Macron percebeu que terá de se engajar em sua própria campanha para evitar um desastre francês e europeu
Emmanuel Macron derrotou os partidos tradicionais franceses, como o Socialistas e Republicanos, com um movimento centrista construído do zero, em 2017. Cinco anos depois, os resultados do primeiro turno divulgados na noite de domingo mostram que a extrema direita e a extrema esquerda avançaram, colocando em dúvida uma vitória que parecia certa e ameaçando o precário equilíbrio da União Europeia. Marine Le Pen, do ultradireitista Reunião Nacional, passou para o segundo turno, como era esperado, mas as pesquisas imediatamente registraram que a disputa será bem mais apertada, longe dos 66% a 34% de Macron diante da rival na eleição anterior.
O presidente obteve 27,8% dos votos, ante 23,1% de Le Pen e 22% de Jean-Luc Mélenchon, do esquerdista França Insubmissa, que mal completou seu sexto ano de vida. Na nova paisagem política, em que os partidos tradicionais tiveram votação pífia, em especial o Partido Socialista, com Anne Hidalgo (1,8%), surgiram mais forças de direita radical, como a Reconquista, de Éric Zemmur, que em determinado momento ameaçou Le Pen e atingiu dois dígitos nas pesquisas (7,1% dos votos nas urnas). Com Valérie Pétresse, a direita gaulista dos Republicanos teve alguma esperança, logo desvanecida (4,8% dos votos).
Confiante, Macron mal se dedicou à campanha eleitoral, pelo menos não tanto quanto fez com relação às infrutíferas negociações para mediar o conflito da Rússia contra a Ucrânia. O assunto foi logo substituído por outro entre as inquietudes dos franceses, que prestaram atenção na nova roupagem de Le Pen, mais preocupada com preço dos combustíveis, desemprego, e carestia, o que lhe rendeu o apoio das áreas rurais atrasadas e do que restou da classe operária em cidades industriais decadentes. Macron foi melhor no norte do país, entre as pessoas empregadas, com maior renda e escolaridade.
A margem de vitória do presidente sobre sua rival foi maior do que em 2017, mas a onda direitista se fortaleceu e há muita incerteza sobre qual será a posição dos eleitores de Mélenchon no segundo turno. Uma dos traços da política francesa é que tanto a extrema direita quanto a esquerda são nacionalistas e têm algumas bandeiras comuns. Mélenchon é contra a Otan e vê com bons olhos a autocracia de Vladimir Putin, como Le Pen. Ambos são eurocéticos e apoiam políticas protecionistas. Macron é reformista, flexibilizou as regras trabalhistas, diminuiu impostos para empresas e os ricos e está empenhado em elevar a idade de aposentadoria de 62 para 65 anos.
Macron paira sobre as questões nacionais, o que lhe rendeu a imagem de “imperial” e de pouco conectado com os problemas cotidianos dos franceses, enquanto Le Pen se esforçou todo o tempo para parecer o contrário disso. Mélenchon disse que nenhum voto deveria ir para ela, mas em nenhum momento até agora insinuou apoiar Macron.
Pesquisas indicam que um quarto dos eleitores do França Insubmissa não irá votar no segundo turno e há uma fração deles que escolherá a candidata direitista. Atitude diferente tiveram partidos de esquerda sem votação expressiva. Os verdes e comunistas prometeram votar em Macron, assim como a direita republicana, mas é Mélenchon que pode mover o fiel da balança.
A extrema direita francesa nunca figurou tão bem em eleições no pós-guerra (Gideon Rachman, FT, ontem) e um sucesso na França colocaria em xeque os pilares da União Europeia em um momento político em que ela é particularmente vulnerável. Angela Merkel, a líder alemã que comandou o bloco por mais de uma década, saiu de cena. O novo chanceler alemão, Olaf Scholz, titubeia em relação a Putin pela dependência dos alemães da energia russa. Macron procura assumir a liderança política europeia, mas o avanço da direita é uma sombra ameaçadora a suas pretensões - uma derrota destruiria sua carreira política.
Le Pen mudou a direção dos discursos, mas o manual populista está intacto em seu programa, intacto. Ela se diz representante do povo contra as elites, defensora da nação contra o globalismo e do nacionalismo xenófobo. Propõe, por exemplo, que as leis francesas tenham primazia sobre as da UE. Seu discurso pareceu menos agressivo, até porque outros direitistas fizeram o papel de agitar o espantalho da imigração, como Zemmur, que prometeu repatriar 1 milhão de pessoas em cinco anos.
Macron percebeu que terá de se engajar em sua própria campanha para evitar um desastre francês e europeu. Segue sendo o favorito, mas doze dias de campanha é tempo suficiente para o azar.
Valor Econômico
