Publicado em 18 de setembro de 2026 por Tribuna da Internet
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Lula pensou (?) que já tinha vencido, mas se enganou
Elio Gaspari
O Globo
As pesquisas Quaest de segunda-feira e Atlas de quarta-feira caíram como uma bomba na campanha de Lula. Pela primeira vez, Flávio Bolsonaro ultrapassou-o na simulação de um segundo turno (42% a 40% e 47,2% a 46,8%).
A seco, esses números querem dizer pouca coisa. Estão dentro da margem de erro e eleição se ganha na urna. Mas Flávio Bolsonaro cresceu, absorvendo o apoio de eleitores que, há tempo, avaliavam negativamente Lula 3.0.
CAMPANHA CHIQUE – Era inevitável que a avaliação negativa migrasse para um adversário. Lula faz uma campanha chique, fala em terras raras, soberania e escala 5×2. Ulysses Guimarães dizia que política externa só dá votos no Burundi. Quanto à escala, é uma promessa de uma vida melhor, mas é promessa.
A mesma pesquisa Quaest tentou saber para onde iriam os votos de quem preferia Ronaldo Caiado, Renan Santos, Augusto Cury ou Romeu Zema. Juntos, eles somam 16% dos entrevistados. Num segundo turno, a maior fatia iria para Flávio Bolsonaro.
Como era de se esperar, na busca de responsáveis apontou-se para o ministro da Comunicação Social, Sidônio Palmeira. Contem outra, companheiros. Desde a fundação do PT, em 1980, o maestro dessa orquestra chama-se Lula.
FORA DA BRIGA – Com o Supremo Tribunal em chamas, Lula decidiu ficar fora das brigas e limitou-se a falar da necessidade de reformas na política e no Judiciário, o que não quer dizer coisa nenhuma.
Não se diga que Flávio Bolsonaro eleva o nível do debate. Seu único capital é o sobrenome, encrencado por um filme milionário bafejado pelo dinheiro de Daniel Vorcaro. A abulia de Lula alimenta o antipetismo.
O historiador francês Claude Manceron (1923-1999) escreveu cinco magníficos volumes sobre a Revolução Francesa. No primeiro tratou do ocaso do reino de Luís 15. Tendo reinado de 1715 a 1774, ele morreu de varíola, quando, segundo Manceron, havia saído de moda. Aquele Lula que passeia pelos palanques dominando plateias saiu de moda.
MUITOS PROBLEMAS – Lula 1.0 ou 2.0 poderia ter aberto as portas do Brasil para a jogatina (para arrecadar) mas, colocado diante das consequências, enfrentaria os problemas. No seu desenho original, o Bolsa Família era um monstrengo burocrático. Em poucas semanas, Lula 1.0 deu-lhe uma nova cara, que está aí até hoje. Lula 3.0 limita-se a condenar a facilidade para quem aposta, e mais nada.
Isso não quer dizer que colocarão coisa melhor no lugar dele. A melhor previsão do resultado da próxima eleição presidencial veio do banqueiro André (BTG Pactual) Esteves: “A eleição será 51% a 49%, só não sabemos para quem”.
A ideia de que Lula passaria um trator em Flávio virou fumaça, e ele está diante de um adversário favorecido pela indefinição.
POUCA DIFERENÇA – A volta de Lula ao Planalto foi uma coisa tão espetacular que a aritmética ficou esquecida. Ele ganhou a eleição por uma margem de 1,8 ponto percentual (pouco mais de 2 milhões de votos de diferença).
Dois anos depois, o candidato apoiado pelo PT à Prefeitura de São Paulo foi batido por uma margem de mais de 1 milhão de votos.
O eleitor mandava sinais, mas os poderosos de Brasília não ouviam.