domingo, fevereiro 22, 2026

Sem clima para bancar seus supersalários, Congresso deve engolir veto de Lula

Publicado em 21 de fevereiro de 2026 por Tribuna da Internet

Charge do Bruno (Arquivo Google)

Leticia Fernandes
Estadão

Lideranças da base e da oposição, ouvidas pela Coluna do Estadão, afirmam que não há clima no Congresso para derrubar o veto do presidente Lula aos penduricalhos no projeto que concede aumento a servidores de Câmara e Senado, permitindo que eles ganhem mais que o teto constitucional.

Apesar de o “trem da alegria” ter sido aprovado com folga nas duas Casas, parlamentares dizem estar de mãos atadas em ano de eleição, diante de um projeto tão impopular. Eles ainda terão que rever os benefícios fura-teto nos 60 dias determinados pelo ministro Flávio Dino, do STF.

SURPRESA – Parlamentares ouvidos pela Coluna afirmaram terem sido surpreendidos com o teor do texto que foi votado na Câmara. O próprio relator dos projetos, deputado Alberto Fraga (PL-DF), afirmou que só recebeu o texto quando já estava no plenário, na hora de votar, e que teve menos de meia-hora para avaliar a proposta.

Lula  vetou parcialmente as propostas, aprovadas na Câmara e no Senado, que concederam os reajustes e ampliaram as gratificações dos funcionários do Congresso. Segundo cálculos de técnicos legislativos, o impacto nas contas públicas seria de quase R$ 800 milhões.

Além de concederem aproximadamente 9% de reajuste linear para os servidores do Legislativo, os projetos criaram gratificações de desempenho que podiam dobrar os salários. O pacote de bondades vem sendo chamado nas redes sociais de “trem da alegria” e o governo identificou que enfrenta ampla rejeição da sociedade.

REFLEXO –  A avaliação dos deputados é que o veto de Lula vai afetar mais os servidores do Senado do que os da Câmara, já que o reajuste foi mais amplo na Casa, para cerca de 400 pessoas, enquanto na Câmara ela beneficiaria 72 servidores, apenas os com salários mais altos.

O deputado Pedro Paulo (PSD-RJ), relator da reforma administrativa na Câmara, afirmou que não há clima no Congresso para derrubar o veto de Lula. Ele disse que alertou o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB) que a repercussão seria negativa: “Não há o menor clima, e eu avisei que o resultado seria esse. O recado do (Flávio) Dino vai para os barões dos penduricalhos que acham que ninguém está vendo”.

GRATIFICAÇÃO –  O primeiro projeto de autoria da Mesa Diretora, presidida por Motta, criava a Gratificação de Desempenho e Alinhamento Estratégico (GDAE), correspondente ao percentual mínimo de 40% e máximo de 100%, incidentes sobre o maior vencimento básico do respectivo cargo efetivo ocupado pelo servidor.

Essa gratificação concedia um dia de licença para cada três dias de trabalho. Essa concessão poderia ser feita por até dez vezes por mês, com possibilidade de um recebimento em dinheiro em vez da licença.

Com isso, o salário de altos funcionários da Câmara podia chegar a aproximadamente R$ 77 mil – casos dos consultores do último nível de carreira, chefes de gabinete de liderança e do secretário-geral da Mesa. O teto constitucional, que deveria ser o limite de recebimento de um funcionário público, é o salário de um ministro do STF: R$ 46.366,19.


Bacanais de Vorcaro explicam por que tantas autoridades tentam protegê-lo


Charge do JCaesar: 2 de fevereiro | VEJA

Charge do JCaesar (Veja)

Carlos Newton

A elite brasileira detesta o país e tem um atroz complexo de inferioridade, que faz com que imite os estrangeiros em tudo, inclusive em suas mazelas. Assim, com os países do Primeiro Mundo enlameados no caso Epstein, um monstruoso escândalo de corrupção e pedofilia, o Brasil teve de correr atrás e agora surgem os bacanais organizados pelo banqueiro Daniel Vorcaro para agradar autoridades e políticos que pudessem colaborar para sua bilionária escalada no enriquecimento ilícito. 

Com aval do correto e eficiente subprocurador-geral do Tribunal de Contas da União, Lucas Furtado, a denúncia dos bacanais de Vorcaro exibe o complexo de inferioridade da elite brasileira masculina, que o banqueiro atendia sempre com material importado – jovens arianas da Ucrânia, Croácia e Rússia, que o banqueiro mandava vir em seu superjatinho que foi apreendido pela Polícia Federal.

