Publicado em 15 de janeiro de 2022 por Tribuna da Internet
Pedro do Coutto
Com o decreto transferindo para o chefe da Casa Civil a execução do orçamento, o presidente Jair Bolsonaro, sem dúvida alguma, esvaziou fortemente a posição política e administrativa de Paulo Guedes. Afinal de contas, é fato inédito que a execução do orçamento fique a critério do chefe da Casa Civil e não de acordo com as diretrizes do ministro da Economia, que, aliás, acumula as funções de ministro da Fazenda e do Planejamento.
O presidente da República sustenta que a base parlamentar do Planalto precisa ser atendida e que a liberação de recursos para bases eleitorais de adversários políticos ficavam com muito dinheiro. A crítica, portanto, foi direta a Paulo Guedes que não pode, na minha opinião, simular que não ouviu. O ponto nevrálgico da questão está na sua atuação política, uma vez que pelo o que se entende da fala do presidente estava fortalecendo adversários do governo nas eleições de outubro deste ano.
ESTRUTURA ABALDA – No O Globo, Manuel Ventura, Daniel Gullino e Daniel Shinohara focalizam a decisão que, sem dúvida alguma, abala a estrutura do governo, sobretudo na medida em que força a substituição do titular da Economia. Na Folha de S. Paulo, Idiana Tomazelli e Marianna Holanda, também na edição de ontem, destacam que Bolsonaro tirou o poder de Paulo Guedes no sentido de fazer com que a Casa Civil transfira recursos previstos nas emendas dos deputados que formam o Centrão, sua base parlamentar.
A matéria ainda assinala que Guedes ficou mal no episódio. Diante desse panorama é provável que integrantes da equipe deixem os cargos. Existe também a questão que deputados e senadores do Centrão realizaram acertos paralelos para a liberação de emendas parlamentares para obras em redutos eleitorais.
Com o decreto, o titular da Casa Civil, Ciro Nogueira, deverá liberar as mudanças em cada linha de despesa, acentuam também Idiana Tomazelli e Marianna Holanda. Como se constata, mais uma crise abala o governo com reflexo no quadro político eleitoral. Tenho dúvida se a saída de Paulo Guedes acrescenta alguns votos a Bolsonaro ou acarretará perdas com reflexos nas urnas.
CADA UM POR SI– Seja qual for o reflexo, teria sido melhor para o governo que essa nova crise não tivesse ocorrido, mas ela acentua a força irresistível do fisiologismo, sobretudo quando se aproximam as eleições. Não se trata apenas, Bolsonaro talvez não tenha entendido, de uma posição de deputados e senadores em favor da reeleição do presidente. Trata-se sobretudo do empenho de parlamentares para que eles próprios se reelejam, independentemente do destino do presidente da República.
Em matéria de Centrão, precedentes não faltam. O bloco apoiou Fernando Henrique Cardoso, apoiou Lula da Silva, apoiou Dilma Rousseff até o seu segundo mandato, apoiou Temer e apoia Jair Bolsonaro. Mas a vinculação nas urnas de outubro dependerá do fato de se Bolsonaro lhes acrescenta votos ou lhes retira sufrágios.
Na segunda hipótese, partirão para alianças estaduais que sejam mais vantajosas do que a aplicação dos recursos financeiros de suas emendas orçamentárias. Afinal de contas estamos tratando de política. Portanto, liberados os recursos das emendas, cessam os motivos fisiológicos para que parlamentares continuem ao lado do governo e da campanha do presidente.
REFLEXO NO EXÉRCITO – A reportagem de Daniel Della Coletta e Vinicius Sassine revela que logo após a divulgação da mensagem do general Paulo Sergio Nogueira, comandante do Exército, em favor da vacinação e proibindo as fake news na Força, uma nova tempestade ameaçou atingir o governo.
Bolsonaro, acentua a matéria, reuniu-se com o comandante do Exército quando o presidente manifestou receio de que as diretrizes do general gerassem uma nova crise. Logo, Bolsonaro revelou de fato estar contra as determinações do comandante do Exército ao que se refere às vacinas e também às fake news. O encontro foi no Palácio da Alvorada e sua motivação,segundo informaram, foi tratar de projetos estratégicos das Forças Militares.
Bolsonaro negou a existência de recomendação, acentuando que a matéria é uma questão de interpretação. Entretanto, os que combatem a obrigatoriedade da vacina sob a alegação da liberdade de aceitá-la ou não, esquecem uma outra obrigação determinada pelo Estado às famílias que é a de matricularem os seus filhos e filhas acima de 6 anos de idade na rede de ensino. A matrícula não é facultativa, dada a sua importância social e educativa. Portanto, digo, a vacinação também deve ser obrigatória.
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