Qual é a chance de a eleição presidencial se resolver no 1º turno? A abstenção será maior neste ano? Lula (PT) está estagnado e Flávio Bolsonaro (PL) crescendo? Para responder a essas e outras perguntas decisivas na reta final da campanha eleitoral, a Folha ouviu cinco especialistas. Eles concordam em várias previsões e interpretações e discordam em outras.
Foram entrevistados o cientista político e sociólogo Antonio Lavareda; a antropóloga e professora titular de estudos globais da University College Dublin Rosana Pinheiro-Machado; o CEO do Instituto Travessia, Renato Dorgan Filho; o diretor de relações institucionais do Instituto Democracia em Xeque, Beto Vasques, e a professora de ciência política da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) Nara Pavão.
A mais recente pesquisa Datafolha, divulgada em 17 de setembro, mostra o petista e o bolsonarista tecnicamente empatados no primeiro turno, com 39% e 36%, respectivamente. O empate técnico se repete no segundo turno, com 46% para o presidente e 44% para o senador. Há certo consenso de que Lula vem enfrentando uma estagnação nas últimas pesquisas, enquanto a oposição conseguiu crescer.
A crise do STF (Supremo Tribunal Federal) é apontada pela maioria como fator que influencia as eleições e pesa mais contra o governo, ao reforçar a associação entre Lula e Alexandre de Moraes e drenar a atenção do eleitorado de outros temas.
Sobre a dificuldade de Lula converter medidas populares em aprovação, os entrevistados citam explicações complementares. Desde o teto de rejeição ao presidente e ao PT até a ausência de uma narrativa unificadora para o governo, passando pela ascensão de uma classe trabalhadora plataformizada e hiperindividualista, mais permeável ao discurso de Flávio Bolsonaro e de figuras como Augusto Cury.
Já sobre a abstenção, a expectativa geral é de estabilidade ou leve alta em relação a 2022, com efeito potencialmente mais prejudicial a Lula, cujo eleitorado de renda mais baixa tende a se abster mais.
Veja, abaixo, o que disseram cada um dos entrevistados:
Há chance de a eleição presidencial terminar no 1º turno?
Antonio Lavareda
Não. A chance é irrisória, dado o grau de fragmentação do campo eleitoral. Dois indicadores para medir competitividade numa eleição —o número efetivo de candidatos e o índice de fracionamento de Laakso-Taagepera— estão hoje em 3,08 e 0,68, bem acima do necessário para uma definição no primeiro turno. Nas duas únicas vezes em que isso aconteceu na história recente, em 1994 e 1998, o campo eleitoral era muito mais concentrado, com esses mesmos índices oscilando entre 2,5–2,6 e 0,61–0,62. Por esse critério, a disputa atual está longe de reunir as condições para uma vitória antecipada.
Beto Vasques
Não. É possível, mas não provável. Observamos um movimento que venho chamando de "antecipação radical da dinâmica do voto útil": o eleitor tem adiantado para o primeiro turno uma escolha que normalmente só faz no segundo. Isso ocorre mais na direita, onde os candidatos menores já mostram uma pequena queda nas pesquisas, mas não o suficiente para que a eleição termine na primeira votação.
Nara Pavão
Acho difícil. A lógica do primeiro turno é permitir um voto mais expressivo e menos estratégico, mas o alto grau de polarização antecipa esse comportamento estratégico. Diferentemente de 2018, quando havia um candidato à frente, esta eleição é tão acirrada quanto a de 2022, o que torna difícil uma definição já na primeira votação.
Renato Dorgan Filho
Não. O ambiente lembra 2018, quando crises como a Lava Jato e o impeachment de Dilma abriram espaço para candidaturas disruptivas. A crise do STF, hoje, cumpre papel parecido. Mas como a diferença entre Flávio e Lula é mínima, é muito difícil que a eleição termine no primeiro turno.
Rosana Pinheiro-Machado
Chance há, mas não acredito. Teremos um cenário muito parecido com o da eleição passada, bem apertado, no qual os candidatos vão continuar nesse empate técnico. Não há, para nenhum dos lados, uma tendência de crescimento muito rápida na reta final.