FESTAS DE ARROMBA – As reportagens de Alexa Salomão e Joana Cunha, na Folha, exibem declarações da proprietária da mansão que Vorcaro alugava em Trancoso, região paradisíaca no Sul da Bahia, denunciando a intensidade das festas sexuais.

Os jornalistas contam que, em mensagens de WhatsApp, reproduzidas no processo, a antiga dona da casa se declarou furiosa com o que aconteceu no local e acabou vendendo a propriedade a ele.

“O Vorcaro encheu a minha casa de putas. Ele, amigos e muitas putas! Desde anteontem, reclamações por causa do som acima do permitido. Ontem foi pior”, escreveu Sandra ao corretor no dia 5 de outubro de 2022. Era a véspera do aniversário de Vorcaro.

FAZIA GRAVAÇÕES – A reportagem revela que era proibido entrar com celulares nas festas, mas Vorcaro mandava fazer gravações clandestinas, que foram encontradas pela Polícia Federal em seus celulares.

O assunto é altamente explosivo e balança a República, porque Vorcaro deu festas simultaneamente a eventos com políticos, empresários e magistrados. Os bacanais aconteceram não somente em Trancoso, mas também em São Paulo e até em Lisboa, durante o chamado Gilmarpalooza, assim como em Nova York, no badalado seminário Semana do Brasil.

É claro que essas gravações estão despertando pânico e explicam o motivo da forte influência de Vorcaro sobre altas autoridades, políticos e magistrados.

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P.S. 
– Vejam que as elites brasileiras estão se esforçando para serem comparadas ao Primeiro Mundo. A diferença é que, enquanto no Reino Unido o príncipe Andrew foi preso pela polícia britânica, devido ao caso Espstein, aqui no Brasil é enorme a dificuldade para prender um banqueiro, um político ou um ministro do Supremo que tenham enriquecido ilicitamente. Ou seja, ainda temos de pastar muito até nos considerarmos desenvolvidos(C.N.)


sábado, fevereiro 21, 2026

Segurança pública: inteligência é o começo, não o fim

 

Segurança pública: inteligência é o começo, não o fim


Por José Montalvão

Reduzir a criminalidade e enfrentar o tráfico de drogas é uma missão complexa. Não existe solução mágica, nem medida isolada capaz de resolver um problema que envolve fatores sociais, econômicos, institucionais e culturais. O trabalho de inteligência policial é fundamental para atacar o núcleo financeiro e organizacional do crime, mas ele é apenas o primeiro passo na construção de uma política de segurança pública eficaz e duradoura.

A inteligência permite identificar lideranças, mapear rotas, rastrear movimentações financeiras e desarticular redes criminosas antes que o crime aconteça. É a diferença entre agir preventivamente e apenas reagir após o dano. O policiamento orientado por inteligência otimiza recursos, evita ações aleatórias e direciona esforços para onde realmente há risco.

Mas, sozinha, a inteligência não sustenta resultados permanentes.

O primeiro grande desafio é a integração institucional. A cooperação entre Polícia Civil, Polícia Militar, Polícia Federal, Polícia Penal e Guardas Municipais precisa superar rivalidades históricas e falhas de comunicação. Sem troca eficiente de informações, o crime organizado se aproveita das brechas. Segurança pública exige atuação coordenada, com bancos de dados integrados e estratégias conjuntas.

Além disso, segurança não se faz apenas com polícia. A criminalidade nasce também da ausência de oportunidades. Por isso, políticas de saúde, educação, assistência social, cultura e urbanismo são parte da equação. Investir em escolas de qualidade, programas para juventude, tratamento de dependência química e melhoria de espaços urbanos reduz vulnerabilidades e diminui o recrutamento pelo tráfico.

Outro eixo essencial é o investimento contínuo em tecnologia. Ferramentas como análise de dados, sistemas de monitoramento, reconhecimento facial (dentro dos limites legais), rastreamento financeiro e uso de inteligência artificial podem ampliar a capacidade investigativa. Porém, tecnologia exige manutenção, capacitação e controle para evitar abusos.

O policiamento comunitário também é decisivo. Quando a polícia constrói laços de confiança com a população, aumenta o fluxo de informações e fortalece a prevenção. Comunidades que confiam nas forças de segurança colaboram mais, denunciam mais e se sentem protegidas, não intimidadas. Respeito e responsabilidade são pilares dessa relação.

