
Bolsonaro afunda na desorientação e perde apoio que lhe resta
Pedro do Coutto
Nada pior em política do que prometer alguma melhoria, excitar expectativas e depois recuar, frustrando fortemente esperanças, no caso de Bolsonaro, que ele próprio despertou. Mais uma vez, o presidente da República age contra a sua própria reeleição. É melhor não prometer nada, do que prometer e depois recuar.
A mágoa se refletirá nas urnas de outubro. Reportagem de Bruno Góes, O Globo de domingo, destaca o posicionamento do chefe do Executivo diante da reação de servidores federais, como é o caso dos integrantes da Receita pelo fato dele, Bolsonaro, ter anunciado reposição inflacionária somente para as Polícias Federal, Rodoviária e Judiciária.
APELO – Bolsonaro diz que apela para a sensibilidade dos funcionários e que não há espaço no orçamento para a elevação de salários. “Primeiramente – afirmou – não está garantido o reajuste para ninguém. Tenha a reserva de R$ 2 bilhões que poderia ser usada para a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária, além dos integrantes do sistema prisional.
Mas outras categorias viram isso e disseram: também queremos. E veio essa onda toda”. As declarações do presidente da República foram feitas a jornalistas no momento em que foi participar da festa de aniversário do advogado-geral da União, Bruno Bianco.
Na minha opinião, mais uma vez, prevalece a participação do ministro Paulo Guedes. Bolsonaro acrescentou que compreende a perda do poder aquisitivo, uma vez que não há reajuste desde 2017, e os alimentos e a energia elétrica subiram. “Mas não podemos simplesmente explodir o Brasil porque isso não resolve absolutamente nada”, disse.
REAÇÕES – O reflexo político da mudança de projeto de Jair Bolsonaro será dos maiores e dará margem a reações em cadeia. A começar pela própria Polícia Federal. Aliás, esta questão de aumento à Polícia Federal, Polícia Rodoviária e Polícia Judiciária foi colocada de maneira incompleta porque o governo prometeu reajuste, mas nunca disse a porcentagem a ser aplicada aos vencimentos dos servidores.
De qualquer forma, o desgaste será muito grande, adicionando mais um fator de distanciamento entre o presidente da República e o candidato à reeleição.
AVISO A BOLSONARO – Conforme escrevi ontem, a mensagem do general Paulo Sérgio Nogueira estabelecendo a obrigatoriedade de vacinação do Exército, além da imunização importante, representou um aviso ao presidente da República sobre a hipótese de conflito no dia das eleições, consequência da polarização.
Excelente reportagem de Marianna Holanda, Folha de S.Paulo de ontem, focaliza amplamente o quadro criado com Bolsonaro tentando concentrar o posicionamento do titular do Exército exclusivamente no caso da vacinação. No O Globo, o assunto também foi bem focalizado por Bruno Goés e Gabriel Shinohara, que ouviram o general Carlos Alberto Santos Cruz, ex-ministro da Secretaria de Governo, que disse: “O presidente Jair Bolsonaro faz um show de besteiras todos os dias”.
PELA TANGENTE – Bolsonaro disse no sábado que não exigiu explicações do Ministério da Defesa sobre a mensagem do general Paulo Sérgio Nogueira. Apenas disse que não se vacinou e que (falta um pouco de nexo na frase) “não tem exigência nenhuma, não tem mudança e que pode esclerecer”, acentuou, dirigindo-se aos jornalistas.
“Hoje, tomei café com o general paulo Sérgio Nogueira e se ele quiser esclarecer o fato, tudo bem. E se não quiser, está resolvido. Não tenho que dar satisfação para ninguém. É uma questão de interpretação”, acrescentou.
Como se constata no texto irregular, o presidente da República partiu para deslocar qualquer reflexo político maior das afirmações do ministro do Exército. Efetivamente, na minha opinião, não se consegue compreender exatamente o pensamento que gerou as palavras do presidente.
DIRETRIZ – Afinal de contas, a defesa da vacinação não é uma questão interpretativa. É uma diretriz. O mesmo se aplica à ameaça de punição dos militares que colocarem fake news nas redes da internet. Esta parte então é um recado absolutamente direto aos bolsonaristas identificados como os que operam na usina da desinformação que tanto prejudica o legítimo interesse coletivo da população.
Os reflexos negativos imaginários à vacina só podem partir dos que são contra a sua aplicação. É o caso típico do próprio Jair Bolsonaro que ainda recentemente revelou que não levará a sua filha Laura de 11 anos para que seja vacinada, embora a sua esposa, Michele Bolsonaro, tenha se vacinado em Nova York quando da instalação em setembro da Assembleia Geral da ONU de 2021.
DESAFIO DE BARRA TORRES – Na noite de sábado, o Jornal Nacional da TV Globo revelou, na íntegra, a carta aberta do almirante Antônio Barra Torres, presidente da Anvisa, ao presidente Jair Bolsonaro, desafiando-o a provar as acusações que fez à Anvisa quando insinuou que existia alguma coisa por trás da decisão da Agência em favor da vacinação de crianças de 5 a 11 anos.
Barra Torres exigiu uma investigação e que o presidente da República apresente provas concretas contra a sua idoneidade, lembrando de sua patente de oficial general (almirante) da Marinha brasileira com 32 anos de serviço.
“Se o presidente da República não encontrar provas capazes de sustentar a sua acusação que tenha a hombridade de vir a público e reconhecer o seu erro”, afirmou. Surpreendentemente, os jornais de domingo, pelo menos em suas edições impressas, não publicaram a matéria que merece destaque por sua importância e pelo tom de desafio lançado. O JN entrou no ar às 20h30, mas possivelmente, penso, a matéria deveria estar no sistema online da Globo e portanto também no online de O Globo.
TERCEIRA VIA – Fala-se agora na política brasileira em matéria de sucessão que há uma perspectiva de surgir uma terceira via entre Lula e Bolsonaro. Isso me faz lembrar iniciativas no Brasil e no mundo de se lançar terceiras forças ou terceiras vias, tentativas todas eles fracassadas. No plano internacional, aliás, foi objeto de um livro do jornalista e historiador Paulo de Castro, que foi do Diário de Notícias e do Correio da Manhã, focalizando o bloco surgido em decorrência da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, da terceira força.
O movimento foi liderado pelo marechal Josip Broz Tito da antiga Iugoslávia que resistiu ao nazismo e jamais se rendeu às tropas de Hitler. Tito lançou então uma terceira força no cenário mundial integrada por ele, pelo primeiro-ministro da Índia, Jawaharlal Nehru que sucedeu a Gandhi em 1947. A terceira força reunia também o ditador do Egito, Gamal Abdel Nasser, que fazia parte de um grupo de coronéis que havia derrubado o rei Faruk.
Tito enfrentou pressão de Stalin que cercou fronteiras iugoslavas, porém não se intimidou. Mas o movimento da terceira força não progrediu. Não havia base econômica sólida, a não ser o Canal de Suez, que na época era uma rota fundamental para os carregamentos de petróleo. Paulo de Castro teve sucesso em suas obras, mas o passar do tempo diminuiu a sua importância. Passou a ser apenas uma página da história.