Publicado em 22 de setembro de 2026 por Tribuna da Internet
No afã de defender Moraes, Gilmar está falando asneiras
Affonso Ghizzo Neto
Estadão
Há momentos em que uma declaração pública merece ser analisada não pelo prisma político ou eleitoral, mas pela qualidade do argumento empregado. A frase atribuída ao ministro Gilmar Mendes — “até a máfia tem ética” — oferece justamente esse tipo de reflexão.
Independentemente de quem seja o alvo da manifestação ou das circunstâncias que a motivaram, é perfeitamente legítimo defender que ninguém seja submetido ao vale-tudo, à humilhação ou à exposição indevida. O problema está no recurso utilizado para sustentar essa defesa.
ÉTICA SUPREMA – Invocar a máfia como referência de “ética” é, no mínimo, uma escolha retórica contraditória e potencialmente intimidatória. Organizações criminosas não constituem parâmetro aceitável de comportamento moral ou institucional.
Associá-las a uma suposta noção de ética não torna o argumento mais razoável; ao contrário, desloca a discussão de seu ponto central e introduz uma referência marcada justamente pela violência, pela intimidação e pela transgressão da lei.
Uma crítica consistente não precisa de frases de efeito para adquirir autoridade. Se a questão é defender dignidade, respeito e limites na atuação de instituições e indivíduos, esses próprios princípios deveriam ser suficientes para sustentar a argumentação.
RESPONSABILIDADE – Há, ainda, uma questão de responsabilidade na linguagem utilizada por autoridades públicas. Quanto maior a autoridade de quem fala, maior é o peso de suas palavras — e maior, portanto, a responsabilidade por aquilo que comunica.
Especialmente em momentos de tensão, espera-se que a indignação não substitua a ponderação, muito menos seja expressa por meio de ameaças, agressões verbais ou referências que possam ser interpretadas como intimidação.
É possível condenar uma atitude considerada injusta, abusiva ou desrespeitosa sem recorrer a comparações que, em vez de esclarecer, produzem ruído, desqualificação e mais tensão no debate público.
EXEMPLO EQUIVOCADO – No debate institucional, a autoridade de um ministro do Supremo Tribunal Federal não deveria depender da intensidade da voz ou da contundência de uma frase, mas da solidez dos argumentos apresentados. A autoridade da função pública exige, sobretudo, responsabilidade na palavra.
Talvez essa seja a principal reflexão que o episódio permita fazer: para defender a ética, não é necessário buscar exemplos justamente onde ela não deveria ser procurada — em ambientes historicamente associados à violência, à intimidação e à criminalidade.
Criticar eventuais excessos com excessos raivosos pode produzir uma ironia involuntária: a forma da crítica acaba enfraquecendo o próprio princípio que se pretendia defender. Quando a intenção é defender limites, respeito e dignidade, a linguagem também precisa respeitá-los.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – O artigo, publicado na coluna do Fausto Macedo, destrói com elegância a imagem de Gilmar Mendes, que vinha comandando o Supremo com rédea curta, não importa quem fosse o presidente, mas agora está completamente desmoralizado. (C.N.)