aprendeu nada com o passado. No Legislativo, o debate é ainda mais raso. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), sugeriu revisar a Lei das Estatais, que deu fim ao loteamento político de cargos de direção nas empresas públicas, e ainda teve o desplante de dizer que a Petrobras não traz “nenhum benefício para o Estado nem para o povo brasileiro”, embora a empresa, no ano passado, tenha engordado o caixa da União, dos Estados e dos municípios com R$ 230 bilhões, referentes a dividendos, impostos e participações. 

Assumir a presidência da Petrobras é algo desafiador em governos populistas. Nessas situações, a cadeira fica radioativa. A opção é fazer uma administração correta e assumir o preço político da competência ou arruinar a empresa e a biografia em nome dos interesses eleitorais do mandatário de plantão. Ao fim e ao cabo, Bolsonaro e Lula, que se apresentam como opostos no espectro político, defendem precisamente a mesma solução para a Petrobras: prejudicar a companhia e, por consequência, a sociedade, em nome de seus projetos pessoais de poder.

O Estado de São Paulo

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