sábado, janeiro 15, 2022

Barra Torres: o militar que peitou Bolsonaro.




Ele é conhecido por respeitar a hierarquia da caserna, mas não costuma levar desaforo para casa. Crusoé conta a história do contra-almirante Antonio Barra Torres, chefe da Anvisa, que desafiou o presidente da República e ganhou. 

Por Fábio Leite

O staff palaciano se preparava para uma visita de Jair Bolsonaro às obras de um hospital de campanha em Goiás, em abril de 2020, bem no início da pandemia, quando um assessor saiu à caça de um colete do SUS. O presidente queria participar da cerimônia paramentado com a peça, para chamar mais atenção. Luiz Henrique Mandetta, que seria demitido do Ministério da Saúde na semana seguinte, entendeu que não era uma boa ideia. Ao ouvir o pedido do auxiliar presidencial, disse que não tinha um colete para emprestar ao chefe. Antonio Barra Torres, diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, estava pronto para atender a demanda. Ele já havia levado consigo para o evento um colete da própria Anvisa personalizado com o nome do presidente. Bolsonaro, então, seguiu o ritual de sempre: ignorou o protocolo, tirou a máscara e cumprimentou apoiadores.

Embora pareça trivial, o episódio é simbólico para quem repete como mantra a necessidade de “vestir a camisa” da instituição a que serve. É o caso de Barra Torres, de 57 anos. Contra-almirante da reserva da Marinha, ele foi escolhido por Bolsonaro para dirigir a Anvisa por ser, além de médico, um militar. Desde que ascendeu ao comando da agência como interino, no fim de 2019, Barra Torres tem feito questão de defender publicamente as decisões do órgão, que está no centro de polêmicas desde o início da pandemia, por deliberar sobre vacinas e medicamentos contra a Covid-19. Foi assim, por exemplo, nas críticas feitas por opositores do governo quando a Anvisa suspendeu os testes da Coronavac, a vacina patrocinada pelo governador paulista João Doria, no fim de 2020. E foi assim nas críticas feitas por aliados do Planalto por causa da rejeição ao imunizante russo Sputnik V, encampado pelo bolsonarismo. Nenhuma das respostas, porém, teve o tom duro usado por Barra Torres para rebater os recentes ataques proferidos contra a agência pelo próprio presidente da República.

Na noite do último sábado, 8, o chefe da Anvisa divulgou uma nota dura cobrando uma retratação de Bolsonaro pelas insinuações de que haveria algum interesse escuso por trás da decisão da agência de liberar a vacinação infantil contra a Covid. “Qual o interesse da Anvisa por trás disso aí? Qual o interesse das pessoas taradas por vacina?”, havia dito Bolsonaro dois dias antes, durante uma entrevista a uma emissora de rádio do Nordeste. “Se o senhor dispõe de informações que levantem o menor indício de corrupção sobre este brasileiro, não perca tempo nem prevarique, senhor presidente. Determine imediata investigação policial sobre a minha pessoa, aliás, sobre qualquer um que trabalhe hoje na Anvisa, que com orgulho eu tenho o privilégio de integrar”, reagiu Barra Torres. “Agora, se o senhor não possui tais informações ou indícios, exerça a grandeza que o seu cargo demanda e, pelo Deus que o senhor tanto cita, se retrate. Estamos combatendo o mesmo inimigo e ainda há muita guerra pela frente”, completou. Foi a primeira vez, desde o início do governo, que um militar enfrentou o presidente de peito tão aberto e de maneira tão eloquente, e em público.

Barra Torres passou a tarde de sábado discutindo com os outros quatro diretores da Anvisa o teor da resposta que deveria dar a Bolsonaro. Havia um consenso de que era preciso repelir publicamente as insinuações do presidente depois que os próprios dirigentes da agência passaram a ser alvo de ameaças por causa da liberação da vacina da Pfizer para crianças de 5 a 11 anos, aprovada em dezembro – as ameaças estão sendo investigadas pela Polícia Federal. Algumas versões da nota foram rascunhadas, mas Barra Torres considerou o conteúdo técnico demais. Ele quis dar um peso mais político ao texto e, por isso, redigiu uma carta de cunho pessoal, destacando sua trajetória com valores defendidos pelo bolsonarismo: a formação militar, a família e a religião. Ao assinar a nota, Barra Torres faz questão de pontuar que, além de presidente da Anvisa, é médico e contra-almirante da Marinha, o que ressaltou o feito inédito.

