Publicado em 23 de setembro de 2026 por Tribuna da Internet
Charge do Latuff (Brasil 247)
Luiz Felipe Pondé
Folha
Somos todos Custódios! Essa deveria ser a placa a ser carregada diante do STF que aí está. Você não sabe quem é Custódio? Explico. Eu poderia ser cruel com você e dizer “procure numa IA”. Mas vamos lá. Um ato de generosidade faz bem no começo da semana, meu caro leitor.
No romance “Esaú e Jacó”, de Machado de Assis, romance menos conhecido pelo grande público do que “Memórias Póstumas de Brás Cubas” ou “Dom Casmurro”, o personagem Conselheiro Aires —”Memorial de Aires” será o último romance de Machado, sendo este conselheiro Aires o mesmo conselheiro Aires do romance “Esaú e Jacó”— é procurado para aconselhar um apavorado Custódio, proprietário de uma confeitaria cujo nome é “Confeitaria do Império”.
NOVA FACHADA – Estamos nos dias da Proclamação da República. Custódio, mero mortal brasileiro, como todos nós — diferentemente dos “deuses” do STF, que podem fazer o que bem entenderem com a República brasileira —, acabou de fazer uma nova fachada para sua confeitaria, cujo nome é Confeitaria do Império.
Seu pânico é se, diante do golpe militar da República, ele deveria mudar o nome da confeitaria, e, por consequência, jogar todo o dinheiro gasto na nova fachada no lixo. E pior. Estaria ele em risco de ser caçado como inimigo da República? Machado, profeta.
Muitos já acusaram Machado de ser niilista, cínico, cético, alienado, incapaz de captar a luta de classes no Brasil do Segundo Império. Não, Machado era, sim, um profeta. Somos todos Custódios diante do fato de que, república ou império, tanto faz, somos todos vítimas da delinquência de nossos líderes que esmagam nosso dia a dia com sua verborragia, esta, sim, cínica e niilista. E, por que não dizer, esmagados pela corrupção de caráter que percorre o Estado brasileiro, seja ele república ou império, esquerda ou direita.
VIVER COM MEDO – Podemos reconhecer nesta singela passagem de que forma cidadãos comuns vivem com medo diante dos atos de seus líderes. No geral, trata-se de uma análise de toda relação entre o poder e seus infelizes. No caso particular do Brasil, a passagem remete ao fato, reconhecido pela ironia do Conselheiro Aires, de que, ao final, entre nós, tanto faz o regime, o país é sempre o mesmo: um pântano de delinquência política e moral.
Podemos afirmar, com segurança, que caso Machado voltasse hoje, ele reconheceria o país em que viveu, ainda que vivamos na era digital e da IA. No Brasil, a história não se move. Aliás, a máxima positivista “ordem e progresso” é uma gargalhada diante dos nossos olhos atormentados pela questão existencial “devo ou não mudar a fachada que acabei de refazer da minha confeitaria?”. No Brasil, não há nem ordem, nem progresso, nem lei.
O pequeno empresário Custódio, em diálogo com o Conselheiro Aires, cogita mudar o nome da sua confeitaria, cuja fachada foi recém-reformada, para Confeitaria da República. Mas, teme o Custódio —”e se o golpe da República sofrer um contragolpe e voltarmos ao Império?” Talvez fosse mais prudente, antes de gastar de novo toda aquela dinheirama, aguardar para ver se a tal República vai pegar ou não —seja lá o que isso implicar para o modesto cotidiano do pequeno negócio.
MUITAS DÚVIDAS – Mas, e se a pobre confeitaria de Custódio fosse lida pelos novos senhores do velho poder como uma tentativa de golpe contra a República? E se o pobre Custódio for preso pela República? Como ficarão os seus?
O sábio Conselheiro Aires propõe uma solução intermediária, genérica e um tanto cínica: Confeitaria do Governo. Não! Todo governo tem “oposição”, e, por isso mesmo, Custódio ficaria à mercê da “oposição”.
O pobre coitado gastou dinheiro, mas, como ele é, assim como todos nós, um pobre diabo nas mãos de nossos poderosos ministros de Estado, o resultado é ficar em choque diante das forças históricas e políticas que assolam nossas vidas. Forças essas muitas vezes citadas, assim como quem diz estar modernizando o país em nome do povo.
VELHACOS DE SEMPRE – Tais termos bonitos, que acadêmicos e políticos cunharam, nos seus gabinetes, servem para o exercício de poder dos velhacos de sempre do Estado decadente.
A República, fruto de um golpe militar empacotado para presente como “ordem e progresso”, de lá para cá, provou-se inútil. O espetáculo de humilhação do Brasil levado a cabo por seus políticos e pelo vergonhoso STF que, com sua corrupção de caráter, inaugura uma nova fase de tirania e destruição do país, prova que a República do Brasil é uma farsa ridícula.
Império ou República, tanto faz, o Estado brasileiro é governado por corruptos que fazem o que bem quiserem com o país. Enfim, uma terra sem lei.