Há ainda um ponto sensível: o sistema prisional e o funcionamento da Justiça. De nada adianta uma investigação bem-feita se não houver condenações eficazes e cumprimento adequado da pena. Presídios não podem servir como centros de comando de facções. É necessário investir em controle interno, bloqueadores de sinal, separação adequada de lideranças criminosas e políticas reais de ressocialização.

A experiência de estados que investiram em inteligência e integração, como São Paulo, mostra que quedas consistentes nos índices criminais estão associadas a planejamento estratégico de longo prazo, uso de dados e atuação coordenada. Mas mesmo nesses casos, os resultados só se mantêm quando há continuidade administrativa e políticas sociais complementares.

Em síntese, a inteligência policial permite agir no momento certo, de forma preventiva e estratégica. Contudo, a efetividade duradoura depende da união entre tecnologia, integração institucional, políticas sociais e fortalecimento do sistema de Justiça. Combater o tráfico e reduzir a criminalidade não é tarefa de um único órgão, nem de um único governo — é um compromisso coletivo e permanente.

Segurança pública se constrói com firmeza, planejamento e responsabilidade. E, acima de tudo, com visão de longo prazo.

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 José Montalvão -  Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública,  pós-graduação em Jornalismo proprietário do Blog DedeMontalvão, matrícula ABI C-002025

Editorial — Civilidade que fortalece a democracia em Jeremoabo

 

                                    Foto Divulgação

Editorial — Civilidade que fortalece a democracia em Jeremoabo


* Por José Montalvão

Hoje, em conversa com um leitor deste blog, ouvi uma observação que merece registro público: a atual presidência da Câmara Municipal implantou um novo ritmo de trabalho, no qual oposição e situação, mesmo com pontos de vista distintos, passaram a conviver com civilidade e respeito mútuo. Acabou — ou ao menos diminuiu sensivelmente — aquele clima de “ringue”, de baixarias e ataques pessoais que em nada contribuíam para o avanço do município.

Sob a condução do vereador Neguinho de Lié, a Casa Legislativa vem resgatando um princípio básico da democracia: divergência não é inimizade. O debate pode — e deve — ser firme, mas precisa ser respeitoso. Quando há urbanidade, quem ganha é o povo.

É preciso lembrar o papel fundamental do Poder Legislativo municipal. O vereador não é despachante de favores, nem intermediador de privilégios. Ele é representante da população, criador de leis e fiscal do Poder Executivo. Atua como elo entre o cidadão e a administração pública. Quando essa função é compreendida com clareza, o mandato se fortalece.

A voz da comunidade deve estar acima de interesses pessoais ou de grupos. Um vereador comprometido prioriza o conjunto dos moradores, não apenas sua base eleitoral. Ética e transparência não são opcionais: são deveres. Prestar contas, comunicar ações com clareza e manter o diálogo constante são práticas que aproximam o povo da política e reduzem a desconfiança histórica.

Outro ponto essencial é a fiscalização. Cabe à Câmara verificar se o orçamento está sendo aplicado corretamente, se as obras não estão superfaturadas ou atrasadas, se a saúde e a educação estão funcionando como deveriam. Para isso, existem instrumentos legítimos: solicitação de documentos, visitas técnicas, convocação de secretários . Fiscalizar não é perseguir; é cumprir a lei.

No campo legislativo, a responsabilidade é igualmente grande. Criar leis municipais sobre transporte, educação, saúde, habitação, zoneamento urbano e tributos como IPTU e ISS exige estudo e compromisso. A aprovação da Lei Orçamentária Anual e do Plano Diretor define os rumos da cidade. É nesse momento que se decide onde investir, quais prioridades adotar e como planejar o futuro.

Importante também reconhecer os limites: o vereador deve atuar sobre assuntos de interesse local. Quando o debate foge dessa competência e se transforma em palanque ideológico nacional, perde-se tempo e energia que deveriam estar voltados aos problemas concretos da cidade.

Se a atual presidência conseguiu reduzir tensões e elevar o nível do debate, isso já representa um avanço institucional significativo. A política municipal não precisa ser palco de espetáculos constrangedores. Ela pode — e deve — ser espaço de construção coletiva.

Trabalhar com respeito e representar com dignidade não é slogan; é obrigação. E quando a Câmara assume essa postura, demonstra maturidade democrática. Que esse novo ritmo não seja exceção, mas regra permanente. Porque a população não espera gritos — espera resultados.

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Por que a gestão de Tista de Deda tem o apoio da maioria dos jeremoabenses?