O que as pesquisas mostram, até agora, é uma ascensão contínua da oposição e uma estagnação dos votos do candidato à reeleição?
Antonio Lavareda
Sim. Trata-se para a grande maioria de uma eleição "de mudança", não necessariamente "de oposição". E a campanha de Lula não tem falado nisso. Em 2014, 70% dos brasileiros queriam "mudanças". A campanha de Dilma convenceu a maioria de que ela era a mais capaz de levá-las a cabo.
Beto Vasques
Não. Não é que o Flávio esteja crescendo e o Lula esteja estagnado. Nas últimas pesquisas, os dois estão estagnados. Ambos têm intenção de voto elevada, mas também alta rejeição. É um cenário parecido com o "terceiro turno" de 2022. O presidente Lula oscilou numa faixa de 45% a 48%. E o Flávio oscilou três pontos também, de 43% a 46%.
Nara Pavão
Com certeza. Muito em decorrência da configuração da oferta de candidatos, em que há basicamente um grupo na esquerda e vários na direita. À medida que a eleição se aproxima e essa lógica dicotômica e binária da polarização se concretiza, o nome de Flávio Bolsonaro ganha mais destaque porque as outras opções de direita se esvaziam e os votos migram naturalmente para ele.
Renato Dorgan Filho
Sim. Existe uma estagnação de Lula após revelações envolvendo ministros do Supremo, mas o crescimento de Flávio não foi tão grande. Ele cresceu mais durante a semana do 7 de Setembro e menos nos últimos dias. Nas redes, a campanha do PT tem reforçado a associação entre Flávio e o Master, algo que também observamos nas nossas pesquisas qualitativas.
Rosana Pinheiro-Machado
Sim. Vemos estagnação de Lula, crescimento tímido de Flávio e leve ascensão de outros nomes, como [Ronaldo] Caiado e Renan [Santos]. A grande novidade foi a ascensão de Cury, estabilizado em 7%-8%. Embora se apresente como nem de esquerda nem de direita, ele está alinhado ao campo da direita, e seu voto deve migrar para Flávio no segundo turno.
A crise no STF influencia a decisão de voto?
Antonio Lavareda
Sim. Embora não seja a principal determinante, numa disputa acirrada pode desequilibrar o jogo. A crise do Supremo, no presidencialismo, afeta mais o incumbente que é o chefe de Estado. Ademais, Moraes sendo visto como algoz de Bolsonaro implicitamente é percebido como "aliado" de Lula. Agora, novas revelações sobre Vorcaro e Flávio, se ocorrerem, poderão contrabalançar isso.
Beto Vasques
Sim. Uma pequena parcela de eleitores pendulares ainda é sensível à agenda factual, hoje dominada pela crise do Supremo. Na primeira semana, Flávio foi o mais beneficiado; depois, a exposição do ministro [André] Mendonça mudou o quadro. Em grupos focais com eleitores pendulares, vimos a percepção evoluir da confusão para a polarização, e hoje para a ideia de que cada um está pensando só em si.
Nara Pavão
Muito pouco. Estamos numa saturação informacional que impede o eleitor de processar novos escândalos. O tema da corrupção é o mais saturado desta eleição. A crise no Supremo dificilmente muda o quadro de forma dramática, apenas nas margens, prejudicando um pouco mais Lula do que Flávio
Renato Dorgan Filho
Sim. A crise contamina o processo eleitoral e impede que Lula rompa a barreira com eleitores mais neutros, dada a associação de seu nome ao de Alexandre de Moraes. Ela também trava o crescimento de Flávio, impedindo que abra vantagem nas pesquisas. Entre evangélicos, pesa menos a corrupção e mais a discussão sobre costumes e valores morais. Temos visto nas qualitativas, pessoas que perguntam "mas o Flávio estava nessas surubas?"
