Publicado em 20 de setembro de 2026 por Tribuna da Internet

Foto de Wilton Júnior (Estadão)
Vicente Limongi Netto
Craque do jornalismo e da literatura, Ignácio de Loyola Brandão não esmorece. Não verga corpo nem refuta o combate. Com texto sublime e irretocável, mostra sua indignação com o atual e podre Brasil. É um privilégio e uma honra, antecipar aqui na nossa tribuna da internet sua bela crônica de domingo, publicada hoje no Estadão.
Ao enviar o texto, o mestre da Academia Brasileira de Letras anexou um bilhete: “ Vicente, para que leias antes, aqui vai minha crônica do próximo domingo, em primeira mão. Não é distopia nem ficção cientifica, apenas pura realidade…”
NORMALIDADE
Para Mary Del Priore, em solidariedade
Estou ficando apavorado. Não me assusto mais com guerras, bombas nucleares, tufões, enchentes, El Niño, prédios desmoronando, vulcões explodindo, calor tremendo, tornados. Nem com aquele sujeito que comprou milhares de parlamentares e homens de governo.
Nas ruas, hábitos normais. Autos com vidros destruídos e milhões de celulares levados. Rios sobem e ocupam praças, ruas, becos, porões, terraços, templos, derrubando viadutos. Ventanias quebram vidraças; vidros caem sobre a população, que não consegue se abrigar.
PARALISADO – Os altíssimos mega-arranha-céus que nos permitiriam entrar direto no paraíso desmoronam ao toque de um polegar. E os metrôs inúteis pela queda dos túneis? As avenidas ficam paralisadas por bilhões de autos enquanto um milhão de veículos entra em circulação a cada dia em São Paulo. Paralisados, também, pela falta de gasolina, álcool e eletricidade nos postos e refinarias.
Problemas de licitação, propinas, guerra entre fornecedores. Os vagões ferroviários descarrilados, trilhos surripiados. Pessoas correndo por becos em busca de apenas um orelhão que tenha resistido por milagre. Porque quatrilhões de celulares brotam a cada momento – até crianças de peito estão com eles nas mãos, mamam na telinha, esquecem os seios das mães. Concessionárias não conseguem fornecer “linha”; a atmosfera está contaminada.
Mais do que isso: aviltada por ladrões de energia e de fiações, além do fim das terras com minérios. E os extratores se abrigam em edifícios de concreto monumentais, com medo dos meliantes.
EM CASERNAS – Faz 50 anos que os Eternos Ministros Fundamentais, EMF, estão encerrados em casernas superprotegidas, construídas com o dinheiro de emendas parlamentares – facção de mais de mil membros infiltrados na União, Estados, municípios, mansões e casas de praia defendidas por aço e concreto, mas também sem comunicação, uma vez que a energia foi totalmente tomada por influencers assustadores, sem que se saiba por quê.
Ninguém mais tem ideia de em que país vive, como vive, do que viver. E, principalmente, para que viver? Esperamos que um dia cheguem a uma conclusão nos encontros iniciados há décadas para tomar a decisão final. Mas ela – na verdade, uma espécie de facção – não sabe o que decidir.
Todos sabem que estão ocupados e, assim, pedem vista e mais vista. Alguns morrem lá dentro e são colocados nos porões, substituídos por filhos, netos, concubinas e bisnetos. Só que ninguém sabe quem é, o que faz. Ou de onde vem o fedor mefítico que contamina a nação.
SÓ A POESIA – Diante desse quadro pintado pelo mestre Loyola, só temos salvação na poesia. A que segue abaixo é de minha autoria, e enviei ao meu grande amigo;
BACIA FLORIDA