Por que a gestão de Tista de Deda tem o apoio da maioria dos jeremoabenses?


* Por José Montalvão

Em política, apoio popular não nasce do acaso. Ele é construído no dia a dia, nas decisões concretas e na forma como o governo trata as pessoas. Em Jeremoabo, a resposta para o apoio à gestão do prefeito Tista de Deda é simples: trata-se de um governo que voltou seus olhos para o social, para o trabalhador do campo, para os servidores públicos e, sobretudo, para o respeito ao cidadão.

Durante anos, muitos profissionais da educação enfrentaram um ambiente de tensão, perseguições e desvalorização. Houve relatos de professoras adoecendo emocionalmente diante de pressões psicológicas, humilhações e falta de diálogo. A escola, que deveria ser espaço de aprendizado e acolhimento, tornava-se palco de insegurança e medo. Esse cenário gerava sofrimento e comprometia a qualidade do ensino.

Hoje, o clima é outro. A atual gestão estabeleceu um diálogo democrático com os professores, reconhecendo que não existe educação de qualidade sem valorização profissional. O respeito institucional substituiu o autoritarismo. O canal de comunicação está aberto, e as divergências são tratadas com conversa, não com perseguição. Como diz o ditado popular, “quem canta seus males espanta” — e, simbolicamente, muitos educadores hoje encontram leveza para seguir trabalhando, deixando para trás os males do passado.

Outro ponto decisivo é a atenção ao social e ao homem e à mulher do campo. Um governo que compreende a realidade rural entende que fortalecer o agricultor familiar é fortalecer a economia local. Apoiar quem planta, cria e produz é garantir alimento na mesa e renda circulando no município. Essa sensibilidade social aproxima a gestão da população mais simples, que por muito tempo se sentiu esquecida.

Na saúde, o compromisso tem sido oferecer atendimento com mais dignidade. Não se trata apenas de consultas e medicamentos, mas de respeito ao paciente, organização do serviço e responsabilidade com os recursos públicos. Quando o cidadão percebe melhoria no atendimento e mais humanidade no trato, ele reconhece o esforço.

A criação e fortalecimento da Ouvidoria Municipal também simbolizam um avanço democrático. Ao oferecer um canal oficial para reivindicar, elogiar ou denunciar, a prefeitura demonstra que não teme a voz do povo. Pelo contrário, estimula a participação. Isso fortalece a confiança institucional e reduz a distância entre governo e governados.

O apoio majoritário à gestão não se explica por propaganda, mas por percepção prática. Quando professores se sentem valorizados, quando o trabalhador rural é ouvido, quando o cidadão encontra portas abertas para dialogar e quando a saúde começa a recuperar a dignidade, o reconhecimento vem naturalmente.

Governar é, antes de tudo, cuidar de pessoas. E quando a população percebe que há esforço real em reconstruir o respeito, restaurar o diálogo e priorizar quem mais precisa, o apoio deixa de ser discurso e passa a ser consequência.

É essa mudança de postura — mais humana, mais social e mais democrática — que ajuda a explicar por que tantos jeremoabenses apoiam a atual gestão.

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Saída de Toffoli expõe crise ética e freio nos limites do STF, diz OAB-SP


Sica defende código de ética para o tribunal

Arthur Guimarães de Oliveira
Folha

A medida do ministro Dias Toffoli de deixar o caso do Banco Master no STF (Supremo Tribunal Federal) demonstra amadurecimento, mas ainda é superficial. Essa é a opinião do presidente da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil, seção São Paulo), o criminalista Leonardo Sica.

Sica defende que o tribunal não tem competência para conduzir o processo e precisa se afastar do caso. “O Supremo não é uma vara criminal”, diz o advogado. “E, por não ser uma corte criminal, quando se envolve com casos tão complexos, o resultado é a dificuldade do tribunal.”

CONSULTA – Ele afirma que a OAB-SP deve analisar em março uma consulta sobre os limites éticos na relação entre advogado e magistrado, incluindo um virtual cenário de viagem em jatinho com um ministro do STF, como o episódio envolvendo o ministro Dias Toffoli.

A conversa ocorreu após o ministro Edson Fachin apontar Cármen Lúcia como relatora de uma proposta de código de ética para a corte. No mesmo dia, a ministra, presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), anunciou regras de conduta para juízes eleitorais.