Rosana Pinheiro-Machado
Influencia muito, favorecendo a oposição e desgastando o governo. Crises assim viram o grande tema da eleição, alimentando uma narrativa de suposto autoritarismo do STF, prato cheio para a extrema-direita, como em outras campanhas populistas pelo mundo. A crise corrói a atenção do eleitor e impossibilita a discussão de outras matérias. Isso mobiliza não só quem já é convertido, mas se espalha para quem está indeciso, para quem vota no Lula, mas acredita que ele está há muito tempo no poder.
Por que, apesar de adotar várias medidas populares, Lula não consegue aumentar a aprovação de seu governo?
Antonio Lavareda
Faltou ao governo uma narrativa imperativa sobre o significado do governo Lula 3. Algo que servisse para contrastar a leitura da mídia e da oposição de que o país estava e ainda está no "rumo errado". As diversas iniciativas comunicacionais —da isenção do imposto de renda ao Pé de Meia— foram tratadas como produtos isolados, sem um fio articulador consistente.
Beto Vasques
Um candidato à reeleição normalmente ganha aprovação quando começa o horário eleitoral, mas esse efeito sumiu por dois motivos: o noticiário foi tomado pela crise do Supremo e o eleitor não consome mais propaganda eleitoral como antes. Some-se a isso uma tendência mundial de desaprovação de incumbentes no mundo, como vimos com Orbán, na Hungria, ou Biden, nos EUA.
Nara Pavão
As pessoas não rejeitam Lula por questões ideológicas. O antilulismo é uma reação afetiva à política. A despeito das políticas que ele implementa, das coisas que ele faz, o Lula tem um teto de rejeição, para além do qual ele não consegue crescer.
Renato Dorgan Filho
As medidas populares, como o Vale Gás e o Desenrola, sustentaram o governo. Sem elas, a situação seria pior. Mas tem uma questão econômica que é difícil de romper porque bate no custo de vida. Mesmo com pleno emprego, a vida desse trabalhador é dificílima: escala 6x1, salário mínimo e inflação alta em algumas regiões. Ele também não conseguiu romper a bolha da segurança pública, tema que poderia render voto disputado com a extrema-direita.
Rosana Pinheiro-Machado
Lula tem um público fiel, mas com teto de aprovação. O governo aposta quase tudo na escala 6x1, que é importantíssimo, mas há um ceticismo sobre como isso vai se transformar em benefício para o trabalhador. Tem uma metade da população economicamente ativa com quem o governo não está falando. É uma população cada vez mais pejotizada, plataformizada, e que vê a si próprio como a solução dos seus problemas, numa lógica hiperindividualista e não do Estado.
A abstenção será maior ou menor do que na eleição de 2022?
Antonio Lavareda
Parecida. Não há motivo para a abstenção ser mais alta, deve ficar entre 20% e 22%. E, como na eleição passada, prejudicará mais o Lula. O eleitorado dele é de renda mais baixa, que é o que mais falta. Se variar, será dentro desse limite.
Beto Vasques
Parecida. Existem elementos que fazem crer que será maior já que o eleitor está desmotivado, mas, cada vez mais, o eleitor liga o chip em cima da hora. Nas duas últimas semanas, é quando começa a conversa pública sobre eleições. A abstenção tende a ser a mesma de 2022, vai variar menos 1%, mais 1%.
Nara Pavão
Um pouco maior. A gente vem observando uma curva crescente da abstenção desde 2014. Até porque as pessoas estão bastante cansadas da polarização, que é algo que demanda muito delas. Então, é possível sim que a gente encontre um aumento da abstenção.
Renato Dorgan Filho
Maior. Tende a ser maior porque a descrença e a falta de esperança são maiores. Em 2022, havia mais pessoas que gostavam de Lula e de Jair Bolsonaro. Existe uma descrença desesperadora agora. Tem muita gente que vai votar em um para o outro não ganhar.
Rosana Pinheiro-Machado
A taxa de abstenção vai ser muito grande, mas se vai ser maior ou menor, não sei responder. Trata-se de uma análise estatística. A tendência é que seja maior, especialmente por causa da crise do STF, que coloca combustível no sentimento de rejeição à política.
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