Por José Nêumanne* (foto)
Daniela, irmã de Adriano, acusado pela polícia de chefiar milícia e contratação de assassinatos e herói popular segundo o presidente e seus filhos, delata trama palaciana para calá-lo
Daniela Magalhães da Nóbrega, irmã do ex-capitão da PM-RJ Adriano, teria contado a uma tia por telefone, segundo áudio obtido em grampo telefônico pela polícia fluminense, que foram negociados cargos no Palácio do Planalto em troca do silêncio definitivo daquele que a famiglia palaciana sempre tratou como herói. Segundo reportagem de Ítalo Nogueira, que motivou a manchete do UOL na quarta-feira 6 de abril, o objetivo da conjura assassina seria eliminar a eventualidade de o criminoso expulso da PM relatar suas lembranças das lambanças no lar presidencial. Não há detalhes nem muito menos provas da acusação, mas, por si só, ela é de uma gravidade enorme, já que muito já se sabe e nada é preciso para comprovar, no mínimo, as sórdidas relações entre as partes expostas.
Em 2003, o primogênito de Jair, Flávio, encaminhou moção de louvor ao popular meganha. Em 27 de outubro de 2005, o pai dele, então deputado federal, Jair Bolsonaro, defendeu da tribuna o à época tenente PM-RJ três dias após ter sido ele condenado a 19 anos de prisão por tribunal do júri pela participação no assassinato, um ano antes, de um flanelinha que, à véspera da execução, denunciara milicianos “O tenente, coitado, um jovem de vinte e poucos anos, foi condenado, mas não foi ele quem matou”, disse o parlamentar, registram os anais do Congresso. “Um brilhante oficial e, se não me engano, o primeiro da Academia da Polícia Militar”, completou o capitão com a imprecisão de hábito na tessitura de suas versões. O discurso teve como fonte única o advogado do oficial durante a sessão do júri, à qual ele fizera questão de comparecer.
Em 9 de setembro daquele ano, o presidiário Adriano recebeu na cela a visita do deputado estadual Flávio Bolsonaro, que o condecorou com a mais valiosa medalha da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro – Alerj. Absolvido no processo por homicídio, o sempre suspeito de trabalhar para bicheiros foi solto um ano depois. Na operação dita Os Intocáveis, foi acusado de comandar a milícia da favela de Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio, e de integrar o Escritório do Crime, formado por assassinos de aluguel. A serviço deste o ex-sargento PM-RJ Ronny Teles, acusado de ter executado a vereadora Marielle Franco, desafeta do clã, atuava num quiosque nas proximidades do Vivendas da Barra, condomínio de luxo onde o pistoleiro de aluguel morava. Vizinho de ilustres como Jair e Carlos, vulgo 02, ou seja, o segundo filho do atual presidente da República. O mano Flávio, no exercício de mandato no Senado Federal, admitiu publicamente que a mãe de Adriano, Raimunda, e a irmã, Daniela, eram remuneradas em seu gabinete, por decisão de certo Fabrício Queiroz.
No histórico das relações entre a PM-RJ e o clã presidencial o mais antigo sócio é o subtenente, que havia servido com o pater familias na Brigada Paraquedista da Vila Militar do Exército no Rio, em 1984. Gestor autorizado pelo então deputado estadual, o elo visível depositou R$ 94 mil em contas da primeira-dama, Michele. A origem do dinheiro nunca foi esclarecida e, sempre que questionado a respeito, o cônjuge usou a ocasião como pretexto para disparar impropérios em cascata.
Isolado e cercado num sítio em Esplanada, no litoral da Bahia, Adriano foi morto pelas PMs fluminense e baiana em operação conjunta, em fevereiro de 2020. Sempre mudo a respeito de assuntos polêmicos, Flávio manifestou-se. Em mensagem no Twitter, chegou a sugerir que Adriano foi “brutalmente assassinado” e pediu que fosse impedida a cremação do corpo e as circunstâncias da morte, esclarecidas pelas autoridades. “DENÚNCIA! Acaba de chegar a meu conhecimento que há pessoas acelerando a cremação de Adriano da Nóbrega para sumir com as evidências de que ele foi brutalmente assassinado na Bahia. Rogo às autoridades competentes que impeçam isso e elucidem o que de fato houve”, escreveu, então.
O áudio de que dispõe a polícia fluminense, segundo o furo do UOL, é mais uma oportunidade para as autoridades, afinal, cumprirem o que Sua Excelência exigiu, com propriedade. Daniela pode ter mentido, mas, nessa hipótese, não terá sido a única. Nem terá contado a maior patranha desse festival de lorotas sangrentas. E o mistério prossegue em dúvidas nunca esclarecidas. Que prestígio político, perícia de ofício ou talento tarefeiro teriam Raimunda e Daniela Nóbrega para desempenharem qualquer função de utilidade no gabinete de Flávio? Por que até hoje, o presidente e o filho senador nunca justificaram à Nação a defesa veemente que sempre fizeram do colega capitão contra as evidências das investigações policiais e do Ministério Público e da lógica plana dos fatos? Por que o general Braga Netto, futuro candidato a vice-presidente na chapa presidencial do chefe de governo e da família, só combateu o tráfico de entorpecentes no Rio, deixando de lado os milicianos, concorrentes daqueles?
O que as autoridades encarregadas da segurança pública planejam fazer para evitar que a revelação do áudio de Daniela cause o efeito funesto da queima de arquivo, vitimando, como sempre, a parte mais frágil, ela própria? Quais atitudes a elite dirigente, política e econômica toma ou adotará para evitar que o rastilho de pólvora ora ativado faça a Nação explodir sobre os próprios pés de barro? Que moral restará ao poder judicante se continuar fazendo papel de cego de feira e surdo na ópera diante do clima de violência generalizada que assola o País neste momento de impunidade legalizada? Se tudo for pelos ares de que bolsos poderão arrancar os milhões que exigem para o sustento da politicalha de camarinha?
*Jornalista, poeta e escritor
Blog do José Neumanne