“Foi uma feliz surpresa”, conta Sica, que estava em Brasília na ocasião. Ele afirma que lhe diziam: “Muito bonito isso que vocês fizeram, mas daqui não vai passar.” Isso porque a OAB-SP é autora de uma minuta de código de conduta para o STF.

RESISTÊNCIA – A ideia de diretrizes de ética para ministros tem o apoio não só da seccional paulista da Ordem, mas de entidades da sociedade civil. A proposta, no entanto, enfrenta resistência interna no tribunal. Até mesmo o Conselho Federal da OAB demorou a se manifestar.

Como mostrou a Folha, a OAB Nacional enviou a Cármen e Fachin um documento com balizas para orientação à elaboração do texto. A mensagem ignora a minuta de São Paulo e manda um recado sobre o “endosso precipitado a formulações ainda não formalizadas”.

PROPOSTA – “A OAB Nacional acha que o tempo para amadurecer a ideia é depois de o Supremo Tribunal Federal apresentar a proposta. Há uma diferença de opinião entre a OAB Nacional, a OAB-SP e entre várias outras OABs”, afirmou Sica, antes da manifestação da OAB Nacional.

Sica recebeu a Folha na sede da seccional no último dia 2. O advogado respondeu a novos questionamentos da reportagem na última sexta-feira (13) após o anúncio da saída do ministro Toffoli do caso do Banco Master.

Como o sr. recebeu o anúncio do código de ética?
Foi uma feliz surpresa. Porque minutos antes se dizia que não seria viável. Me encontravam nos corredores e falavam: “Muito bonito isso que vocês fizeram, mas daqui não vai passar. Não tem clima”. Minha preocupação era que o debate ficasse interditado. Existem ideias que têm o seu tempo. Não são de alguém, são do tempo, da sociedade. É o que se quer, como em algum momento a sociedade quis Direta Já, uma nova Constituição. A sociedade agora quer isso.

E como avalia as recomendações da ministra Cármen?
Ela já começou a desenhar as linhas conceituais do que pretende fazer no STF. É um prenúncio. O debate agora dá a oportunidade para recolocar uma questão importante: quem é contra, se apresentar e falar por quê. A gente ouve falar de resistências, mas até agora parecem ocultas. Não sei quem, por que resiste. É bom que se apresentem. Pode ser que tenham “senões” na ideia que a gente não está vendo.

Uma ala do Supremo diz que é ano eleitoral e que o tribunal está sob ataque. Como o sr. responderia?
Infelizmente o Supremo Tribunal Federal não vai sair das manchetes tão logo. Esperar o momento em que não esteja em evidência… É um esperar para nunca. Não vai acontecer. E temos eleições de dois em dois anos no Brasil. Se não formos fazer reformas por causa disso, a gente não faz mais nada. A gente não pode paralisar.

Por que a OAB Nacional não endossou a proposta da OAB-SP?
A OAB Nacional optou por falar em reforma do Judiciário. O sistema OAB tem complexidades… Existem, naturalmente, e é bom que existam, diferenças de perspectivas e de tempo. A OAB Nacional acha que o tempo para amadurecer a ideia é depois de o Supremo Tribunal Federal apresentar a proposta. Há uma diferença de opinião entre a OAB Nacional, a OAB de São Paulo e entre várias outras OABs.

Quem está do lado da OAB-SP e quem está do lado da nacional?
Nossa posição foi apresentada na sessão do Conselho Federal [no dia 2], e ninguém foi contra. Ninguém se manifestou de forma contrária. Estou considerando que a gente tem um amplo apoio. Publicamente, a OAB do Paraná e de Minas Gerais se manifestaram a favor mais claramente. Imagino que não haja nenhum estado contra.

Só o presidente [do Conselho Federal da OAB] Beto Simonetti.
A nacional espera a manifestação do Supremo. Vamos respeitar.

Quero discutir alguns pontos do código proposto. O art. 8º diz que “serão presenciais as sessões do tribunal, sendo facultada a participação remota em casos excepcionais.” Por que julgamento presencial virou baliza para conduta de ministro?
O julgamento presencial é público. O virtual não tem publicidade, não tem discussão pública Ninguém vê como isso é julgado. Isso é muito prejudicial. Vamos lembrar que o advogado é o primeiro fiscal da atuação do juiz. Só que o advogado não sabe o que acontece no virtual. O advogado não participar do julgamento significa o cidadão não participar.