O tom surpreendeu o Planalto e os funcionários da Anvisa, que já esperavam um posicionamento do chefe em defesa da instituição. Bolsonaro, por óbvio, não gostou. O presidente se queixou da carta dizendo, primeiro, que ela era “agressiva” e que “não tinha motivo para aquilo” porque “ninguém acusou ninguém de corrupto”. Depois, criticando Barra Torres por desrespeitar valores que são caros aos militares. “Aqui não é um quartel, mas devemos ao máximo zelar pela hierarquia e disciplina, senão não funciona. Não briguei com o presidente da Anvisa. Questionei sobre um assunto que tinha de ser questionado”, afirmou, durante discurso no Palácio do Planalto. O presidente também disse que Barra Torres “ganhou luz própria” após assumir mandato na Anvisa e que “se tivesse tido convivência” com ele, “talvez não o tivesse indicado”. No fim das contas, Bolsonaro “afinou”. Foi obrigado a recuar porque, se mantivesse viva a suspeita, poderia ser instado judicialmente a provar o que disse. Alternativamente, se houvesse algum elemento concreto que embasasse a afirmação, restaria a pergunta: como autoridade pública, por que ele não agiu antes? Se não agiu, prevaricou. O xeque-mate de Barra Torres deu certo.

Para militares da reserva ouvidos por Crusoé, a “independência” assegurada pelo mandato de cinco anos na agência deu a Barra Torres a segurança necessária para destoar do comportamento padrão de integrantes das Forças Armadas com cargos no governo e rebater Bolsonaro — o mandato do contra-almirante vai até dezembro de 2024. “Creio que esse posicionamento esteja mais ligado até à natureza do cargo que ele ocupa, com mandato estabelecido e do qual não pode ser demitido, do que ao fato de ele ser da Marinha, que sempre foi uma força mais discreta e diplomática que o Exército, onde o presidente tem mais influência porque foi onde ele fez a carreira militar”, afirma um general da reserva que já atuou no governo.

A relação entre Barra Torres e o presidente teve início em 2013, quando Bolsonaro ainda era deputado federal e visitou o Hospital Naval Marcílio Dias, onde o contra-almirante era diretor, no Rio de Janeiro, para acompanhar a entrega de equipamentos comprados com dinheiro de emendas parlamentares. Bolsonaro estava acompanhado dos três filhos políticos na ocasião e a ótima impressão deixada por Barra Torres fez com que o clã passasse e prestigiá-lo com menções nos inúmeros eventos militares nos quais eles se encontrariam dali em diante. Em fevereiro de 2019, o oficial entrou para a reserva remunerada da Marinha, depois de trinta anos na força, e comunicou a Bolsonaro em um encontro da corporação que estava à disposição para assumir qualquer “missão” no governo. Meses depois, veio o convite para assumir o cargo de diretor da Anvisa. Ao ser sabatinado no Senado, o contra-almirante foi questionado sobre como agiria sob pressão. “Pressão a gente recebe, depura e continua trabalhando”, respondeu.

Àquela altura não havia a pandemia, mas a Anvisa já estava sob forte pressão. Os bolsonaristas estavam inconformados com a tentativa do então presidente da agência, William Dib, indicado por Michel Temer, de aprovar a liberação do plantio de maconha para fins medicinais no Brasil. Eles queriam emplacar um dos seus na estrutura do órgão. Referenciado pela cúpula militar, Barra Torres foi nomeado por Bolsonaro e, meses após assumir o cargo, ajudou a barrar a medida, cacifando-se para assumir o comando do órgão em 2020, após o término do mandato de Dib. Pesou a favor a formação religiosa de Barra Torres, que é cavaleiro da Ordem de Malta, uma organização que surgiu no século XI como um braço militar da Igreja Católica e hoje promove ações humanitárias. Vez ou outra, ele usa uma máscara de proteção contra a Covid com a insígnia do grupo religioso.

