sexta-feira, março 12, 2021

PGR avalia que será difícil plenário do STF derrubar decisão de Fachin que beneficiou Lula

Publicado em 12 de março de 2021 por Tribuna da Internet

Decisão de Fachin deve ganhar apoio de Gilmar e Lewandowski

Rafael Moraes Moura
Estadão

A cúpula da Procuradoria-Geral da República (PGR) e integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) avaliam que é difícil o plenário da Corte derrubar a decisão do ministro Edson Fachin, que na segunda-feira, dia 8, anulou as condenações do ex-presidente Luiz Inácio da Lula da Silva no âmbito da Lava Jato. A decisão individual do ministro habilitou o petista a disputar eleições, o que redesenhou o cenário político para 2022.

Pelo cálculo de procuradores, a decisão de Fachin deve ganhar o apoio de ministros como Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski, dois expoentes da ala contrária à Lava Jato no STF. O julgamento deve “bagunçar” as divisões internas da Corte.

MANIFESTAÇÃO – A PGR tem até a próxima segunda-feira, dia 15, para se manifestar sobre o caso. Depois que o recurso da Procuradoria for formalmente apresentado, Fachin deve liberar o caso para julgamento. Na etapa seguinte, o presidente do Supremo, Luiz Fux, define quando os 11 integrantes da Corte analisam sobre o tema, que já vem sendo avaliado pelos ministros nos bastidores.

O ministro Marco Aurélio Mello já indicou que não aprova o caminho escolhido por Fachin. “Essa decisão foi realmente uma bomba atômica, gerando uma insegurança jurídica muito grande”, disse Marco Aurélio ao Estadão. “Agora, vamos aguardar até o desfecho do caso da suspeição, que está lá na Segunda Turma, no qual o herói nacional, que tem serviços prestados à Pátria, está passando por bandido”, completou ele, numa referência ao ex-juiz Sérgio Moro.

Fachin não avisou aos colegas com antecedência sobre o teor da decisão que tornaria Lula elegível, mas, depois de assiná-la, entrou em contato com Fux por telefone. O Estadão apurou que o presidente do STF viu com bons olhos a manobra do colega para reduzir danos, tentar tirar o foco do ex-juiz da Lava Jato Sérgio Moro e, com isso, tentar preservar outras condenações da operação.

EFETO CASCATA – Fachin optou por se antecipar a uma decisão da Segunda Turma sobre a parcialidade de Moro na condução da Lava Jato. O julgamento pode invalidar as provas contra Lula, provocar um efeito cascata e invalidar outros processos da investigação.

Com a decisão que determinou o envio dos casos à Justiça Federal do Distrito Federal, Fachin queria dar como encerrado o debate sobre a conduta de Moro. Para o relator da Lava Jato, como a condenação de Moro contra Lula na ação do tríplex do Guarujá foi anulada, não haveria mais motivos para se questionar a atuação do ex-juiz.

“ATROPELO” –  Apesar do “atropelo” de Fachin, o ministro do STF Gilmar Mendes contrariou o colega e resolveu levar adiante o julgamento sobre a suspeição de Moro, que acabou interrompido. O placar ficou empatado em 2 a 2 após o pedidopara mais tempo de análise do ministro Kassio Nunes Marques.

Dois ministros ouvidos pelo Estadão observaram que Nunes Marques não deve demorar muito para liberar o caso para julgamento na Segunda Turma. Na prática, o pedido de vista do ministro novato dá tempo para as articulações dos colegas.

Até então, Gilmar e Lewandowski eram resistentes à ideia de apoiar  Fachin devido à tentativa de esvaziar a análiseda suspeição de Moro. Agora, no entanto, a Segunda Turma já decidiu que o julgamento do ex-juiz da Lava Jato será concluído de qualquer jeito, com risco concreto de Moro ser declarado suspeito, ter a conduta repudiada pelo Supremo e até acabar obrigado a pagar os custos processuais do caso de Lula.

PRECEDENTES – Para embasar a sua decisão de 46 páginas, Fachin pesquisou um total de 20 precedentes da Corte, tanto do plenário quanto da Segunda Turma. Neles, casos sem conexão direta com o esquema de corrupção na Petrobrás acabaram tendo outro destino que não Curitiba. Na maioria deles, o relator da Lava Jato foi voto vencido, como fez questão de destacar na decisão.

No ano passado, por exemplo, contra a vontade de Fachin, a Segunda Turma do STF decidiu enviar à Justiça Federal do DF parte do inquérito que investiga os ex-senadores Romero Jucá e Valdir Raupp pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro na Transpetro. Depois, Edison Lobão e seu filho, Márcio Lobão, solicitaram o mesmo e o pedido de extensão foi atendido por Gilmar.

DECISÃO INDIVIDUAL – O entendimento da Segunda Turma também levou Fachin a decidir individualmente enviar à Justiça Federal do DF uma ação penal em que os empresários  Germán Efromovich e José Efromovich são investigados, acusados de crimes de corrupção ativa e lavagem de capitais no âmbito da Transpetro.

O relator da Lava Jato decidiu encaminhar os casos de Lula para a Justiça Federal do DF por entender que o petista merecia ter o mesmo tratamento conferido a outros investigados que entraram na mira dos investigadores de Curitiba. “No contexto da macrocorrupção política, tão importante quanto ser imparcial é ser apartidário”, observou Fachin.

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