Essa não pode ser vista como uma demanda corporativista?
É uma demanda da advocacia, mas coincide com o interesse público. Os jornalistas que cobrem o Supremo, como eles fazem? Vão, sentam no plenário e ficam vendo os julgamentos, as causas que se sucedem. É uma perda muito grande para a cidadania. É um choque constitucional que a gente precisa discutir. Vamos usar a tecnologia? Vamos, mas quanto a tecnologia vai impedir a publicidade nos julgamentos?

Outro ponto controvertido é a falta de previsão de uma punição em caso de desvio ético. Por que não haver algo nesse sentido?
A gente entende que punição só pode ser prevista em lei, e os códigos de conduta que seguem o modelo de autorregulação não preveem sanção, porque é um “soft power”. O código existe como um imperativo moral e um guia de conduta. A sanção não me parece necessária. Mas o impeachment continua existindo. O código de conduta pode dar base para o processo de impeachment. Não é a ideia, mas pode.

No início do caso Master, teve uma viagem de jatinho do ministro Toffoli com um advogado. A advocacia também não precisa pensar em uma atualização das normas de ética?
Precisa. Temos, no Tribunal de Ética, um processo aberto para que a OAB-SP manifeste o entendimento quanto a esse fato, não quanto ao caso concreto. Vamos, a partir de março analisar, exatamente essa hipótese. O Tribunal de Ética recebeu uma consulta externa, e vamos dar conta de quando o advogado tem que, de acordo com o código de ética, ligar os alertas de limite de proximidade com o juiz.

Como é o processo interno?
Teve uma consulta sobre algumas hipóteses de proximidade entre advogados e juízes. Quais os limites éticos para o advogado. Tudo em tese. O advogado pode viajar de jatinho com um juiz? Pode, as pessoas podem manter suas relações. A questão é se esse juiz pode julgar o caso depois? É isso que a gente tem que decidir, se eles podem se encontrar no processo ali na frente. E se o advogado é obrigado a alertar.

Como o sr. avalia hoje a postura do Supremo no caso Master?
O Supremo não deveria julgar esses casos criminais. É uma corte constitucional, não criminal. E, por não ser uma corte criminal, quando se envolve com casos tão complexos, o resultado é a dificuldade do tribunal. Um ministro tendo que falar sobre uma perícia criminal… Isso não existe. Não nesse caso, em nenhum.

Além das provas lacradas, teve determinação de acareação antes de depoimento e colocar o caso sob sigilo.
Então, o Supremo não é uma vara criminal. O juiz da vara criminal sabe conduzir uma investigação. Existem juízes competentes para isso. A gente não pode acreditar que os únicos magistrados competentes do Brasil para lidar com casos são ministros do Supremo.

O sr. acha que o ministro Toffoli deveria se afastar?
O Supremo deveria se afastar do caso. Eu não quero personalizar. Não acho que seja uma questão ligada a ele.

O que significa, do ponto de vista histórico e institucional, o ministro Dias Toffoli deixar o caso do Banco Master?
O impedimento ou suspeição de juízes é uma matéria maltratada no ordenamento jurídico brasileiro. Então, a primeira vez que o Supremo Tribunal Federal toma uma medida de mudar o relator de um caso por impedimento ou suspeição, embora tenha dito que não é, é. É uma decisão relevante. É uma decisão que mostra um amadurecimento institucional e que a gente está caminhando para tratar uma questão importante.

Como o sr. avalia a resposta dada pelos ministros do Supremo —e a forma como foi dada— à crescente pressão envolvendo o caso Master?
Entendo a resposta do Supremo Tribunal Federal a toda crise do Banco Master nesse momento como superficial, o que demonstra a necessidade de continuar o debate pelo código de conduta para aprimorar os instrumentos de defesa da integridade do tribunal.

Em entrevista à Folha, o presidente do IASP afirmou que, se o Supremo continuar agindo dessa maneira, as reformas podem ser mais drásticas que um código de ética.
Essa análise é correta. A falta de autocontenção pode levar o Supremo a isso. Ser contido por outros Poderes é o pior cenário para a democracia brasileira.

O STF está mais perto de se autorregular ou de ser regulado?
Sou otimista. Acho que está mais perto de se autorregular.

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Raio-X | Leonardo Sica, 51

Formado em Direito pela USP, é doutor em direito penal pela mesma instituição. Foi diretor do IBCCrim (Instituto Brasileiro de Ciências Criminais) em 2002 e presidente da Associação dos Advogados de São Paulo (2015-2016). Fundador do escritório Sica Advocacia, assumiu a presidência da OAB-SP em 2025 com mandato até 2027.

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