Rotulado como o “diretor bolsonarista da Anvisa”, Barra Torres causou desconfiança interna ao recrutar outros militares para o seu gabinete – seus dois principais auxiliares são oficiais do Exército. O trabalho na agência exige conhecimento e atuação eminentemente técnicos, e havia receio de que ele agisse guiado pelos interesses políticos do Planalto. O temor se agravou depois que Barra Torres participou, sem máscara, de uma manifestação a favor de Bolsonaro e contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, em Brasília. Na ocasião, a associação que representa os funcionários da Anvisa divulgou uma nota de repúdio, manifestando “consternação” com a atitude, que contrariava as orientações da Organização Mundial da Saúde, a OMS.

Antes disso, Barra Torres já havia aconselhado Bolsonaro a desautorizar o então ministro Luiz Henrique Mandetta e determinar a revogação da ordem que impedia a saída de cruzeiros no país para tentar frear a disseminação do coronavírus. De pronto, foi atendido. O presidente também explorou politicamente outras decisões da agência, como a que suspendeu temporariamente os testes da Coronavac, no fim de 2020, após a ocorrência de um “evento adverso grave não esperado” — depois registrado como suicídio de um voluntário, sem qualquer relação com o imunizante. Na ocasião, Barra Torres convocou uma coletiva para reafirmar que a decisão era “técnica” e negar que tenha havido qualquer interferência política. A atuação à frente da agência rendeu um convite para participar da live semanal que Bolsonaro promove em suas redes sociais. Na transmissão, no início de 2021, as primeiras divergências envolvendo a vacinação começaram a ficar mais explícitas. “Você vai vacinar?”, perguntou Bolsonaro. “Eu vou, é claro. A vacina que tiver no posto”, respondeu o chefe da Anvisa. “Eu vou te acompanhar”, emendou o presidente. “Já é um começo”, completou Barra Torres.

Bolsonaro começou a live ressaltando a autonomia da Anvisa. “Deixo bem claro que a Anvisa é um órgão independente, não faz parte do meu governo”, disse. Considerado “metódico” e “regimentalista” pelos colegas de trabalho, Barra Torres levou a blindagem garantida pela lei ao pé da letra, como deve ser. Seu desprendimento do bolsonarismo foi escancarado na CPI da Covid no Senado. A percepção de senadores de oposição que viam o contra-almirante com ressalvas mudou assim que ele assumiu o microfone e confirmou a existência de uma reunião revelada também em depoimento pelo ex-ministro Mandetta, na qual integrantes do chamado “gabinete paralelo” discutiram alterações na bula da cloroquina para usar o medicamento contra a Covid. Aos senadores, Barra Torres disse ter sido contra a ideia defendida pelos bolsonaristas porque os estudos mostram que o remédio não tinha eficácia comprovada.

“Foi um divisor de águas para os olhos do G7 (grupo majoritário da CPI) por uma série de fatores”, avaliou Omar Aziz, que presidiu a CPI. “Ele contou ter sido ‘deselegante’ ao rejeitar a ideia de mudança da bula da cloroquina para a prescrição a pacientes com Covid. Falou em favor do isolamento. Nos explicou de forma didática o ‘não’ da Anvisa a algumas das vacinas. Eu, que havia perguntado por que a Sputnik não seria boa se até Vladimir Putin havia tomado a vacina, tive o esclarecimento de que a agência não poderia atestar a segurança do imunizante por não ter informações de todos os doze laboratórios que o fabricavam. Naquele momento, vimos que ele não priorizava mais o alinhamento com o Planalto”, completou o senador. Desde então, Aziz estreitou laços com Barra Torres. No dia em que o chefe da Anvisa cobrou uma retratação de Bolsonaro, Aziz havia lhe mandado um vídeo em que demonstrava apoio à equipe técnica da agência. Recebeu um agradecimento pela solidariedade.

Para um ex-colega de trabalho, Barra Torres percebeu rapidamente que, se não se vacinasse contra as sandices bolsonaristas, sofreria um dia as mesmas consequências que hoje pesam sobre o general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde que foi alvo de um pedido de indiciamento da CPI e é investigado pelo Ministério Público Federal. Entre a credencial de “amigo do presidente” e o colete da Anvisa, Barra Torres optou pelo segundo.

Revista Crusoé

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